É a Lama! É a Lama!



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1904. Foto de João Martins Torres : Trabalhadores contratados para retirar material da Encosta do Morro do Castelo no Centro do Rio de Janeiro, como parte do Bota Abaixo para a abertura da Avenida Central.

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Do Caos à Lama
O céu caindo sobre nossas cabeças

Não sei se existe um ranking, mas talvez o Rio de janeiro seja a cidade mais excludente do mundo.

Eternamente colonial a cidade parece ter sido planejada para manter sua imensa população pobre segregada de tudo, com uma parte habitando uma periferia da qual só se chega à parte rica – a urbe real – por meio de um sistema de túneis e a outra parte amontoada nos morros e encostas, como bandos de urubus espreitando as migalhas que cairão dos apartamentos e das mansões.

Como os supostos ricos daqui são escravistas renitentes (os habitantes da zona sul do Rio pensam que ainda estão na Corte do Império do Brasil), manteve-se aqui uma relação sórdida com os descendentes de escravos do pós-Abolição, mantendo-os totalmente à margem da sociedade, sem política de inclusão social alguma, nenhum direito de gente normal que não seja o de exercer a condição de eternos escravos domésticos ( ‘negros de ganho‘ como no passado) sem trabalho regular ou formal, sem educação, sem saúde, transformados em prestadores de todo tipo de serviço de baixa especialização (biscateiros, lavadeiras, seguranças, faxineiras, pedreiros, babás, cozinheiras, marceneiros, lixeiros, camelôs, bandidos, etc.)

Para poder trabalhar e comer com os rendimentos tão miseráveis que amealham com seus ‘bicos’, os pagens e serviçais  tiveram que ir se alojando nas áreas próximas que sobraram baldias, os morros e as encostas da cidade, áreas historicamente desprezadas pela elite que, desde de quando D.João VI adotou os seus banhos de mar medicinais nos cafundós do Caju, gosta mesmo é de viver  no bem bom e na curtição da dolce vita à beira mar.

Do mesmo modo que mantinham senzalas ao lado de suas casas grandes patriarcais, os cariocas descendentes daquela pomposa aristocracia cortesã do tempo do império, fecharam os olhos à ocupação desordenada do solo urbano, permitindo que se formassem espécies de guetos-senzalas, comunidades de miseráveis que se aboletaram em barracos construídos com caixotes e folhas de zinco e depois em precárias casas de alvenaria, construídas nas encostas e morros das zonas Sul e Norte, de qualquer jeito, do dia para a noite, no mais completo e épico Deus-dará.

Como não podia deixar de ser, com um fluxo incessante de gente vinda da periferia e até mesmo de outros estados, atraída por enganosas oportunidades que a cidade teria a oferecer, estes morros logo ficaram superpovoados, acabando por  explodir as represadas  mazelas e feridas sociais, as mais pustulentas que ruminavam,  fazendo ferver um caldeirão de violência tão  exacerbada que gangs de traficantes de drogas, no auge insuportável de seu crescimento como instância de poder paralelo, passaram a dominar partes significativas do espaço urbano, como autoridades de fato.

O caos do Rio de Janeiro hoje é quase absoluto. Literalmente nossos problemas pós coloniais estão desmoronando sobre nossas cabeças.  Apavorada, a  elite bacaninha vê a água marron, a lama, o lixo e os dejetos mais absurdos, escorrerem sobre a decantada maravilhosidade que as autoridades constituídas da cidade alardeiam para o exterior.

Fazer o que? Avisar a gente sempre avisa – eu mesmo já cansei de escrever sobre isto – mas sabem como é:  A elite do Rio é estúpida e ignorante como toda elite de qualquer lugar. É gente que acha que estando acima do bem e do mal pode manter a situação indefinidamente sob controle, investindo apenas em polícia para conter à força, a circulação dos serviçais além dos muros invisíveis de seus guetos infectos e fedorentos.

Só agora, com as Olimpíadas e a Copa do Mundo chegando, depois do formidável abate de um helicóptero por snipes bandidos, começaram a refletir um pouco sobre a sinuca de bico em que se encontram. O máximo que conseguiram, no entanto foi tentar repetir a estratégia eugenista doBota Abaixo perpetrada pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, aquela ‘reforma urbana’ que expulsou os pobres do centro da cidade (o entorno da atual Avenida Rio Branco) para…para onde? Para alguns dos mesmos morros que desmoronam hoje, por obra das irrecorríveis leis da natureza.

E vejam só o que mais:

Entre outras mazelas, esta relação doentia criou também uma dependência total entre  ‘ricos’ e ‘pobres’, uma relação promíscua cujo símbolo maior é  o mercado das drogas.

Sejamos francos. A elite carioca – mais ainda talvez que a elite das outras grandes cidades do Brasil – além de ter ojeriza pelo trabalho braçal por conta de uma inapetência histórica, adquirida no tempo da escravidão – é hedonista e permissiva por natureza.

Moderna como se julga ser, esta pretensa elite acabou ficando viciada nas drogas que passou a consumir (principalmente a cocaína), de forma quase massiva, movimentando uma quantidade imensa de dinheiro escuso que para ser gerido, exigiu a formação de diversos comandos para-militares, que armados até os dentes,  articulam outros comércios paralelos e sucedâneos  como o tráfico de armas, de munição de guerra e os sequestros de pessoas, por exemplo.

(Você sabia que, curiosamente os traficantes chamam o seu negócio de ‘Movimento’?)

Como os pobres estão aí mesmo para todo o serviço (principalmente o sujo) já que foi isto que  lhes restou como alternativa de sobrevivência,  este mercado milionário se caracterizou sob a forma de uma divisão de tarefas onde quem estoca, controla e disponibiliza as mercadorias ilícitas é a negra bandidagem favelada e quem banca o mercado, consumindo a droga é a elite branca bem nascida, protegida e mediada por uma polícia corrupta, numa dicotomia que será em algum prazo explosiva.

Insanos. Querem por que querem esconder o problema debaixo do tapete, gastar o mínimo (para talvez desviar, roubar, o máximo) planejam maquiar, pintar a cidade de verde, amarelo, azul e branco para nesta estratégia cosmética imbecil, expulsar os pobres, de volta para bem longe do futuro, certos de que seu quadro de privilégios jamais será afetado.

Mas como? Como e para onde expulsarão quem já foi expulso no passado e que já é tão desvalido?

Não há mais espaço, nem na periferia, para isto. A cidade inteira está tomada, atravancada de problemas estruturais com gente saindo pelo ‘ladrão’. As favelas com suas precárias fronteiras já encostando umas nas outras se transformaram em ‘complexos’,  sub-cidades clandestinas, subterrâneas,  algumas com população tão numerosa quanto a de cidades de porte médio do resto do país. O lixo social que eles, os da elite, lançaram de suas janelas virou uma montanha preta imensa e nauseabunda, quase sem tamanho.

Excluir mais ainda os favelados do Rio seria, pois, um plano digno de sadomasoquistas, seres desumanos, com lepstopirose na alma.

E se esta montanha preta de iniquidades desmoronar, como está desmoronando agora nestas avalanches mais que simbólicas ? O  volume assustador de entulho pode afogar a cidade inteira num lodaçal histórico (um castigo bíblico, pois, como todo mundo deve saber, lama caindo do céu não tem preferência social. A lama é santa e democrática, afoga a todos igualmente porque é pública.)

Sim, a merda líquida que transborda dos esgotos do Rio é de todos nós.

Aparvalhada, a cidade é governada por administradores ineptos (no linguajar popular uns ‘merdinhas‘, uns ‘conversinhas‘) políticos carreiristas que preferem muito mais vender os peixes podres que viabilizam  suas eternas candidaturas do que fazer realmente algum bem, mesmo que corriqueiro, para a população que os elegeu.

É, meus amigos: A cidade do Rio de Janeiro pode estar se aproximando perigosamente do seu dilema mais terrível, do seu check mate de metrópole incompetente e inviável por sua própria culpa. A qualquer momento, basta uma fagulha e a situação pode ficar fora de controle. Este  caldo de cultura fedorento um dia entorna num indesejado ‘Viradão Carioca’.

Dê só uma olhada para a cara das vítimas dos atuais desabamentos e reflita. Não é preciso IBGE nenhum nos informar o óbvio. A estatística está aí, visível na TV,  gritando na nossa cara: Quem perdeu e cada vez está perdendo mais, morrendo mais, é a mesma negregada galera do período pré-abolição. É a escravidão aviltante ainda pulsando em nós.

Agora é fácil. Expulsamos os nossos seres-dejetos para bem longe da urbe chic, à custa  sabe-se lá de quantas ocupações ‘pacificadoras’, quantas UPPs.  A bandidagem recua da zona sul e se ajeita na periferia mais remota, montando ali seus arsenais e paiós em novas cidadelas.

Junte a tragédia de morros se dissolvendo com o sonho das ‘otoridades’ – e da elite – de expulsar a população favelada para o mais longe possível das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Coloque pitadinhas de UPPs e tropas de elite, junte tudo com o medo pânico agora portado pelas pessoas que moram nestes morros, espantando-as para as partes planas da cidade e me diga o bicho que dá. O bicho é feio ou não é? Dá até medo.

A pergunta então é: E aí? O que faremos quando a Copa e as Olimpíadas acabarem? Gravamos um jingle ‘we are the world’ em ritmo de Samba e disputamos com o Haiti no tapa – ou no ‘cuspe em distancia’ – a grana da ajuda humanitária da ONU?

_”É a lama! É a Lama!_ cantaria um moderninho bloco do Carnaval de Santa Teresa parafraseando Tom Jobim, tentando abafar a voz rouca do Coronel Kurt que existe em cada um de nós (aquele piradão do filme  ‘Apocalipse Now“) , gritando para a avalanche de lama que escorre do cinzento céu desta cidade cada mais vazia de encantos mil:

_” É o Horror! É o Horror!”

Spírito Santo
Abril 2010

Gostou? Se enojou? Então leia também o post irmão deste: FAVELÓPOLE

EXU CHIBATA – Resenha da peça


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(Na foto João Cândido é conduzido preso por um oficial da polícia – atentem para o sorriso orgulhoso de João diante da atenção dos populares em torno, expressando abertamente a sua admiração para com o ‘Almirante Negro’)

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Em 2010 se comemorará 100 anos de um dos incidentes mais importantes de nossa história: A Revolta da Chibata, rebelião de marinheiros ocorrida em 1910, liderada, entre outros por João Cândido Felisberto, timoneiro do maior navio de guerra do Brasil na época e conhecido popularmente como o ‘Almirante Negro‘.

É bastante provável que as comemorações deste fato tão empolgante – e tão significativo para a afirmação da nossa democracia –  empolguem o país inteiro, de norte a sul, marcando o reconhecimento definitivo e inquestionável de João Cândido Felisberto como um dos mais importantes heróis da nossa pátria Brasil.

A montagem da peça Teatral resenhada abaixo por seu próprio autor, inspirada neste empolgante acontecimento histórico bem que poderia ser um destes eventos.

Com toda certeza contudo, a peça poderá ser vista em Abril no teatro do Centro Cultural Laura Alvin, no ciclo de leituras dramatizadas de teatro ‘Negro Olhar‘ (veja o site do projeto neste link)

No elenco as emblemáticas figuras de Ruth de Souza, Haroldo Costa, Milton Gonçalves além de uma garotada da pesada (atores e atrizes) selecionados especialmente para a ocasião.

Na programação também constarão textos dos dramaturgos Aimè Cesaire (Martinica, Caribe) e Amiri Baraka ( EUA). Não percam!

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Exu Chibata é uma peça teatral escrita em 1994 (leia texto integral neste link) que tem como proposta principal o estabelecimento de um diálogo estético e dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais.

O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético, no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do Circo convencional e do popularíssimo Circo-teatro (forma implantada no Brasil por atores e palhaços geniais como Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves). São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

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EXU CHIBATA –

Qual cisne Branco em noite de lua / Peça Teatral de Spirito Santo Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994

Rio de Janeiro 1994

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