O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga/Post #02


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo original deste blog está assegurado sob uma Licença Creative Commons."Futebol na favela" - Pintura näif de Helena dos Santos Coelho - 'Talentos da Terceira idade, edição 2009

“Futebol na favela” – Pintura näif de Helena dos Santos Coelho – ‘Talentos da Terceira idade, edição 2009

Ih!!!Bingo!

(Leia aqui o #post 01 )

_”Tava arregado! –Disse o refém-testemunha, descrevendo o que os bandidos diziam no hotel em São Conrado, aos berros, revoltados com os PMs que teriam quebrado o acordo estabelecido com o batalhão para deixar o bonde passar à vontade, toda sexta feira de baile funk, do Vidigal para a Rocinha.

Não sei de nada, não vi nada. Façam de conta que não está mais aqui quem falou.

Voltando ao ramerrão das mui discutíveis UPPs, é básico portanto a gente refletir que o ‘xis’ da questão, também neste caso da batalha de  São Conrado está em descobrir, em minúcias – e encarar de frente- no que consistem e o quanto são profundas estas relações promíscuas que se estabeleceram entre a cidade ‘oficial’ e a cidade ‘clandestina’ no Rio de Janeiro (já que uma está, umbelicalmente ligada à outra) a ponto de nos lançar na situação tão incontrolável como esta em que nos encontramos.

(E vejam bem: não estamos aqui para parafrasear aquele já tão badalado conceito do Zuenir Ventura de ‘Cidade Partida’. Isto, infelizmente já é hoje um conceito inteiramente superado, atropelado que foi pelos fatos. O Rio de Janeiro, ao que tudo indica, perdeu há muito tempo qualquer chance de ter suas duas metades reunidas, ‘pacificadas’ como dizem hoje estes cínicos. A sociedade carioca, esgarçou, exacerbou  demais da conta a sua dicotomia entre riqueza e pobreza.

(Aliás, a propósito, sempre que escuto este papo de ‘paz e amor’ entre os ‘desiguais’ e/ou ‘diferentes’, me vem à cabeça aquela musiquinha terrível do Chico e do Vinícius (e também do ‘Garoto‘, mas ele eu perdôo), piegas e hipócrita mais não poder):

…E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar

E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

Não vai adiantar. Sob qualquer ponto de vista que se analise, a cidade do Rio de Janeiro tem problemas dramáticos e quase insolúveis a médio prazo.  Pegando o aspecto o urbanístico, por exemplo, a gente esbarra com a agudização do verdadeiro apartheid que se estabeleceu por aqui.

O que fazer? Remover, erradicar favelas? Onde colocar as pessoas? Com que recursos realizar todas as obras de infraestrutura necessárias para realojá-las? Reurbanizar as favelas? Como assim? Se é favela, jamais poderá ser bairro. Os conceitos são excludentes entre si. Isto é um sofisma sem tamanho. Pura cascata.

Entre outras características de história da carochinha, a filosofia– na verdade não muito mais que uma tática policial de curto prazo, no sentido militar do termo – o que está por trás das UPPs parece não estar, nem de longe relacionado a esta premissa fundamental que nos aparece como sendo irrecorrível e que nos sugerem muitas perguntas pra lá de capciosas.

Seria possível resolver um problema tão complexo de forma tão simples, reduzindo-o a simples ocupação de partes determinadas do imenso território favelado como numa guerra convencional? O problema poderia mesmo ser reduzido simplesmente ao desalojamento do chamado ‘poder paralelo’ destes nossos quase sempre fuleiros bandos de traficantes?

Vocês eu não sei, mas eu acho terminantemente que não.

Caindo no macro mundão do problema, observemos que estudos bem recentes dão conta de que são cerca de 200 milhões os usuários contumazes de drogas no mundo, a cifra apavorante de cerca de 5% da população mundial, um mercado consumidor gigantesco, do qual o Brasil, evidentemente participa com um número considerável de ‘consumidores’.

Pois bem, onde está concentrada a maior parte destes… ’consumidores’ brasileiros? Posso responder de cara, na lata: Nas ‘áreas nobres’ das nossas grandes cidades. Neste contexto, todo mundo está também careca de saber que a zona sul do Rio de Janeiro talvez seja o nosso maior mercado consumidor (digo ‘talvez’, porque, assustadoramente, a disputa entre nossas grandes capitais, para se saber quem consome mais drogas anda bem acirrada).

E reparem: O perfil destes ‘consumidores‘ vorazes de drogas ilícitas é gente, majoritariamente branca e bem fornida de condições sociais, culturais, financeiras e tudo o mais.

Olhando a questão ainda do ponto de vista macro, portanto – e pedindo perdão por ter que apavorá-los mais ainda – reproduzimos aqui a palavra de um especialista (olhando, bem entendido, apenas para um dos ângulos comerciais da coisa):

“…com intuito mais específico, se pretende explorar quais as relações e até que ponto existe uma simbiose entre as organizações que exploram o comércio de drogas ilícitas, o sistema bancário, que realiza a lavagem de dinheiro, e o sistema financeiro, onde o dinheiro se transforma em capital. Simbiose no sentido de que embora sejam organizações dissimilares convivem numa relação mutuamente benéfica…

Uma abordagem geo-econômica e geo-política talvez permita encaminhar a idéia de que essa simbiose se apóia na contradição, presente na origem e no desenvolvimento do sistema capitalista, entre processos de transnacionalização e formação de mercados mundiais (no nosso caso, dinheiro e drogas) e o estado nacional.”

Sacou? Veja então agora então pelo ângulo das relações fundiárias, ou seja, você acha mesmo que, neste contexto de conflagração de interesses tão poderosos,  a população original das áreas eventualmente… ’pacificadas’ vai conseguir manter seu território e suas propriedades (ou ‘posses‘) intactas?

“…A discussão fundiária, no entanto, tem adquirido vigor sobretudo como consequência da ação do governo de retomar o controle territorial das favelas com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Por exemplo, o Instituto Atlântico, dirigido pelo economista Paulo Rabello de Castro, propôs ao prefeito Eduardo Paes e ao vice-governador Luiz Fernando Pezão um projeto-piloto no Morro do Cantagalo, em Copacabana.

O plano inclui cadastramento geral dos moradores e o levantamento da topografia detalhada com o objetivo de conceder a titulação plena dos possuidores de lotes e unidades residenciais. São 1.456 domicílios e cerca de 5 mil moradores, 79% dos quais vivem lá há mais de 20 anos, informa o instituto. O argumento é que a ocupação fundiária passa a ser uma exigência da ocupação territorial. O território, antes dominado pelos traficantes, precisa ter dono, ressalta Paulo Rabello de Castro….”

———–

“…Para a professora Sonia Rabello, os moradores das favelas costumam ver com desconfiança a regularização fundiária. Primeiro, diz ela, porque isso significa entrar num mundo complexo ao qual não estão habituados, o terreno dos cartórios, dos advogados e da Justiça. Outro fator, segundo a professora, é que o título de propriedade pode, no médio e longo prazos, ser um fator de expulsão dessa população.

Para Sonia Rabello, todas as áreas de favelas só não foram ocupadas pela especulação imobiliária ou porque não tinham título ou porque não tinham lotes suficientes. O que garantiu a ocupação das favelas foi a impossibilidade de ocupação formal. A especialista lembra que, nesses casos, o direito de posse é garantido pelo uso, não por uma eventual titulação.

Enquadrem estes conceitos técnicos especializados no modelo de nossa micro-sociedade e descabelem-se logo, enquanto é tempo. E são mais de mil favelas, lembram-se? Destas, pelo menos 20 são de grande porte. Fizeram a conta?

Transferindo as quadrilhas de traficantes daqui para ali, mediante estes misteriosos acordos, vocês acreditam mesmo que o governo estadual está interessado em ‘pacificar’ e ‘humanizar’ favelas? A Polícia Militar teria efetivos para ‘pacificar’, pelo menos em parte, todo este universo de favelas? Considerem, por exemplo, a Rocinha, com cerca de 150.000 habitantes e várias centenas de becos e vielas.

Recentemente o exército brasileiro recusou propostas de intervenção da Força Nacional de Segurança no problema por causa do alto risco de corrupção da tropa (no entanto, como se sabe, topou a mesma parada na favela de Citè Soleil, no Haiti).

Quando se fala desta mesma ocupação por policiais militares, o que lhe vem à cabeça? Dá para se sentir seguro? Pois o secretário José Mariano Beltrame disse a pouco que seriam necessários, só para ocupar a Rocinha, 1.800 novos PMS.  Favelas sitiadas é o que ele propõe, como se fazia com bairros do Iraque no tempo do Bush? Durante quanto tempo? A que custo?

Fico pasmo. Ou o secretário pirou ou está blefando, certo?

Você já olhou bem para a geografia e as dimensões assustadoras de um mar de construções mal ajambradas como o Jacarezinho, a Mangueira? Você acha possível haver dominação e controle militar em espaços urbanos assim tão caóticos sem haver algum tipo de… ‘Acordo’ entre as partes?

E que boi adormece com esta história?

Se você acredita mesmo que a maioria das favelas do Rio de Janeiro vai virar parque temático, com elevadores panorâmicos e teleféricos metálicos e cintilantes, de onde vamos pode ver felizes crioulinhos indo e vindo para suas felizes escolas high tech, pilotando skates, com as suas felizes mãezinhas, ‘prendas domésticas’ indo e vindo para o aconchego de amplas bibliotecas com internet banda larga, ou mesmo para bem equipadas academias de ginástica, pilotando motinhas Honda, o problema é seu.

Tudo bem. Você deve ser destes que acreditam em Papai Noel, Branca de Neve, Disco Voador, estas coisas (o que, convenhamos, não é nenhum pecado, claro… até porque, em Disco Voador até eu acredito)

Mas se você, como eu, está cansado de ser enganado, raciocine. No âmbito de uma população total de mais ou menos 6.000.000 de habitantes – segundo o último censo – a população favelada do Rio atinge a cifra estúpida de 1,09 milhão de pessoas. Ou seja, no barato, 18,7% da população carioca reside em favelas. Especialistas que estudam o assunto afirmam, contudo que o número pode ser bem maior, podendo ser orçado aí por volta dos 1,5 milhão de pessoas ou seja: mais que 20% da população carioca seria favelada.

A conta, contudo pode aumentar muito se incluirmos neste cômputo outros tantos e tantos milhões de pessoas que residem em bairros muito pobres – quase favelas, como os bairros da Zona Oeste, por exemplo – que engolfados por ‘comunidades provisórias ’circundantes, se favelizarão também em muito breve.

Observem com atenção que as favelas cariocas, nesta sua nova e avassaladora fase de expansão, crescem no entorno de bairros convencionais, como parasitas que se alimentam da pequena rede de serviços pré existentes, escolas, comercio, postos de saúde, sobrecarregando a infra estutura do bairro até sufocá-lo, como uma jibóia. É esta, com certeza a dinâmica da formação dos chamados ‘complexos’ de comunidades faveladas.

Faça, portanto como eu: jogue a propaganda eleitoral – o nome dela já diz tudo: é ‘gratuita’, no sentido de irresponsável e cretina – no lixo onde ela merece estar e pense em profundidade, sem paixão, como gente grande.

Em suma: Se não se desmontou o mercado de drogas que segue impávido, de vento em popa e sem prejuízos visíveis – se não se forneceu, concretamente trabalho decente, residência digna, educação de qualidade, saneamento básico e saúde para a imensa maioria dos habitantes do Rio de Janeiro que hoje – vale sempre lembrar – é favelada e se não há a menor condição estratégica de se ocupar militarmente a maior parte do território de nossa cidade, no que eles querem mesmo que a gente acredite?

E vocês crédulos? Estão mesmo acreditando ou estão se acumpliciando porque acham que vão levar algum tipo de vantagem neste arranjo… quero dizer…Acordo?

Olha minha gente, quem avisa amigo é: Acabada a nossa – tomara que – feliz Copa do Mundo e os – tomara que – felizes Jogos Olímpicos o que será de nossas pobres almas? E se o  bagulho for bem mais doido do que a nossa capacidade de suportá-lo?

Parece papo de viciado prometendo largar o vício, de pé junto, mas não largando nunca não é não? Viciados em favela, será que é o que somos? Se for isto, a luz vermelha está acesa e há sintomas fortes de overdose à vista!

E se problema afetar o coração da cidade? Parada respiratória, cardíaca e…Babau! O Rio de Janeiro irá para um belo de um beleléu. Creiam-me e perdoem-me, de antemão, pois, gostem ou não gostem da conversa, caros amigos: alarmismo também é cultura.

Spírito Santo
Agosto 2010

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(Desculpem voltar, mas…não é que é bingo de novo?):

Pezão, nosso vice-governador, numa entrevista hoje (28/08), em O Globo:

_”…Não é sem droga (se referindo à função das UPPs). Droga existe a nível mundial; ninguém vai conseguir acabar. Mas nós vamos conseguir tirar o fuzil das ruas do Rio de Janeiro”

Ora, ora… Mas não era sobre isto mesmo que eu falava?

Usemos a lógica mais elementar: Se o fuzil está nas ruas porque há tráfico de drogas, uma mercadoria ilícita de altíssimo valor comercial, onde há drogas, portanto terá de haver, necessariamente traficantes armados.

Logo, onde há traficantes há, evidentemente disputa pela posse ou pela repressão da venda da mercadoria refinada e/ou guardada nestes entrepostos. É , pois, da natureza desta disputa pelo mercado da droga haver sempre armas e violencia.

Conclue-se então que, para se deslocar as armas (tirá-las das ruas do Rio, como diz o político) só se for deslocando os entrepostos, intervindo diretamente na distribuição em suma, mas como garantir que isto poderia mesmo ser feito, se o tráfico de drogas é bandido, clandestino?

Cabe, portanto perguntar: Estaria o vice governador sugerindo que o governo do Rio pretende transferir os entrepostos para outros lugares? Quais seriam estes lugares? Seriam os ‘complexos‘ de favelas da periferia ou seria o interior do Estado? Deus do céu!

Loucos de pedra! irresponsáveis!

E a distribuição da droga – o tráfico propriamente dito – para os consumidores daqui da cidade ‘oficial‘, como seria organizada? Quem controlaria este tráfico já que, acabar com ele não é, assumidamente a pretensão do Estado?

Perguntas…muitas perguntas sem respostas, que não sejam mais assustadoras ainda.

Acho que só se topassem discutir e combinar isto tudo com os comandos de traficantes (e os comandos de milícias), num grande seminário, uma cúpula bandida, um…’Acordão‘.

Sugiro de cara – prendendo o riso – o Hotel Intercontinental, em São Conrado.

Spirito Santo

Setembro 2010

O Bagulho é doido, mas a Favela é que é a Droga


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Pegue – ainda andando – o Bonde da Batalha de São Conrado

Todo mundo da Zona Sul, em pânico já falou, escreveu, leu, tremeu enquanto o pau comeu. Pois então parem de tremer, só um pouquinho e vejam de novo a cena aí em baixo, em câmera lenta, comigo.

Calma! Take easy! (Cadê o diazepan, o bromazepan, desta gente? E o lexotan, o psicosedin, o somalium, o tensil, o valium? Ai, ai! Help! Help! I need somebody help!… E eu? Cadê o meu isordil?)

Ué? Mas não estava uma calmaria só com esta história de UPPs pra lá UPPs pra cá? A política de segurança adotada contra a violencia urbana – com a tomada de doril, a sumida zastrás da bandidagem, cedendo pacificamente – esportivamente até – o território para as redentoras UPPs?

Até eu, bruto, grosso que só vendo, com esta minha má vontade proverbial (que os lulistas mais fanáticos dizem ser ‘insana’ e ‘gratuita’) me animando para com as nossas atuais autoridades constituídas, já baixando a bola crítica ao ler as animadoras reportagens propagandísticas sobre UPPs, com dificuldade para discernir, entre o que era trigo da mais pura verdade do que era joio da mais deslavada propaganda eleitoral, nesta história de pacificação das ‘comunidades sitiadas pelo poder paralelo’.

Sim porque, com foros de descoberta da cura do câncer, da decodificação do último caco da pedra da roseta, do fechamento do buraco na camada de ozônio, a violência urbana dava toda a pinta de que desapareceria sim, no lapso de uma mágica com ar de malandragem mandraqueana, como uma paradigmática política, a mais certeira e verdadeira deste mundo.

Daí:Pum! Pá!Pá!Pá!Pá!

Correria, reféns, cena de cinema. Não fossem as armas high tech e as roupas de grife da bandidagem, ia ficar parecendo aqueles reids de cangaceiros de filme da Vera Cruz, que eram por sua vez – quem se lembra?- copiados dos filmes de far west classe ‘C’, com aqueles bandidos mexicanos suados, barbados, invadindo a cidade às gargalhadas, dando tiros a esmo e soltando gritinhos histéricos, como mariachis cantando ‘cucurucucu paloma’.

Pois sim. A não ser os da assistência, quais gritinhos histéricos você ouviu? Zero. Nenhum. Berros, urros matraqueados de fuzis de assalto, AR15, AK47 FAL, isto sim foi que se ouviu. A bandidagem desenvolta gritando os palavrões mais cabeludos deste mundo.

Mas foi mal sim, não foi? Em plena manhã de sábado em pleno ‘Rio-que-mora-no-mar’ aquela bandidada toda, saltando daquelas vans de roupa preta como se fosse assim um bando de ninjas tropicais de cara limpa, saídas de uma locação de favela de um filme do Van Damme, do Will Smith, do Stallone. Vieram de onde aqueles bárbaros vândalos? De um baile funk nas ‘serras de veludo’, do alto lá do ‘Rio que NÃO sorri de tudo’, foi o que a imprensa divulgou.

Bárbaros! Vândalos! Onde é que já se viu? Não sabem mais onde é o seu lugar? Concordo e me solidarizo com a bacanada. Juro por Deus.

Que não foi nada fofo, isto não foi não. Um terror quase médio oriental. Uma chusma de talibans desgovernados, sem nenhum bin laden pra gente chamar de nosso, para colocar a culpa e mandar – como um bode bíblico – para uma montanha remota de um Paquistão destes qualquer, ou um Bangu 1, 2, 3, 4, 5, 6…, para purgar todos os pecados deste nosso abilolado Brasil de quase primeiro mundo.

O lado bom – é gente, dependendo do ponto de vista, tudo tem sempre um lado bom – é que a gente pode baixar um pouco a bola sim, sair desta euforia tão dilmista, desta conversa fiada governista de paz e amor sem sacanagem, para tentar fazer uma análise mais realista e franca da situação.

Estão mesmo a fim de cair na real? Acompanhem então no meu modesto e imparcial raciocínio os dados que todo mundo está careca de saber, mas finge esquecer.

O buraco – vou logo avisando – é bem mais embaixo

O Rio de Janeiro tem mais de 1000 favelas, certo? (e para quem duvida a lista está aqui mesmo para ser conferida). É um número tão absurdo, mas tão absurdo para uma cidade com apenas cerca de 1.224,56 km2  que, para caber no espaço que ocupam (sem ferir as leis da física) muitas destas favelas se juntaram umas às outras, como um turbilhão de moléculas, criando células urbanas amorfas e agigantadas, sendo chamadas hoje quase cinicamente de… ‘complexos’ (o que, cá entre nós, assim meio sem querer, acabou virando uma palavra bastante apropriada para o caso – cujas mumunhas mais impressionantes nós mesmos, aliás, já esmiuçamos por aqui)

Indo mais fundo ainda na questão, vamos combinar então que uma favela não passa muito de um amontoado de habitações imprensadas umas nas outras, nas quais reside um aglomerado aparentemente desarticulado de pessoas, as quais, por uma contingência natural de sua condição de seres vivos (nem precisavam ser humanos) se organizaram de uma forma ou de outra até assumiram uma feição de uma micro-cidade.

É uma questão de lógica mesmo, gente. Pessoas demais – aquelas a quem a sociedade nega tudo, inclusive espaço para morar- ocupando espaço de menos. Isto, numa física mais elementar ainda, costuma ser igual à pressão e, em algum prazo (o tempo do pavio) explosão.

Esta ‘sub-cidade’ , esta bomba sempre prestes a fazer ‘Bum!’ – apartada que está da ‘cidade oficial’ – desenvolveu, evidentemente uma economia própria, clandestina, do mesmo modo que criou relações políticas e culturais anárquicas, clandestinas também (e talvez este seja o único aspecto positivo da história) tudo isto estruturado em torno de uma instancia de poder dita ‘paralela’, espontaneamente surgida ou – como ocorre na maioria das vezes – instalada ali por meio da força bruta, de uma invasão armada, militarizada, mas de qualquer modo representando um poder, efetivamente instituído, com um complexo protocolo de interesses e relações – não importa mais se promíscuas ou não – estabelecidas tanto internamente (no seio do que se chama eufemisticamente de ‘comunidade‘) quanto com o mundo exterior (no nosso caso, a aqui chamada cidade ‘oficial’).

Agora deu para entender, não deu? Posso divagar um pouco então.

‘Zu’, comandante ‘bicho solto’ do Kilombo Louco.

Ouvindo o secretario de Segurança do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame dizer hoje que sabe muito bem onde mora o ‘Nem‘ da Rocinha (e até mesmo o que existe dentro da casa dele) antes de cair na gargalhada, pensei: E daí? Isto qualquer zé mané pode saber. Não é segredo para ninguém. Isto não é vantagem que se alardeie assim, como uma suprema glória estratégica. Ele devia era ter vergonha de dizer um disparate destes, que não prende ‘Nem‘ para ‘preservar a população’ de constrangimentos e… balas perdidas. Que chantagem! Que cinismo!

Me lembrei no ato que, eu mesmo, trabalhando durante algum tempo na década de 1990 dentro de uma destas cidadelas clandestinas, por dever de ofício, pude ter um contato bem direto, privando da intimidade mesmo, com um destes ‘sobas’ de favela igualzinho ao ‘Nem‘.

A experiência (que já narrei anteriormente no post deste link) me permitiu observar alguns fatores cruciais, fundamentais mesmo para se compreender o quanto é cabeludo o problema.

Zu” (o codinome deste bam bam bam de favela já falecido, barbaramente assassinado) se apresentou a mim anunciando, sem meias palavras, que era o “presidente da associação de moradores de dia e o chefe do tráfico de noite”.

Os demais integrantes da quadrilha – cerca de 15 a 20 homens, no máximo – todos bem jovens ainda os quais, do mesmo modo, conheci bem de perto, tinham aquela ocupação precária como único emprego possível. Um número indeterminado de outros moradores, donos de biroscas, cozinheiras que vendiam quentinhas para o bando, de uma maneira ou de outra, também dependia daquele negócio para sobreviver.

E tinham as ‘tchuchucas’ que pescavam favores, lascas e prendas da negadinha bandida; o pastor que salvava os não bandidos do demônio (e amealhava os dízimos dos coitados); um mundo de gente desamparada, vivendo como mariposas na aba do ‘movimento‘. Fazer o que?

Nunca me esquecerei de uma garotada mal entrada na adolescencia, que vi uma vez sentada num degrau à porta da ‘Boca‘. Trabalhavam na chamada ‘endolação‘, preparando e embalando a cocaína para a distribuição. Haviam manchas estranhas, enormes, de um roxo enegrecido estigmatizando os antebraços e as mãos daqueles garotos esquálidos.

As manchas – soube depois – eram provenientes da manipulação do produto químico que usavam na decomposição da cocaína, algo como amônia, não sei bem.

Os rostos encaveirados daqueles garotos, todos negros, um pouco pelo cansaço, um pouco pelo algo de droga que consumiam, tinham um que de caras de zumbies de filme de terror norte americano. Estavam sentados ali imóveis me olhando, exaustos como num intervalo da filmagem de um thriller no qual Michael Jackson algum conseguiria injetar glamour.

(Estranho como ainda bem antes do advento fúnebre do crack, esta negadinha  já se parecia com os bandos de zumbizinhos craqueados e moribundos de hoje).

Deste mesmo negócio sujo viviam advogados ‘de porta de xadrez’ , alcaguetes de polícia (quase sempre agentes duplos) e um grupo enorme de PMs além, é claro, do próprio comandante do batalhão da área. ‘Zu“, pessoalmente me falou sobre isto em certa feita, apontando de longe um PM numa guarita de uma rua chic, próxima à favela me dizendo:

_’ A’lá! Tá vendo? São tudo uns cú-de-galinha. Sabem quem sou eu, mas não podem fazer nada porque tem o acordo’.

Até mesmo a creche do local, totalmente abandonada pela prefeitura da cidade ‘oficial’ dependia bastante de uma ou outra ajuda do caixa do tráfico, segundo eu mesmo pude constatar realizando ‘inspeções‘ solicitadas pelo próprio ‘Zu‘, cioso e interessado em me provar que tinha mesmo alguma…’responsabilidade social’. E quem ia duvidar ou discordar dele? Eu?

Outra característica curiosa do poder especial do xerife ‘Zu’, a ele delegado pelas… especiais circunstancias (havia participado da invasão armada ao local, desalojando a quadrilha anterior com uma chacina) era o alto grau de sumarismo da justiça local, por ele assumida, a ferro e fogo.

A condição de entreposto de drogas, uma mercadoria de tão alto valor comercial, que precisava ser defendida assim, militarmente, obrigava ‘Zu’ a difundir e a manter ativo um código de leis absolutamente terrorista onde a pena de morte era quase sempre a única pena admitida e aplicável.

Qualquer manifestação de ponderação ou ‘salomonismo’ por parte dele, o ‘líder’ seria sempre encarada como um sintoma de vacilação, deixando-o com a fama de frouxo, incitando a cobiça dos inimigos invejosos, ficando portanto vulnerável aos ataques de quadrilhas integradas por rivais externos ou internos.

A regra mais fundamental do caráter sui generis daquela micro-sociedade clandestina, a base política de sua sobrevivência era, portanto o chamado ‘Acordo’. Espécie de tratado de paz, de acerto diplomático estabelecido com agentes intermediários da autoridade constituída, o poder oficial, ‘exterior‘.

Este ‘Acordo‘ (que no âmbito estrito da Policia Militar do Rio de Janeiro, foi depois tornado público no filme ‘Tropa de Elite’) é que dava garantias a ‘Zu’ de poder contar com total segurança para tocar seus negócios, desde que dentro dos limites de seus domínios territoriais.

O ‘Acordo’ (ah…qual é? Porque será que insisto em falar disto se todo mundo já sabe)  era – como ainda é – baseado no pagamento de um valor periódico (mensal, semanal) uma ‘comissão’ rigidamente estipulada entre as partes. Chamado de ‘PP’ na gíria – ‘pronto pagamento’– a palavra parece ter sido extraída do jargão do Jogo do Bicho , ou seja, era um ‘pro labore’ sem nota ou recibo. O pior da história é que esta prática parece estar indelevelmente arraigada entre nós, como marca histórica mesmo, vigente que é há muito tempo, desde os tempos de D.João Charuto.

Gosto de fazer uma analogia entre nossas favelas com o exemplo dos quilombos de escravos fugidos do Brasil colonial (afinal, o modelito bem que deve ter sido inspirado nisto aí) porque a História do Brasil, mesmo esta ‘chapa branca’, convencional, já constatou que para que estes quilombos pudessem durar tanto tempo (Palmares , por exemplo, o quilombo mais célebre, chegou a durar quase um século), certo nível de promiscuidade nas relações comerciais e ‘políticas’ entre eles e a sociedade ‘oficial’ tinha, necessariamente de existir.

(Cheguei mesmo a chamar numa canção esta comparação entre os quilombos de ontem e o as favelas de hoje de ‘Kilombo Louco’, com as favelas de hoje representando uma exacerbação de nossa psicopatia social, nossa mania – melhor dizendo, nosso  vício –  imoral e renitente de excluir a maioria de nossa gente em benefício de uma reles minoria.)

“…Kilombo louco!
Cada favela um Brasil
Kilombo louco!
Mateus, quem pariu?
Depois da lança e bodoque
a pistola Glock, a metralhadora e o fuzil”

A grande tragédia brasileira – mais trágica ainda porque está sendo agora mesmo, subestimada, irresponsavelmente tolerada por nosso corrompido eleitorado nas eleições atuais – é que esta prática acaba de se tornar – mais ainda do que já era – infelizmente, generalizadamente nacional.

Ela é recorrente tanto no âmbito das relações comezinhas entre a polícia e os bandidos descritas no microcosmo das favelas que acabo de descrever – sua provável gênese – quanto no âmbito das relações entre autoridades constituídas em geral e máfias de contraventores de qualquer ordem ou tipo principalmente – como se pode constatar no episódio dos mensalões de Brasília – no âmbito da política e de todos os níveis da administração pública, da Presidência da República a mais inexpressiva prefeiturinha municipal.

Bem, mas isto a julgar pela direção em os ventos das eleições presidenciais estão soprando, está virando uma carroça pesada demais para os puros de coração que, fatalmente terão que empurrar com a barriga – e nós nas tripas – mais este bonde de mazelas republicanas, por mais alguns anos.

…Isto para os que ainda estiverem neste mundo (ou que tenham ainda alguma barriga com que empurrar alguma coisa).

Ai!

(Pronto. Podem voltar a respirar agora. Podem sair de baixo da cama. O tiroteio por enquanto amainou. Ai que alívio! Meu isordil chegou, a pressão arterial baixou… Ufa! Depois eu volto e sigo o bonde no post #02 deste papo)

Spírito Santo
27 de Agosto 2010 (dia do eu 6.3 turbinado)

o Sapoti, o Gibi e o Guri


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0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, Spirito santo, o guri

0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, o guri

Na foto o pai, a mãe e eu guri

Seriam as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente, coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se conseguirá apagar jamais? O meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que é doce e bom:

Um sapoti caído do pé numa quente madrugada.

As frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmidas de orvalho. Eram o prêmio para os mais cedo despertos – e lépidos- primeiros a pular do beliche e correr para fora do alojamento.

Não sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele amarelo manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula: Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.

A marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que me lembro de ruim naquele tempo.

Do dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta parte da história.

Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas. Esta é a parte mais doída das lembranças.

A primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Hadock Lobo, na Tijuca, bem ao lado de um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto Lafaiette.

O prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas lembranças. Passo sempre pelo local, mas, não consigo encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão) que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.

A primeira imagem fugidia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim de Infância.

Havíamos mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado José Cyrillo, meu pai, tirou dela, com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

 O novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.

Lembro do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de colorir com um pintinho impresso, vazado e sem cor que eu, maravilhado, pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’ coisas pelo resto da vida).

Tomado de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez, algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.

Incrível descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.

Pena ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis felicidades, minha derradeira escola convencional.

Logo, tudo escureceu quando em 1951, sequelas do alcoolismo, proveniente talvez do que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o meu mundinho de criança feliz.

… ‘Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil

Ó meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil…’

Não sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é uma canção insistentemente repetida no rádio.

Desta imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de tristeza e melancolia.

..’.Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas

Viram Jesus que dizia:
– Vinde a mim as criancinhas…’

Entre um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente automobilístico.

O ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma unidade conveniada do sistema SAM, Serviço de Assistência ao Menor, famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).

O fato é que, ingenuamente solidário diante das dificuldades de minha mãe viúva, além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino – vestindo um paletozinho tweed – no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei, pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão, sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem – ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.

Esta era – como ainda hoje é, ou muito pior – a lógica crua do sistema de ‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.

Fosse a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos morcegos.

O traço do Gibi

Não sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana?

Talvez ela tivesse conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num ‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que, motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’, encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.

O que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’.

Ela me apareceu desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante, cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.

E quem não se extasiaria com duas latas de leite condensado, muitos sacos de biscoitos sortidos – entre os quais os saborosos Seara’ – peras (e também maçãs) embrulhadas no papel roxinho de sempre, e tantas outras iguarias?

E as muitas revistas de histórias em quadrinhos? E os livros que, apesar de amarelados de tanto terem sido usados, eu – já a esta altura, razoavelmente, alfabetizado – muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais do Arsène Lupin ou romances, como o inesquecível Robinson Crusoè do Daniel Defoe) livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade.

Caixa de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente, de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele pudesse escapar daquela vidinha humilhante de órfão na Escola-Prisão.

Foi como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala, explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.

Finda a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo e da colcha encardida de nosso beliche.

Andei com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos de menino rico por um dia.

Foi logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu um covil bastante seguro.

Gelei quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos. Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um homem não chora.

Minha mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O trauma da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.

Os meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram sonhos muito reais. Difícil aceitar que não fossem a mais pura realidade.

Dava um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.

Assisti a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos, quase filmes, sobre Liberdade.

(Memórias e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)

Assim, como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um velho projetor Bell & Howell 16mm.

E nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.

A roupa do Guri

Era uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do pátio.

Me enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres apontados para a assistência muda.

O ‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica, porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.

Talvez, não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer, inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos, rabiscos, estas coisas.

Se podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.

Não sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo, de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro, aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar, eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:

Um galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz. Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma, chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda ancorado ao largo.

E lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado pela intrigada garotada.

O mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu inspirado antecessor (como numa disputa de artistas plásticos emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem uma pisadinha sequer.

O turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento jogo da ‘Carniça’ predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de fim de tarde ou alguma garoa.

Era como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada – e quase inacreditável – iconografia infantil.

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O ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão. Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia destes acontecer de ninguém da família aparecer.

A roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.

O macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar banho.

Éramos organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração de heroísmo explícito.

O líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido) engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões!

Cada um de nós tinha uma escova de dentes que era, cuidadosamente afiada em alguma superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque como os dos presos adultos.

Assisti a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais em disputa por território ou comida.

Quando um dos dois era atingido gravemente pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz), gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a consagração do vencedor:

_’Tirou melado! Tirou melado!’

Outra imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A ‘formatura’ era rígida e marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo, cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados reais.

_ Pelotão…Sentido!
_ Cobrir!
_Descansar!
-Ordinário…Marche!

Para mim, pensando bem, até que a ‘formatura‘ não era assim tão ridícula porque, logo depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das músicas que cantávamos.

O repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas da época, hinos cívicos tradicionais,’‘qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos’. Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos, entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos. Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi escuridão do pátio ao anoitecer.

Ninguém nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de Anhangá que fugiu:

…Ó manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá! Hê!Hê !
Ah! Ah! Foi você
quem me fez sonhar…’

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Não que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo, praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma diligente professora e só.

Nossa referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos, a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como gravetos.

Os inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres) eram, pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jitsu. Lembro de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos ‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira, com a qual gostava de acertar o vão das orelhas dos rebeldes incorrigíveis.

Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade que os criara. Que Deus os tenha.

É deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:

Numa formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos, sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro por cerca de quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas, pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor, deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.

A intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM que, ali por volta de 1959, parecia prestes a ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV.

Dos motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente, transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano, Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão principal.

Na visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que não dava mais para ficar ali.

É esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:

O bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente, a mesma música da fuga dos outros.

Música dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.

Minha honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única matéria que realmente merecia ser aprendida.

Escapar íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas remotas memórias, para sempre felizes por serem eternamente infantis.

Spírito Santo
Fevereiro 2008

Brasil Bandido


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(O post é velhusco pra caramba. Para ser exato, foi escrito antes mesmo de lançarem o primeiro filme Tropa de Elite. Com esta moda de UPPs, tanto quanto o filme o post parecia superado, mas eis que – ê brazilzinho dinâmico às avessas! – do nada volta tudo à vaca fria. A tentativa de explicar a história de nossa insegurança pública voltou então à baila. O chato é ter que dizer: Viu só? Eu avisei!)

Junte os pontinhos e veja o país da “transpolítica”

”…Pensadores pós-modernistas franceses inventaram o termo “transpolítica” para se referir ao ultrapasse da política tradicional por formas novas de esvaziamento da democracia representativa. A “parapolítica” é outra coisa: não um termo reflexivo, mas a realidade da transformação de ações marginais ou ilegalistas em poder político…”

(Muniz Sodré)

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Vocês podem dizer que não estão nem aí ou que não é com vocês, mas, as notícias mais eletrizantes da região onde moro são as seguintes:

Notícia Um (locutor mascarado de touca ninja):

– O mais cotado candidato a vereador, com chances de ser um dos mais votados do Rio é, todo mundo sabe, o chefe-gerente da milícia local (preposto de alguém que nenhum de nós conhece, um grande capo, pior que os do cinema, com certeza).

Notícia Dois:

O mais cotado candidato a ser eleito como prefeito da cidade é um senador, suposto bispo de uma milionária seita evangélica inventada ontem mesmo. A ideologia desta seita é meramente pecuniária, baseada que é na máxima do ‘é dando (dinheiro) que se recebe (dinheiro)”. Esta ideologia espertalhona paira hegemônica sobre os corações e mentes da miserável população carioca, como uma praga pior do que as saúvas citadas pelo Mário de Andrade.

Notícia Dois e meio:

Este poderoso senador apóia, entusiasticamente, o tal vereador miliciano, chegando até mesmo a defendê-lo chamando-o de ‘jovem honesto, esforçado e trabalhador’. Supõe-se, por óbvia dedução, que toda a máquina coercitiva das milícias, que domina já, a base de chacinas quase diárias, praticamente, toda a cidade ‘maravilhosa’, tenha o Senador como seu candidato preferido, amigo ‘do peito’.

Notícia Três (esta, apesar de velha, revista agora mesmo na TV, no programa eleitoral gratuito):

_ Este candidato a prefeito– e, por extensão, toda a sua eventual futura entourage de vereadores milicianos – é, segundo o reiterado depoimento do próprio vice-presidente da república, “o candidato preferido e do coração do presidente Lula”.

(Corte rápido. Pela minha assustada e conturbada mente passa, de relance, a imagem embaçada e trêmula de uma enorme fila de eleitores vestindo toucas ninjas)

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Que os sensatos e comedidos insistam sempre, pacientemente, que é muito mais recomendável (faz bem à saúde) focar com melhores olhos os pixels azulados e edificantes da rede, do que ficar remoendo os tons marrons da malha suja, onde estão entranhadas as chagas mais comezinhas do dia à dia torpe deste nosso país.

Eu sei. Eu sei. Eu sei.

É exatamente por saber de tudo isto que entabulei esta conversa para lhes falar, assim, no sapatinho, acerca da impressão que se tem de que o Brasil está gestando em si mesmo, um certo tipo de sociedade mucho loca, com sintomas daquelas carcomidas por interesses bandidos de todo tipo, divididas em guerras entre grupos políticos mafiosos, que confundem o trato da causa pública com seus mais inconfessáveis interesses, com o beneplácito, no início pragmático e, logo depois, acovardado dos cidadãos ‘de bem’.

Sabem a Itália siciliana? Sabem a Colômbia de Medellín?

Pois é. A realidade brasileira às vezes, é mesmo complexa demais, difícil de decifrar, não é mesmo? Se avexe não. Sabe aqueles joguinhos de ‘junte os pontos’, nos quais, depois de todos os pontinhos juntados aparece uma figurinha graciosa qualquer, um coelhinho, um gatinho? Faça como eu: Relaxe jogando um desses joguinhos?

Não se garante ao final graciosidade alguma às figurinhas, mas que é diversão garantida, lá isto é. Tiro mais que certeiro no stress.

Juntemos os pontinhos pois:

Pontinho 01
A revolta dos mercenários

C’os diabos! O meu exército escafedeu-se!

Ano de 1822.

Nos momentos decisivos da chamada Guerra de independência do Brasil, a repatriação de oficiais e soldados do exército português derrotado, criou um problema para D.Pedro I: Como manter a integridade territorial, a segurança do Império recém criado após a dissolução do exército anterior?

Ainda no calor da luta, o governo se viu obrigado a improvisar a organização de uma força armada de transição, não só para eliminar de vez a resistência portuguesa, mas também para se incumbir das demais tarefas de manutenção da integridade do império.

Sem povo – pelo menos, confiável – para montar um exército nacional, a ‘brilhante’ solução encontrada foi a compra de armas e navios além da contratação de mercenários europeus criando em 18 de janeiro de 1822 o Corpo de Estrangeiros, instituído como uma divisão do exército, formada por mercenários alemães (arregimentados pelo major Georg Anton von Schäffer na Europa), além de imigrantes suíços recrutados na própria Corte.

A segurança da Corte ficou à cargo de gajos germânicos, que formavam o 27o Batalhão de Caçadores de Alemães, conhecidos como “Os diabos brancos”, aquartelados na Praia Vermelha e dos outros gajos estrangeiros, suíços em sua maioria, que formavam o Batalhão de Granadeiros estrangeiros, cujo quartel era o atual (êpa!)…Palácio Duque de Caxias.

Não queriam, de jeito nenhum um exército composto de ‘diabos negros’ ‘prata da casa’ e aí… deu no que deu:

“…Em junho de 1828, no Rio de Janeiro, durante o governo de D. Pedro I, (a Revolta dos mercenários) constituiu-se numa sublevação de tropas militares compostas por mercenários alemães e irlandeses. Iniciada em 09 de junho, ela foi reprimida quatro dias depois por soldados brasileiros e populares, entre os quais se incluíam muitos escravos capoeiristas da cidade…”

Fernando K. Dannemann nos conta:

…” Revoltados (com atrasos dos soldos e com os castigos físicos a que eram submetidos)…dirigiram-se ao palácio imperial, no bairro de São Cristóvão, pretendendo apresentar queixa contra o oficial e pedir sua demissão imediata…A partir daí…os mercenários praticaram todo o tipo de desordem e confusão, culminando por invadir e tomar conta do ministério do exército, (Palácio Duque de Caxias)… Ali eles…apossaram-se das armas…e se entrincheiraram…o comandante das Armas ordenou que as forças legais investissem…contra os rebeldes, procedimento que contou com o apoio de marinheiros franceses e ingleses cujos navios se encontravam atracados no porto, de populares e escravos (leia-se capoeiristas) na emergência, ali compareceram armados… Ao final do confronto, 12 mercenários estavam mortos e 50 deles feridos…”

Êpa, êpa! Mas o palácio invadido não é o mesmo Palácio Duque de Caxias, recentemente, apedrejado pela população do Morro da Providência?

Êpa! E sacaram também aquela outra citação sobre escravos capoeiristas? Como assim?

Pois é isto mesmo: Um jogo de juntar os pontinhos. Já havia avisado a vocês lá em cima.

Pontinho 02
As Milícias escravas

Uma ‘flor’ de gente

Carlos E. Líbano Soares falando:

“…O discurso contra a capoeira no século 19 se assemelha ao discurso contra o crime organizado, o tráfico de drogas. Um crime rendoso, com uma rede de proteção muito grande, com pessoas da alta sociedade envolvidas, protegendo e mantendo esses grupos e por isso garantindo a impunidade deles.

“…Cada freguesia do Rio tinha um grupo…Quando outro invadia seu espaço, era a senha para o confronto. Havia um controle informal, uma geografia inquieta semelhante à atual guerra das drogas. Assim como hoje há, no Rio, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, havia na época nagoas e guaiamus. Os nagoas dominavam a periferia, são grupos de origem africana, e os guaiamus dominavam o centro da cidade…”

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Ali por volta de 1870 o problema da violência urbana e do caos político-social protagonizado pelas maltas de capoeiras, compostas, em sua maioria, por adolescentes (escravos fugidos e negros de ganho desocupados), ficou tão agudo que a solução foi desmobilizar, violentamente os bandos, enviando os capoeiras, em massa, para a guerra do Paraguai. Com o regresso destes ‘involuntários da pátria’, livres da escravidão por direito, fardados, mas, ainda revoltados, o problema da violência urbana voltou, mais intenso ainda.

“…O Flor da Gente era um poderoso grupo de capoeira do Rio de Janeiro no século XIX. O grupo era tão poderoso que chegou a ser contratado por Duque Estrada Teixeira quando candidato ao governo da província do Rio de Janeiro. Para que Duque Estrada contratou o grupo de capoeira Flor da Gente? Na época, as eleições eram decididas no tapa mesmo e quem não votasse em Duque Estrada era ameaçado pelo grupo Flor da Gente…”

Na crônica da Revolta da Chibata (1910), junto com os degredados enviados pelo governo para serem escravizados – ou comidos pelos bichos – nos cafundós da selva amazônica, constavam dezenas, talvez centenas de capoeiristas.

Já conseguiram enxergar o esboço da figurinha que começa a aparecer no nosso jogo? Não? Pois siga em frente e junte mais pontinhos então.

Pontinho 03
O Cimento Social

(Agora mesmo, em pleno século 21)

Uma tropa de militares, sob a alegação de que um Projeto federal denominado Cimento Social era ‘obra do Exército’, fazia policiamento ostensivo do Morro da Providência, exercendo, literalmente, a função de uma milícia privada, desalojando, sabe-se lá como sem um único tiro, os traficantes que mantinham o controle do local.

No incidente amplamente divulgado pela imprensa, esta milícia, estranhamente formada por soldados regulares, segundo afirmam seus integrantes diretamente envolvidos no incidente, aprisionaram e espancaram três jovens da comunidade por motivo fútil (teriam sido xingados) e os entregaram a misteriosos bandidos de uma favela próxima, pretensos rivais da comunidade a que os jovens pertenciam.

Foi daí que a milícia…digo, a patrulha do Exército se encontrou com outra milícia…ou melhor, um grupo de traficantes do Morro da Mineira e negociou a entrega dos jovens (segundo as famílias dos mortos, pela quantia de 60 mil reais). Não se sabe ainda por que misteriosas razões, os jovens foram torturados e chacinados pelos nunca identificados traficantes, sendo os seus corpos lançados numa caçamba de lixo da própria favela para aparecerem, dias depois, num lixão num município vizinho.

Revoltada a população (da qual faziam parte, inclusive, os operários da obra), impediu a continuação dos trabalhos e rejeitou os pedidos de desculpas das autoridades, cercando o Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, a quem a tropa estava subordinada.

(Êpa, êpa! Mas não é este o mesmo Palácio Duque de Caxias, no passado, invadido pelos mercenários gringos, os tais ‘Diabos Brancos’?)

O escândalo se agravou quando a imprensa divulgou a natureza estranha do convênio entre tão altas instancias do governo federal e um candidato a prefeito da cidade. O projeto do senador era, literalmente, uma ‘obra de fachada’, já que apenas as fachadas das casas-barracos, visíveis do centro da cidade, seriam reformadas e pintadas de verde.

Pressionado pelo escândalo, em solenidade no Rio de Janeiro, o presidente da República recebeu os familiares das vítimas que, surpreendentemente, se mantiveram na firme posição de não admitir desculpas nem a presença do Exército no Morro.

Nitidamente contrariado, o governo federal decidiu então, numa insidiosa represália talvez, abandonar o morro e as obras inacabadas, deixando a população ao Deus dará.

Vocês sabem quem era o candidato envolvido neste lamentável incidente, não sabem? Ele mesmo: o bispo-senador, preferido do coração do nosso presidente.

Pontinho 04
Luta Democrática

A máfia nordestina e outras máfias

…Tenório Cavalcanti foi um dos muitos migrantes que vieram do Nordeste para a Baixada. Lá, enriqueceu e tornou-se uma poderosa figura política, criando um sistema clientelista e apoiando-se na violência como estratégia de conquista e manutenção do poder tanto econômico quanto político. A sua volta, montou-se uma “densa rede de relações pessoais, de amizade, parentesco e patronagem, trançada pela reciprocidade, a dependência, a lealdade e a deferência, tendo no líder seu fio central”…

Em torno de sua pessoa, criou-se toda uma mistificação, apoiada na construção de uma personagem para Tenório, que passou a ser conhecido pelo uso de suas inseparáveis capa preta e sua metralhadora “lurdinha”, bem como pela fama de “ter o corpo fechado”, por ter conseguido escapar ileso de uma série de conflitos a bala.

“…Para complementar ainda mais essa imagem, um episódio ocorrido em julho de 1962, que ficou conhecido como o “quebra-quebra”, ocupou por semanas as páginas dos noticiários, associando a região à falta de segurança e à prática da violência. Na verdade, a sucessão de depredações e saques ocorridas na Baixada no dia 5 de julho de 1962 fizeram parte de um contexto histórico de “revoltas populares” em todo o estado do Rio de Janeiro.

“…Este episódio, segundo Marlúcia dos Santos Souza, teria marcado o surgimento de milícias pagas pelos comerciantes locais para garantir a segurança de seus estabelecimentos. ‘… em 62, com o saque, as polícias privadas atuaram como repressores das revoltas e como mantenedoras da ordem.’ A partir deste contexto, marcou-se o início da ação de “grupos de extermínio” na região, como vão demonstrar Josinaldo Aleixo Souza e José Cláudio Alves Souza.

Segundo este último, “desde o golpe de 1964, sobretudo a partir de 1967, a Polícia Militar vinha assumindo um papel coadjuvante na repressão montada pela ditadura …”, o que a levaria a atuar diretamente na formação de “grupos de extermínio”. A ação desses grupos, porém, se efetivaria de forma mais veemente a partir da década de 70…”

(Extraído de favelatemmemoria.com.br

Pontinho 05
Welcome to Congo!

Ano de 1998

O Rio de Janeiro é uma cidade com um explosivo problema de segurança pública localizado, exatamente, em suas áreas mais carentes (segundo diz o velho ramerrão, por falta de políticas públicas), áreas estas que foram sendo, progressivamente, ocupadas por grupos armados, a princípio identificados, genericamente, como Comandos de Traficantes (em bom português, milícias armadas, portanto).

De uns tempos para cá, a situação, por si só já muito dinâmica, por culpa da renitente e oportunista omissão das ‘autoridades constituídas’, evoluiu para o perigoso estágio da cooptação ou da simples corrupção de indivíduos integrantes das forças de segurança convencionais (Polícias Militar e Civil) que passaram a se mancomunar com as facções criminosas tradicionais.

A tal dinâmica dos acontecimentos tinha, inclusive, um viés tenebroso, prenúncio do que viria: Engrossando o caldo do equilibrado conflito entre Comando vermelho e Terceiro Comando, aparecia como uma cunha para fracionar a clássica dicotomia polícia-bandido, uma nova facção denominada, sugestivamente, A.D.A ou ‘Amigos Dos Amigos’ ou seja, uma organização que poderia abrigar integrantes de qualquer uma das partes em conflito, inclusive policiais, desde que partidários de um pacto de cooperação (é esta mesma facção a que controla a favela onde os jovens da Providência, supostamente, foram torturados e mortos).

E assim ‘evoluímos’ para um estágio no qual passou a não existir mais diferença perceptível alguma entre os modos de agir de policiais e bandidos (no que diz respeito à prática de delitos criminosos, roubos, assaltos e assassinatos, bem entendido).

Chegamos então, infelizmente, no curto espaço de menos de cinco anos, se muito, a um ponto de difícil retorno, no qual as próprias instituições policiais se organizaram (ou se ‘desorganizaram’) em braços clandestinos, que a população denominou a princípio de Polícia ‘Mineira’.

Logo denominadas pela imprensa mais apropriadamente, de ‘Milícias’, estas ‘Mineiras’ (o nome – que evoca a truculência da polícia de Minas Gerais em décadas anteriores – se popularizou na Baixada Fluminense na década de 70) são instituições paramilitares que, estimuladas pela ‘vista grossa’ da classe média, cada vez mais rapidamente, vão usurpando, sob o pretexto de cuidar da segurança privada, do controle de todos os tipos de serviços públicos, historicamente negligenciados pelas autoridades legalmente constituídas (além de serviços privados, é claro).

No contexto desta situação dramática, alguns especialistas em segurança pública (omitindo o fato da falta de políticas públicas ser a causa evidente de todos estes males) vêm solicitando há tempos, a intervenção das forças armadas. O governo federal, por intermédio do Ministério da Defesa, do congresso Nacional e do próprio Exército, tem relutado, alegando não ser esta função constitucional das forças armadas (embora elas atuem com esta função no Haiti, por solicitação da ONU e –cala-te boca- tenham atuado, exatamente, assim no incidente aqui narrado, ocorrido no Morro da Providência.)

Para agravar o quadro, estas autoridades constituídas, começam a assumir, a partir do Governo Collor de Mello, cada vez mais claramente, modus operandis muito semelhante ao de instituições de caráter mafioso, criando uma espécie de sociedade bandida, anômala, um tanto parecida – se projetarmos a evolução do problema e guardadas as devidas proporções – com a de certos países africanos modernos (como o Congo atual, por exemplo)

Duvidam? Vão pagar pra ver?

Bye Bye Brasil
Este é um país que vai pra frente?

Como se sabe o fenômeno não é simples. Possui fundas raízes no arcaísmo de nossa estrutura social, sempre calcada na injustiça social a qualquer custo, gerando tudo que aí está, há séculos e séculos, amém.

Se juntarmos mais ainda os pontinhos, veremos as figurinhas do misticismo político-religioso de Conselheiro e do Padre Cícero, ligados com os do proto-comunismo da Coluna Prestes, passando pelo banditismo do capitão Lampião. A cada conjunto de pontinhos juntados, quantas e quantas elucidativas imagens vamos conseguindo formar. É o Brasil Bandido mostrando a sua cara feia.

O curioso é que os pontinhos mais incríveis – principalmente, por suas inquietantes ligações com a nossa conversa – são aqueles ligados ao místico Conselheiro.

Ele foi, todo mundo sabe, aquele beato piradão, espécie de bispo de uma seita inventada ali, na época, um ícone invertido do senador de nossa história. Ele mesmo, o líder da cidadela rebelde (a primeira favela mítica), guarnecida por uma milícia popular, que lutou contra as mesmas injustiças sociais clássicas, vigentes no modelo social brasileiro, enfrentando encarniçadamente o Exército Brasileiro até ser massacrada.

Pois não é que foi aqui, no Rio de Janeiro– santa coincidência! – que alguns soldados veteranos daquelas mesmas batalhas contra o Conselheiro, desengajados, sem soldo e largados à própria sorte pelo Exército Brasileiro, não tendo outra alternativa de sobrevivência ocuparam as encostas de um certo morro bem perto da perímetro urbano da Corte?

O morro passou a se chamar ‘da Favela’, em alusão à presença na vegetação do morro da ‘fava d’anta’ (dimorphandra mollis Benth), leguminosa típica do cerrado brasileiro, também conhecida, no diminutivo, como favela, da qual os veteranos soldados tinham muitas lembranças dos tempos de Canudos, por causa da localidade existente na região dos combates chamada, pela mesma razão, Alto da favela.

Com a generalização do nome Favela, por conta da pauperização do Brasil urbano e a palavra passando a denominar qualquer conjunto de habitações miseráveis, o local fundado pelos veteranos de Canudos, mudou de nome, passando a se chamar, não Nova Canudos, como deveria, mas… Morro da Providência’.

Êpa, êpa! De novo? Mas não é aquele mesmo Morro da Providência no qual uma tropa do mesmo Exército seqüestrou e levou à morte três jovens, no incidente que levou a população do local (em certa medida descendente dos veteranos de Canudos), a invadir o Palácio Duque de Caxias, sede do comando militar leste, outrora (e bota outrora nisto) também invadido pelos mercenários europeus, logo após a nossa independência?

Roda viva. Círculo vicioso: Independência, favela, nordeste, Canudos, Lampião, Exército, providência, presidentes, bispos, seitas, máfias, seqüestros e chacinas, balas achadas e perdidas, num verdadeiro suflê de sangue, suor e lágrimas.

Viram só, que incríveis coincidências formam o nosso ‘muderno’ Brasil profundo? Bastou juntar os pontinhos.

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Existem algumas maneiras de escapar de uma situação como esta. Você pode se deitar na calçada e esperar mais um tiroteio passar; você pode fugir pelo bosque escuro da floresta da Tijuca e deixar marcado o caminho percorrido com bolinhas de miolo de pão; pode mostrar para a bruxa que te seqüestrou, o delgado rabo de um ratinho, para ela pensar que você está muito magrinho ainda para ser comido; pode sair correndo em zig zag; pode enfim, esbugalhar os olhos e se fingir de morto, sei lá tantas coisas…

Tomara que eles, já perdendo o controle da situação, não venham com a idéia de jerico de contratar, de novo, uma milícia de mercenários estrangeiros.

(Se bem que, a esta altura dos acontecimentos, juro que até eu -como D.Pedro I – iria adorar ter um exército para chamar de meu).

Spirito Santo

Sei lá quando de 2007 (ou seria 2008?)