O Paradigma do Macaco


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Afinal, quem são os primitivos estúpidos nesta história?

“…O filme traça a trajetória do homem desde, aproximadamente, quatro milhões de anos antes de Cristo, até o ano de 2001, sempre abordando a evolução da espécie, a influência da tecnologia nesse crescimento e os perigos da inteligência artificial.

O final, um dos mais emblemáticos da história do cinema, mostra astronautas travando uma luta mortal contra o computador – a versão moderna do confronto entre criador e criatura, que já inspirara clássicos como Frankenstein.

Um monólito cai na Terra ainda na época da pré-história e, muitos anos depois, em 1999, é descoberto um segundo monólito na Lua.

Aparentemente, são alienígenas que observam os terrestres, então uma missão internacional é enviada a Júpiter com a missão de descobrir o que eles realmente querem”.

O filme, todo mundo sabe é ‘2001, uma odisséia no espaço’ de Stanley Kubrik, baseado na obra genial de Arthr C. Clarke. Nele, no momento da pré-história quando o primeiro monólito negro cai, um orangotango também negro lança um osso para o espaço.

O osso-ferramenta, girando no vazio, se transforma numa nave espacial. O osso transmutando-se em nave, pela força mágica de um inexorável e enigmático paradigma (o monólito) navega solitário entre galáxias.

Osso e nave, macaco e homem, símbolos da relatividade da inteligência humana, inscrita no tempo e no espaço. E nós todos ali, juntos naquela nave útero-de-mãe-solteira, irmanados, aprisionados em nossa odisséia de reles macacos sobreviventes, perdidos no espaço.

Algum conflito? Alguma ameaça? Sim, claro. Sem isto qual seria a graça da história. É por isto mesmo que o filme nos apresenta também o aterrorizante Hal 9000, o computador pirado, criado pela mesma humana estupidez de sempre.

Hal, arrogante e prepotente, pensa que nós todos, os astronautas é que somos estúpidos e ignorantes incorrigíveis, como… macacos.

Hal coloca tudo a perder neste seu delírio, nos levando à morte, à extinção (Ufa! apenas simbólica no filme, pois a terra ainda existe e está lá, bem distante de nosso drama). Pouco importa. O certo é que o filme é mesmo emblemático. Nos dias de hoje mais ainda.

Estupidez humana. Hajam monólitos e paradigmas para quebrá-la.

Macaco é a mãe!
Cena 01

A piada mais sem graça que ouvi na vida, quando ainda era bem criança – não entendi bem porque na época – era aquela que desqualificava, grosseiramente, a notória qualidade da oratória de José do Patrocínio, o nosso grande jornalista e abolicionista.

Na piada, Patrocínio discursava empolgado quando lá no fundo da platéia alguém gritava algo como:

– “Cala a boca preto!”

Ao que Patrocínio, impassível, mesmo diante das gargalhadas nervosas da platéia de políticos, brancos em sua maioria, emendava:

– “… Preto como o feijão, que abastece as nossas mesas saciando a nossa fome!”

Mas a voz ao fundo insistia:

– “Cala a boca crioulo!”

E Patrocínio respondia de pronto, sem pestanejar:

_ “Crioulo sim, como o jacarandá, madeira nobre com a qual construímos os móveis que embelezam os nossos salões!”

Era quando então, acossada pela dificuldade de desmontar a firme convicção do orador a voz apelava:

_” Cala a boca, macaco!”

Patrocínio, ainda no mesmo tom, respondia:

_”Macaco como… macaco como…(mas, logo a seguir,estressado, perdia a linha,)…Macaco é a puta que te pariu!”

Aí, sim, o clímax, a catarse. Patrocínio desqualificado, caído de sua pose e rebaixado à condição de reles crioulo normal.

As pessoas da audiência que ouvia a piada, indiferentes ao desconforto que eu denotava com o meu risinho amarelo e constrangido, desatavam a rir gargalhadas irrefreáveis, estúpidas para mim, porém, tão normais para elas, que só me restava ficar ali, alheio, quase invisível, pensando de onde tiravam graça daquela comparação de um homem negro com um macaco.

Porque faziam aquilo, pensava eu, na época ainda bem criança? O que haveria de errado, de tão estigmatizante com os crioulos e os macacos para incomodar tanto aquela gente? Não seriam também elas, estas pessoas, descendentes dos mesmos macacos?

———–

Lembrei desta piada vivamente outro dia mesmo quando a também, majoritariamente, branca (pelo menos em padrões brasileiros) platéia de Interlagos, São Paulo, na decisão da corrida de fórmula 1 de 2008, inconformada com perda do campeonato pelo brasileiro Felipe Massa, xingou o inglês Lewis Hamilton, o virtual campeão, primeiro negro a conquistar o título:

_”Crioulo, Macaco! Devia estar correndo era da polícia!”

Soube que não houve a entrega do prêmio de campeão da temporada naquele dia. O pai de Hamilton, por conta de outras agressões racistas ocorridas no decorrer da temporada, chegou mesmo a pensar em sugerir ao filho abandonar o esporte. Disse, com outras palavras, é claro, que achava aquele ambiente sórdido demais para a sua família.

Na verdade, a expressão ‘macaco’ me evocou lembranças bem mais particulares e doídas, me fazendo reconhecer agora mesmo – e vocês, os que nunca passaram por tão vexatório desconforto, haverão de me perdoar – que preciso expurgar de mim estes sujos traumas a que fui exposto, única e exclusivamente, pelo fato de ter nascido negro num país racista.

Desabafo pessoal? Não, não, de modo algum. Este é um legítimo protesto coletivo. Milhões de brasileiros tiveram como eu, a memória destas ofensas avivadas neste momento diante da TV e, mais uma vez se indignaram com elas e vão, com certeza, buscar, cada dia mais ardentemente, um jeito de desagravá-las.

Queremos desmontar o Hal 9000 que habita – e comanda – esta nave espacial chamada Brasil, antes que esta piração sem graça e sem sentido do racismo que nos atordoa e cega, nos leve a todos para o buraco.

Macacos do mundo, uni-vos!

Macaco é a mãe!
Cena 02

18 anos, por aí. Bairro suburbano. Pelas ruas, casas e apartamentos, pobres e remediados, funcionários públicos, operários, gente humilde enfim. Nós, adolescentes heróicos, hormônios à flor da pele, debandávamos de casa aos sábados, ultra perfumados à ‘Patchuli‘ ou ‘Lancaster’, rumo à praça central do bairro com a adrenalina à mil.

Eram poucos, pouquíssimos os brancos no bairro, me recordo agora. Esta história de diferenças raciais, de modo algum, passavam pelas nossas cabeças de negros naquela época. Nem parávamos para pensar o que queria dizer ser isto ou aquilo, em termos raciais.

Anti-racialistas ingênuos, éramos a esmagadora maioria no bairro, mas, isto nos parecia uma condição, perfeitamente, natural. A vida seria assim e pronto.

Vivíamos – só fui intuir muito tempo depois – num gueto isolado, excluídos pelos mesmos parâmetros que justificam hoje o confinamento de pessoas em favelas e ‘comunidades’ carentes, mas, para nós, o mundo inteiro era assim, pobre como nós.

Ignorávamos, completamente, esta sociologia torta e perversa, visivelmente, predominante hoje, sem serventia alguma para nossas vidinhas de rapazes e moças felizes naquela remota virada da década de 1960. Misturávamos cachaça com coca-cola (dava ‘Samba’) na dureza e rum com coca-cola (dava ‘Cuba-Libre’) . Tanto fazia. O objetivo, era mesmo ficar doidão.

Por isto, por esta santa ignorância (ou inconsciência, sei lá) do que vinha a ser racismo, convivíamos, tranquilamente com os gatos pingados brancos de nossa vizinhança. Eu mesmo tinha um grande amigo que era, desbragadamente, branco, louro até.

A pracinha do bairro era um circo curioso (havia nela, inclusive, um parquinho de diversões). Pensando naquela pracinha hoje, o que me ocorre é um barulhento ritual num pátio de acasalamento.

Em pares, às vezes em grupos eufóricos de, no máximo, quatro jovens, ficávamos rodando pela praça, dando voltas renitentes, como num rally à pé. Rapazes, mãos nos bolsos, tensas, num sentido, moças de braços dados, não menos tensos, no sentido inverso.

Ao se cruzarem, os pares – ou grupos – faziam gestos dissimulados, lançavam olhares e palavras cifradas, com significados que ensejavam, ou não uma paradinha, palmilhada de risinhos histéricos das moças e pigarros nervosos dos rapazes. Ali, um casal se formava e começava um namoro. Ou não. Uma promessa ao menos, um talvez-quem sabe-um-certo-dia.

Era este o nosso rito de passagem de jovens magrelos, frio na espinha (e espinhas na cara), ansiosos por conhecer o sexo oposto e, quiçá, o maior amor de nossas vidas.

Me lembro, vivamente, da noite em que eu e meu amigo branco, circulando na praça nos fixamos numa dupla de moçoilas. Eram brancas, mas, e daí? Estávamos atraídos pelo risinho disfarçado de uma delas, não conseguimos decifrar se era para ele ou para mim.

–“ Sorriu pra ele, claro” – Pensei inseguro.

Mas eram duas, custava nada tentar. “_Quem não arrisca não petisca” -, pensei, me reanimando.

Não sei ao certo o que eu disse para ela, qual foi o gracejo, deve ter sido algo bem imbecil, imagino. Os gracejos juvenis são sempre chavões idiotas, que a gente decora para quebrar o gelo, domar o pânico, estas coisas. Não foi dita nenhuma grossura, claro. Gracejos juvenis também são sempre marcados por alguma poética ingênua, babaca mesmo, de um romantismo jocoso, o gracejador querendo parecer gentil, espirituoso e, na ânsia de agradar, chegando até a gaguejar às vezes .

Foi por isto que aquela frase dela me atingiu como um soco no estômago:

_” Não se enxerga não, seu macaco!”

Nunca me recuperei daquela ofensa estúpida e gratuita. Jamais entendi direito o que poderia justificar aquilo. Lembrando o incidente, marcado para sempre pelo impacto dele no meu íntimo, percebo que tivesse havido no tom da voz dela, naquele rompante de ódio desmedido, uma reação inconsciente diante do fato de ter recebido um gracejo de mim, o negro, e não do branco.

Talvez fosse este acaso o que a tivesse feito se sentir tão diminuída, rejeitada, desprezada como uma cadela sem cio. Ela se sentira vulgarizada pelo meu gracejo o qual – que ironia -, com toda certeza devia ser algum galanteio, um elogio.

Talvez nem branca ela fosse – pensei depois, ressentido- , apenas parecesse e tivesse uma necessidade neurótica de esconder isto das amigas brancas. Um pai mulato, uma mãe parda? Seria isto? O fato é que não entendi – como não entendo até hoje – o sentido daquilo. Pura neurose, concluí.

Fácil refletir agora, mas, como saber ali, no calor da hora, o que se passava na cabeça de uma pessoa assim. Quem ensina estas coisas às mocinhas brancas? Quem alimenta esta bílis, este veneno na cabeça delas? De onde vêm estas práticas, cinicamente, guardadas em gavetas forradas com papel rosado, que explodem assim, rancorosas, na cara de sujeitos ingênuos como o tolo rapazola que eu era?

Um trauma juvenil foi o que ficou, podem interpretar assim. O que sei é que aprendi que existia racismo ali, naquele momento, a cabeça girando, sentindo uma espécie de náusea inexplicável, querendo afundar no chão da praça e sumir.

(E pensar que existem milhões de rapazes e senhores negros, agora mesmo, remoendo esta mágoa como eu…)

O amigo branco também nem no assunto tocou. Fingiu que não ouviu. Não demonstrou nenhuma solidariedade, nem mesmo fingida. Orgulhoso, me recompus e, disfarçadamente, me juntei a um grupo de rapazes iguais á mim, que estavam no parquinho de diversões ao lado, mandando pelo serviço de auto-falantes mensagens românticas anônimas, para moças também como eles, naquela acomodação social que talvez sempre existisse, sem que eu, tivesse tido ainda a chance de perceber… Até aquela hora.

Aquele “não se enxerga, não?” ressoando na minha cabeça como se tivesse sido gritado pelo auto-falante, era uma mensagem bem clara: Um negro – ou um macaco – devia sempre saber onde era o seu lugar.

O Macaco é a mãe!
Cena 03

Poderia ter sido comigo, mas, é fato também que, como muitos outros, um conhecido meu, do mesmo bairro e na mesma época, passou pelo mesmo revés quando adolescente. Turrão como um cão sem dono, não se emendou, não engoliu a ofensa, não recuou. Decidiu, ali, naquela hora que daria o troco um dia.

Anos depois, surgiu a oportunidade e ele encarou a barra de assumir um casamento inter-racial, por pura rebeldia, concluindo depois (claro, de tão estúpida que era a idéia, ele só se deu conta do erro terrível que cometera anos após).

Você já viu algum estudo sério sobre casamentos inter-raciais no Brasil? As próprias pessoas envolvidas não falam, trancam suas intimidades a sete chaves. Quantos casais inter-raciais você conhece? Aposto que dá para contar nos dedos de uma das mãos.

Você não acha estranho que um país onde, por baixo, metade da população é negra (sem contar os genéricos ‘não-brancos’, índios, nordestinos, etc.), o índice de casamentos inter-raciais seja tão irrisório? Pois bem, este meu amigo teve, amargamente, o dissabor de saber tim tim por tim tim, por que as coisas aqui são assim. Querem saber também? Olha o que ele me contou:

“A pressão da família contra o namoro era enorme. Desprezo absoluto e explícito, nenhuma autorização para as saídas mais prosaicas, nem mesmo um cineminha. Uma situação que, infelizmente, só atiçava os meus brios libertários, envolvido que estava, romanticamente, naquele clima contra cultural dos anos 70…

“Eu vou. Porque não? Porque não? Porque não?”

Confuso naquele afã de ser o rebelde, uma espécie de ‘Che Guevara’ de um politizado e idealizado amor, aquele que desafiaria o sistema de castas raciais que predominava, mesmo naquele remoto bairro suburbano, ele não se tocou, nem mesmo quando sentiu o ar atemorizado da família e dos amigos que avisavam, insistentemente:

_”Olha, rapaz…. você está brincando com fogo”.

Mas, não adiantava avisar. Casaram-se. A princípio, integrando-se no mundo branco dela (à margem da família), começou a perceber que a ele estava reservado o papel incômodo de um personagem conhecido como o ‘negro da patota’, aquele de quem se espera que divirta, distraia a galera com alguma habilidade especial.

_”Ah, que legal! Ele conta piadas! Ele toca violão! Ele samba tão bem!”

(A regra é clara: Um negro no Brasil não freqüenta um ambiente, majoritariamente, branco se não tiver alguma habilidade especial que o destaque. É preciso mostrar a que veio. Já pararam  para observar esta máxima?)

Nunca ser ele mesmo, nunca ser a persona, o indivíduo negão. Sempre o personagem.

Isto sem contar os sapos que ele, o meu amigo, engolia, relevando os olhares preconceituosos das pessoas, as piadinhas pouco de salão e as insinuações salpicadas de maldades ferinas, nos ambientes mais corriqueiros, bares, cinema, etc. Pareciam sempre estar pensando:

_” Que diabo faz aquela branca tão fina casada com aquele crioulo doidão?”

No ambiente inverso, contudo, era ela que não se adaptava, oscilando sempre entre a timidez constrangida e a vontade irresistível de assumir logo o papel de outro personagem, este abominável, inaceitável para as pessoas dali: A sinházinha branca ‘superior’, aquela que estava ali por pura concessão de sua parte, simplesmente, por ser uma branca ‘compreensiva’, ‘gente boa’.

Personagens cínicos, canastronas representações e estereótipos banais, é disto que se nutrem as nossas tensas relações raciais.

O certo é que o pessoal, levando na brincadeira para não ofender o amigo, ironizava a ‘atuação’ dela apelidando-a (não sem algumas pitadas de sarcasmo) de ‘Princesa Isabel, a venturosa’, ‘Viridiana de Bangu’ (lembram do filme do Luis Buñuel?), e outros meigos vulgos e codinomes.

Mas eram os anos 70, ora. O mundo acordara há pouco de um longo torpor político. Panteras negras, Vietnam… Claro que a relação do meu nobre amigo com a branca azedaria e, não demorou muito mesmo a degringolar.

Mundos estanques, inconciliáveis, ele acabou decidindo divorciar-se dela. No ato letigioso da discussão dos termos gerais para a dissolução do casamento, ainda no corredor do fórum ele ouviu dela o vaticínio de que ele seria, ao final das contas, o único e irremediável perdedor.

_”Porque?”_ perguntou, com o restinho de ousadia que lhe restara.

_”Porque você é preto e eu sou branca”

Disse isto com aquele desdém típico das mulheres despeitadas, o veneno escorrendo no canto da boca (ex-esposa, nestes casos, é a pior inimiga, a mais implacável que um ser humano pode ter na vida, diz este meu amigo até hoje e, penso eu, coberto de razão).

Não deu outra. Tiveram vários conflitos ainda, relacionados a graves pendências conjugais. Numa delas, chegou a perder a cabeça e esbofeteá-la em público. Para os amigos que presenciaram a cena, achando que ele errara feio desta vez, ele justificou:

_”Não deu pra segurar não, gente. O sangue me subiu à cabeça quando ela me chamou de… macaco!”

O macaco está certo.
Todos os macacos em um

Você viu: O negro Barack Hussein Obama ganhou as eleições norte americanas. O mundo inteiro festejou eufórico. Fala-se numa mudança de paradigma. Achei as comemorações por aqui, não sei bem porque, bem modestas, contidas, chôchas até.

Das dezenas de amigos brancos que tenho hoje (do mesmo modo que o meu amigo louro do remoto subúrbio) pouquíssimos tocaram no assunto comigo. Fiquei decepcionadíssimo, mesmo sem entender. Uma amiga de ‘esquerda’, retirada por mim de seu mutismo absoluto sobre Obama, com uma pergunta direta, respondendo quase à força, complementou sorrindo amarelo:

“_ É, mas, ele não é negro!”

Incomodado com este estranho e lacônico comentário (olha que já se vão mais de quarenta anos daquele emblemático incidente na pracinha suburbana) naveguei por links e links na internet buscando a compreensão, sempre tão fugidia, deste assunto, de novo tão atual.

Lá, no resto do mundo, a festa. Aqui o quase silêncio, a comoção travada, o comedimento ‘anti-racialista’.

Lá descobri que pouca coisa mudou. Mas, vai mudar. Os ares são, fortemente, de mudança. O que não mudou lá é o ódio travado de alguns. O serviço secreto da casa Branca está preocupado com as muitas questões de segurança que a proteção à vida de Barack Obama demandará.

Só pelo fato de ser negro ele é um alvo potencial de racistas do mundo inteiro. Querem matá-lo pela ousadia de ter sido o primeiro negro eleito na América racista.

_”Matem o macaco!” -Devem estar sussurrando por ai.

Abismado achei estas citações atribuídas ao chefe da Ku klux Kan extraídas do site que a organização nazista, dita ‘supremacista’ mantém na rede:

“Thomas Robb, considerado por ele mesmo como o “Grande Cavaleiro da Ku Klux Klan”, quis opinar momentos após o triunfo do democrata Barack Obama e disse, entre outras insólitas declarações, que “se converteu no primeiro presidente mulato dos EUA”, já que é “metade negro” e não “negro”.

“Para justificar a escolha de Obama, Thomas publicou uma nota em um portal da Ku Klux Klan onde dizia que:

– “Ele não é negro porque foi criado (domesticado) por sua mãe branca”.

Além disso previu uma guerra racial entre negros e brancos e disse que os afro-americanos são “aliens” que querem destruir a cultura cristã”.

————–

_” Obama não é negro!?”- Incrível! É a mesma frase daquela minha amiga ‘de esquerda’.

Sendo assim, pensei, aqui no Brasil já devem estar chamando (entre quatro paredes, é claro) o mais importante líder político do mundo de… Macaco.

Mas não tem jeito. Morto ou vivo Obama, o mito da supremacia branca está, irremediavelmente, quebrado. Ninguém mais xingará abertamente o meu amigo (nem a mim) porque agora, um ‘macaco’, exatamente como nós, comanda o mundo.

Sim. Nós também podemos.

Estamos diante de um paradigma digno de Arthur C.Clarke e Stanley Kubrik. A Odisséia no espaço recomeçou em outra órbita:

É o Paradigma do Macaco.

Spírito Santo

Nov 2008

Crioulo doido revisitado – ‘Palinhas’ do livro do Titio


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Timbila (Rito de passagem- puberdade) Moçambique

Enredo #01

(As partes entre aspas e em itálico deste post são enxertos do livro do Titio “Do Samba ao Funk do Jorjão“)

“O ‘Samba do Crioulo doido’, único samba feito aqui pelo neto do Dr. Armindo, colocou Stanislaw nas paradas de sucesso. O Samba conta a história de um crioulo que ficou doido de tanto fazer samba-enredo para a sua escola contando episódios da História do Brasil. O crioulo já estava misturando estação, quando pediram que ele fizesse mais um samba, desta vez usando a atual conjuntura. Aí o crioulo endoidou de vez.

Endoidou e fez um samba que é um amontoado de incongruências sobre episódios históricos. A única verdade está no primeiro verso que diz: ‘Foi em Diamantina, onde nasceu JK”…

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“Sergio Porto, o sarcástico jornalista e cronista autocodenominado de Stanislaw Ponte Preta, crítico mordaz de nossos costumes políticos e institucionais mais controvertidos é quem vos fala acima, ali por volta de 1969 em seu livro ‘Na terra do Crioulo doido’.

Stanislaw criou o clássico ‘Samba do Crioulo doido’ (citado na nota), com a intenção bem medida de, em plena ditadura militar, ironizar nossa incúria intelectual, também de forma inpagável resenhada na série-sigla humorística ‘ FEBEAPÁ’ (FEstival de BEsteiras que Assola o PAís’).

Nas entrelinhas de seu ‘samba-enredo’ pode-se, contudo, enxergar outras nuances e conceitos, também muito populares no Brasil, entre as quais, a controversa – e talvez subliminar – associação entre gente negra e ignorância, criada a partir daí, por certos setores da elite intelectual brasileira, atitude a qual Ponte Preta, um arguto crítico da estupidez flagrante de nossos costumes sociais, certamente, repudiaria…”

Não houve jeito. O mito muito popular, a despeito de ser preconceituoso a mais não poder, surgiu e vicejou como mais um epíteto racista, passando a classificar como ‘samba-do-crioulo-doido’ tudo aquilo que é mal resolvido, confuso, sem pé nem cabeça.

Encurtando então esta conversa, usada apenas como introdução, a questão que este post pretende colocar na roda é se a culpa desta nossa incúria intelectual pode mesmo ser atribuída, ainda que simbolicamente, ao nosso múltiplo e valoroso criouléu.

Ou, simplesmente, não haveria incúria intelectual alguma, não passando tudo de fruto de uma mania de perseguição de uma teoria da conspiração destas,que acomete, vez por outra, o nosso estressado criouléu, passageiro compulsório deste bonde de neuroses que é o Brasil do século 21?”

Eu, modestamente, diria que não. Muito pelo contrário, aliás. E você?

Senão, vejamos:

Kizomba ou Que Zona?

Mitos e mistificações na cultura negra do Brasil

“Penso que a chamada cultura negra do Brasil tem sido estudada, com raríssimas exceções, a partir de premissas, estranhamente, equivocadas. O maior de todos estes curiosos equívocos, seguramente, é a subestimação com que certos círculos acadêmicos mais conservadores (entre outros círculos intelectuais, progressistas até), tratam a questão das origens, dos fundamentos históricos, sociais, antropológicos enfim, da cultura daquele enorme contingente de nossa população descendente de escravos africanos.

Há nestes estudos uma inexplicável e incômoda impropriedade, uma superficialidade tão evidente, uma omissão tão flagrante dos preceitos mais comezinhos da objetividade científica (aqueles que consubstanciam o conceito Ciências Sociais) que nos sentimos motivados a propor aqui, mais uma vez, a sua discussão.

As razões para este evidente ‘descaso acadêmico’ – ou intelectual – são mais ou menos óbvias, sendo atribuídas, geralmente ao que uns, com certo eufemismo e sutileza, costumam chamar de Eurocentrismo (Etnocentrismo para os íntimos) e outros, mais incisivos, insistem em chamar simplesmente, de Racismo. Causa e efeito um do outro, sabe-se lá, entre os dois conceitos, o que é o que (ou quem é quem).

De um modo ou de outro, o fato é que num primeiro momento, este provável ‘descaso acadêmico’ se funda em linhas de pesquisa e estudo, insistentemente, determinadas, embora sejam, sabidamente, linhas já superadas, desde o momento em que os embrionários processos de descolonização da África, iniciados com a aceleração da gradual abolição da escravidão colonial no fim do século 19 (para ficarmos num exemplo que nos diz respeito, diretamente) se instalavam, afim de dar lugar – e passar a justificar – ao que se convencionou chamar, um pouco mais tarde, de neo-colonialismo.

Definindo assim, a grosso modo, qual teria sido o paradigma ideológico que justificava, moralmente, a escravidão? A declaração oficial da organização religiosa (ideológica) hegemônica – o Catolicismo, no caso – de que o negro africano seria desprovido de alma, não estando por conta disto subordinado às leis de Deus ou às regras morais da humanidade.

Bestas, apenas semelhantes à seres humanos – como o são os chimpanzés e os orogotangos – perfeitamente afeitas ao trabalho compulsório, portanto.

Com o neo-colonialismo, o paradigma se alteraria ligeiramente: Embora reconhecido já como portador de uma ‘essência’, uma ‘alma’, promovido que havia sido à condição de membro da espécie humana, o negro africano passaria, contudo, a ser considerado ainda assim, resultado da rasa evolução de civilizações ainda muito ‘primitivas’, propiciadoras de ‘culturas atrasadas’, em estágio evolutivo muito inferior ao das demais civilizações (à frente as européias, é claro), definidas, racialisticamente, como ‘caucasianas’ e superiores, por um determinismo científico muito característico da época (início do século 20).

‘Silvícolas’, ‘indígenas’, ‘bons selvagens’, semelhantes aos demais seres humanos sim, porém, apenas fisiologicamente, já que, mental e intelectualmente seriam inferiores e, por isto mesmo, perfeitamente afeitos ao trabalho compulsório, portanto (ou, no mínimo, sub-remunerado).

Às metrópoles ocidentais neste caso, num gigantesco, desinteressado e ‘meritório’ esforço, caberia a missão de ‘colonizar’ (ocupando, é claro) o território e os ‘espíritos’ daqueles a quem a igreja católica antes chamara de ímpios, alçados agora à categoria de ‘gente inculta’, ‘ingênua’, ‘povos tradicionais’, carentes enfim do verniz brilhante da ‘civilização’

(Curioso se constatar que o que chamamos hoje de antropologia – ou etnologia, mais precisamente – nasceu deste espírito de ‘missão civilizatória’, praticado, a princípio por religiosos e depois por briosos funcionários de agências ‘do Ultramar’, enviados para as colônias em missões ‘científicas’).

Com efeito – e reflexo, é claro – dos modelos de promoção e estratificação social adotados entre nós até hoje, estes processos de desqualificação da cultura africana atingiram no Brasil – muito mais do que nas demais metrópoles coloniais – níveis de quase paroxismo.

A partir de procedimentos metodológicos, expontaneamente, criados talvez (um ‘modus operandis’ social) passou-se a fazer com que, em todas as áreas de estudo nas quais a cultura fosse o elemento catalizador (história, etnologia, antropologia, etnomusicologia, etc) a subestimação de determinados valores desta herança cultural, se transformasse em premissa, criando um arcabouço teórico consistente, porém falso, uma espécie de antítese ou versão ‘chapa branca’, oficial, da cultura negra do Brasil.

Peças bibliográficas contendo esta retórica acadêmica especializada, dedicadas, às vezes militantemente, à desconstrução dos elementos estruturais mais complexos desta cultura ancestral, foram sendo montadas, construindo em seu lugar, um complexo sistema de mitos e mistificações que tem servido, até hoje, para tentar ‘provar’ uma relativa inferioridade cultural da parcela de nossa população chamada hoje – com certa ironia até – de ‘afro-descendente’.

Como se fosse possível a esta vertente da cultura negra do Brasil, se desvincular de sua intrínseca ligação com o seu remoto passado, florescendo do nada ou nascendo – como se diz de filhos de pai ou mãe desconhecidos – de um reles ‘pé de repolho’.

Desqualificando-se a si mesma, isto sim, neste processo patológico de negação do outro, a produção intelectual brasileira neste campo, foi se tornando muito defasada em relação ao que já realizou a produção acadêmica das demais ex-metrópoles coloniais (Inglaterra, França, Portugal, Alemanha, Espanha, etc.). Para se constatar isto, basta tentar achar referências bibliográficas aprofundadas – e confiáveis – sobre cultura negra brasileira, produzidas recentemente aqui no país, numa simples busca na Internet.

Rarefeita será a seara encontrada já que, a maior parte do material, seguramente, dirá respeito ao Candomblé (com uma grande contribuição francesa, representada pelas pesquisas de Roger Bastide, por exemplo) e temas correlatos, variantes sobre o mesmo assunto recorrente: A chamada cultura dos yorubas e Jêjes (Ewe do antigo Dahomey, hoje Benin), descrita ou idealizada, numa série enfadonha de releituras e revisões dos textos clássicos mais famosos, a maioria escrita nas longínquas décadas de 1930, 1940 e 1950.

É a esta tendência, este círculo vicioso da antropologia sobre o negro no Brasil que denominamos ‘Reducionismo Nagô’.

O assunto, como se pode observar facilmente, é vasto e controverso. Havendo interesse expresso dos leitores, pretendo mesmo fazer uma série de posts-debates a partir deste que é apenas, o mito ‘aperitivo’, como se diz.

Vamos então tocar aqui, apenas de leve, na questão – que, como já disse em outra ocasião já foi objeto de um livro deste mesmo autor – iniciando pela exposição do que nos parece ser o mito-gênese de todo esta montanha de mistificações e equívocos, que – falando sério – não podem ser atribuídos, de modo algum, a todo este imenso coletivo de crioulos que, como eu, apesar de quase sempre serem doidos (com toda razão), até que não são tão ignorantes assim.”

Com vocês então, como uma espécie de releitura de mim mesmo:

‘Reducionismo Nagô’

Nina Rodrigues e o seu ‘pézinho na cozinha’

Retornemos ao final do século 19. A escravidão acabou, em termos históricos, há pouquíssimos anos. Nosso maior estudioso do assunto, o mais proeminente intelectual, chama-se Nina Rodrigues, um médico especializado numa ciência muito recente ainda, por esta época: A Medicina Legal. Nina Rodrigues reside então na França, para onde se transferiu, a fim de aperfeiçoar seus estudos.

Frisemos que Nina era um fervoroso seguidor das idéias de Cesare Lombroso, uma figura que é sempre bom descrever em detalhes, porque está no cerne do pensamento antropológico até hoje em voga no Brasil, por conta, exatamente, da enorme influência que exerceu em nossos antropólogos e etnólogos precursores.

…”Cesare Lombroso foi um professor e criminologista italiano, nascido a 6 de novembro de 1835, em Verona. Tornou-se mundialmente famoso por seus estudos no campo da caracterologia, ou a relação entre características físicas e mentais”…

…”A principal idéia de Lombroso foi parcialmente inspirada pelos estudos genéticos e evolutivos no final do século XIX, e propõe que certos criminosos têm evidências físicas de um “atavismo” (reaparição de caracteristicas que foram apresentadas somente em ascendentes distantes) de tipo hereditário, reminiscente de estágios mais primitivos da evolução humana. Estas anomalias, denominadas de estigmas por Lombroso, poderiam ser expressadas em termos de formas anormais ou dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias na face, etc, mas também de outras partes do corpo.

Posteriormente, estas associações foram consideradas altamente inconsistentes ou completamente inexistentes, e as teorias baseadas na causa ambiental da criminalidade se tornaram dominantes.

Apesar da natureza inconsistente destas teorias, Lombroso foi muito influente na Europa (e também no Brasil) entre criminologistas e juristas…”

Contextualizemos juntos então:

Lombroso – um gênio em seu tempo – utilizou como um dos principais elementos de seus estudos antropológicos-forenses, a natureza das precárias condições sanitárias e de higiene de comunidades camponesas italianas, bem como as especiais características dos seus modos de ser e de viver. Saúde (doenças mentais, entre elas o ocultismo, o espiritismo e a possessão ‘demoníaca’, etc) e Cultura; Criminalidade e Cultura; estes foram conceitos embrionários, imiscuídos num mesmo campo de estudo, relacionado à nascente Antropologia de então.

Por analogia com a obra do mestre, onde então teria ido Nina Rodrigues, brasileiro e bahiano, desenvolver suas pesquisa de campo? No seio da população negra da Bahia, classe subalterna do Brasil de então, portadora de uma curiosa e, a esta altura, ainda exótica cultura, praticada, inclusive, por muitos ex-escravos, nascidos na África.

Podemos combinar então que a ‘moderna’ antropologia sobre o negro brasileiro, se inicia portanto, inteiramente contaminada por estas novíssimas e controversas idéias de Medicina legal e Antropologia Forense.

A partir daqui atentem, por favor, para as significativas analogias que foram propostas entre certas características biotípicas de indivíduos negróides e a criminalidade – uma adequação ‘tropicalista’ das experiências de Lombroso com camponeses italianos, como se pode deduzir – ‘atestando’ em meticulosas tabelas antropomórficas, uma suposta tendência dos negros para a prática de delitos psicosociais (linha que aparece, claramente, nos estudos de Nina Rodrigues).

Providencialmente, é na mesma época, inclusive – não podemos nos esquecer – que Arthur de Gobineau publica “Desigualdade das raças Humanas”, livro no qual a existência de uma suposta raça “ariana”, superior a todas as outras (com apenas algumas “impurezas” produzidas pela miscigenação com raças inferiores) passa a ser, veementemente, defendida.

Tão eletrizantes para os intelectuais e acadêmicos da Europa da época quanto as lúgrubes idéias de Lombroso, o pensamento de Gobineau influencia, poderosamente, o pensamento de Nina Rodrigues (e vários de seus seguidores no Brasil, como Arthur Ramos, por exemplo.

A antropologia rudimentar de Lombroso e Gobineau, lançando as bases e fundamentos ‘científicos’ do racismo moderno tem, portanto, tudo a ver, com o raciocínio desenvolvido por Nina Rodrigues (que, segundo más línguas, teria um ´pezinho na cozinha’). Pelo menos é este o ideário expresso em seu único e derradeiro livro ‘Os Africanos no Brasil’ de 1906 que, nestes termos, visto por este ângulo, lança portanto as bases ideológicas do racismo à brasileira que, se definindo ali por volta da década de 1940, não sofre reavaliações importantes até hoje.

Você leu algo sobre isto no Brasil? Quase nada? Pois é. Tal é a lógica insana desta nossa sociedade de insuspeitados subterfúgios.

Em linhas gerais e bem elementares (o tema é muito rico e quem quiser pode aprofundar o quanto puder) a linha de pensamento, ou ideologia sugerida pelo pensamento de Nina Rodrigues – a qual estamos, efetivamente, apontando como a base principal para a maioria dos ‘desvios de rota’ ocorridos com a antropologia do negro brasileiro – foi a seguinte:

1- A população escrava oriunda da África do Norte (ou seja, gente vinda do Golfo do Benin e da Nigéria, basicamente) predominante no perímetro urbano da cidade de Salvador, Bahia, cultora do Candomblé (uma mitologia, segundo se diz, “tão bem” estruturada quanto a grega), por ser, supostamente, de ascendência próxima aos Camitas, ligeiramente aparentada com os ‘brancos’, portanto (traços fisionômicos um pouco similares aos de indivíduos caucasianos – nariz afilado, etc.), seria um extrato populacional semi-civilizado – no caso dos malês (islamizados), gente inclusive ‘letrada’-, apta, de modo geral, a serviços domésticos e afeita à educação e a assimilação social, podendo, em certa medida, viver no convívio em associação com os brancos.

2- A população escrava restante –esmagadora maioria -, originária da costa ocidental da África, basicamente o antigo Reino do Congo, que corresponde, mais ou menos, á atual república popular de Angola e adjacências (além, é claro, de Moçambique, na costa oriental da África) de ascendência predominantemente bantu, seria a parte mais baixa da pirâmide social brasileira, a raça inferior portanto, talhada para ser mantida em condições similares a que era mantida durante a escravidão (recentemente abolida à época de Nina). Os traços originais da ascendência africana desta parte da população negra, considerados rudimentares, teriam se diluído no contato com a cultura portuguesa ou com a propalada ‘pujança’ e superioridade da cultura nagô.

Podemos concluir, portanto, que os argumentos que, naquela época e neste contexto, justificaram o pensamento de Nina Rodrigues sobre a suposta superioridade da cultura Jêje-Yoruba (‘nagôs’) e conseqüente inferioridade dos negros Bantu (Angolanos, Moçambicanos, etc.), apesar de poderem ser vistos hoje, como rematadas tolices, por alguma razão prevaleceram.

Observe-se que, no caso específico da Bahia, berço e campo de pesquisa principal destes estudos recorrentes, chegou-se ao cúmulo de ignorar, quase que completamente, (por ser da outra matriz africana), a cultura tradicional de todo o vasto recôncavo (de forte presença angolana), geradora de manifestações emblemáticas para a cultura brasileira, como são a Capoeira e o Samba de Roda.

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O certo é que, a despeito de serem rematadas, estas tolices de modo algum estão mortas, figurando ainda hoje, renitentemente, como fundamentos da antropologia brasileira ‘oficial‘ sobre o assunto.

Você já leu alguma coisa sobre isto no Brasil? Pois eu também não. Encontrei estas informações em textos angolanos, editados em Portugal. Entre as quais os do antropólogo de Luanda José Maianga é, particularmente, importante, por conter uma aguda e abalizada crítica ao ‘Lusotropicalismo’, teoria (já citada aqui antes) engendrada por Gilberto Freyre, adotada pelo Salazarismo como política de dominação e controle populacional em suas colônias, sob o nome de ‘Assimilacionismo’.

O aspecto mais grave e irônico da questão – além do impasse absoluto que significa para a pesquisa acadêmica brasileira atual (em se tratando do passado remoto das culturas desta matriz africana) ter que se basear numa bibliografia tão inconsistente, soterrada sob camadas sucessivas de erros elementares – é que, por injunções históricas, políticas e geográficas, notórias e sabidas, a maioria esmagadora dos escravos que vieram para o Brasil (notadamente em épocas mais próximas ao nosso tempo), é de origem Bantu, angolanos em sua maioria, portadores de uma cultura que, apesar de ser muito mais antiga até que a própria existência do Brasil, é ainda hoje, quase que, completamente, desconhecida, desqualificada e desprezada que tem sido, por culpa das razões acima aludidas.

Desconhecendo neste aspecto, quase que completamente, a nossa origem real, neste patológico intuito de negar a nossa natureza de cultura descendente de uma certa África, efetivamente negra, de uma cultura rica e sábia, tributária de gente oriunda de civilizações tão originais, antigas e relevantes quanto qualquer uma destas Grécias ou Portugais da vida, vamos assim nos aculturando, nos aviltando, a cada século ficando mais incultos, menos crioulos e mais doidos, sambando um Samba ‘atravessado’ e sem raiz.

Os sinais evidentes (etimológicos, toponímicos) desta nossa, senão majoritária, pelo menos bastante relevante descendência, estão todos aqui e ali no além mar angolano, salpicados por este Brasil simbólico a fora, cravejados na literatura oral desta nossa gente, numa espécie de ‘antropologia popular’, uma ‘etnografia possível’, sem prepostos, nós mesmos homens-livros dançando por aí os nossos jongos e ticumbis, cada um página viva de sua própria história, em si – e por si – mesmo escrita: Bichos-bibliotecas que somos, filhos de nossa memória.

Podemos estar vivendo também numa palavra incompreensível qualquer, gritada como interjeição de alegria – ‘Auê!’ -; num fragmento de melodia – ‘Andambi, ukumbi uá ntunda!’ -, no nome de um rio ou de montinho de terra vermelha – ‘Mu-lundu!’ -; no tempero acre de uma comida ou no jeito de carregar uma lata na cabeça; um Atlântico inteiro de luzes e sentidos a espera de nós aqui e ali está, para ser juntado, catado, linkado, buscado e desvendado enfim.

Um mesmo nome de deus gritado – Nzambi!’ – significando um mesmo modo de adorar e atribuir sentido – ou lógica – às coisas, usos e manejos deste mundo. A revelação enfim do nosso íntimo ser – Mu-ntu! Ba-ntu!’ -, de nós mesmos apartado, pela negação do espelho, está no nosso espírito verdadeiro –‘Nzumbi! -, em todos os seus significados transcrito, pela única marca indelével que nos sobrou:

Nossa língua de homens e mulheres que somos, assim como fomos dantes –‘Ki-Mbundu!

Spírito Santo

Abril 2008

Veja aqui o Enredo#02 = Jongo, Nongo, Jinongo