Monsueto mora na filosofia.


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Capa Mora na filosofia dos sambas de Monsueto By Marcel Cruz e Magda Joele

Capa de “Mora na filosofia dos sambas de Monsueto” By Marcel Cruz e Magda Joele

Rio Zona Sul
Leblon, Copacabana e Samba

O final da minha infância foi marcado pelas músicas dele. Deve ter sido o primeiro prazer musical assim, brasileiro mesmo, que eu curti na vida. Uma música inteiramente diferente dos boleros e guarânias que rolavam no suburbano hit parade do rádio da minha mãe.

Agora mesmo, relembrando, me dou conta, surpreso, de que sei cantar até hoje, quase todas as músicas que ele fez. Elas ficaram gravadas na minha memória como fogo brando. Um ‘long playing’ de lembranças de um rito de passagem. Fiquei homem ouvindo as músicas desta figura tão fabulosa quanto desconhecida da garotada de hoje, em seus ritos de passagem tão hedonistas quanto estrangeiros.

Se for mesmo aprofundar, considerando-se a agudeza do discurso social de suas letras, talvez ele tenha sido – muito mais do que qualquer Marx ou Engels da vida – a principal referência cultural na minha tomada de consciência, do que significava ser brasileiro, naqueles tempos confusos, onde se curtia uma necessidade imperativa de saborear a vida, correndo atrás da felicidade sim, porém sem nunca deixar de pensar na vida do próximo. Duros, tesos, pero sin perder la ternura jamás (grande mérito moral e emocional da minha geração).

O nome dele era Monsueto e foi o meu guru sambista, nesta época turbulenta que foi o início dos anos 60. Sorridente xamã bon vivant, do meu rito de passagem para o mundo ‘adulto’. Tempo das ilusões – e das revoluções – perdidas.

O Cara

Monsueto Campos Menezes foi, essencialmente, um músico. Baterista de boate, atuou em diversos conjuntos na década de 1940, entre as quais a Orquestra de Copinha, no Copacabana Palace Hotel. Percussionista, cantor, ator comediante, foi também um excelente pintor naïf no fim de sua curta vida (Pablo Neruda, certa vez, adquiriu um quadro dele). Foi, sobretudo, um compositor popular da pesada, dos melhores que o Brasil já teve.

O auge da popularidade de Monsueto, como compositor, se deu por volta do fatídico ano de 1964, quando Helena de Lima, experimentadíssima cantora de boate, gravou (ao vivo) o vinil ‘Uma Noite no Cangaceiro‘ (boate da moda na época) incluindo num eletrizante ‘pout-pourri’ de Sambas, duas músicas dele: ‘Mora na filosofia’ (também gravada por Caetano Veloso no disco ‘Transa‘ de 1972) e ‘A Fonte secou’.

Nascido no Rio de Janeiro em 4/11/1924, criado na Favela do Pinto, Monsueto perdeu os pais muito cedo, tendo sido criado por uma avó.

Quem é que se lembra da Favela (da praia) do Pinto? Lugar muito especial nesta época, também chamada, erroneamente, de Morro do Pinto (que fica na verdade na área do cais do porto), a favela onde Monsueto foi criado, era um gueto negro encravado na parte mais nobre da Zona Sul do Rio. Para os elegantes da área, um câncer a ser extirpado.

A Praia do Pinto

“De todas as favelas extintas nos anos 60, o caso mais polêmico foi a da Praia do Pinto, no Leblon. Os moradores souberam dos planos da Prefeitura de acabar com a comunidade ainda na década de 50, mas houve forte resistência.

Segundo dados do Censo de Favelas de 1949, pelo menos 20 mil pessoas moravam no local. A remoção só foi concluída após um incêndio, em 1969, durante o mandato do governador Negrão de Lima.

“Muitas pessoas não queriam sair. Apesar dos problemas, preferiam continuar morando na Zona Sul. O incêndio obrigou todo mundo a ir embora”, afirma Maria Rosa de Souza Noronha, de 62 anos, ex-moradora da Praia do Pinto, depois removida para o Complexo da Maré.

Praticamente todos os barracos da Praia do Pinto foram destruídos pelo fogo. No dia seguinte, policiais colocaram abaixo as poucas casas que sobraram de pé.

Até hoje ninguém confirma se foi acidente ou uma última tentativa do Governo de expulsar os moradores. Mas todos os indícios apontam para um remoção forçada “.

A Chapa quente e a Guerra Fria.

Mesmo deixando de lado a crônica crua da destruição da Favela do Pinto, o contexto da época de Monsueto é, historicamente, muito rico. Na política, a chapa esquentava, devagarinho, numa, crise na conjuntura econômica (e ideológica) mundial, chamada, com certa ironia, de ‘Guerra Fria‘ (a Guerra Quente há muito terminara na Europa).

É nesta época que, no bojo do intenso rebuliço que preparou o campo para uma nova ordem econômica mundial, nos anos 70, que as sangrentas ditaduras militares latino americanas chocaram seus ovos. CIA versus KGB, Comunismo versus Capitalismo, uma época de ismos diversos em conflito.

Cínico, irônico, Monsueto, por exemplo, devia ser adepto do ‘Sambismo’, nome possível para uma doutrina ideológica onde, evidentemente, só pontificavam os sambistas.

No aspecto cultural, a época no Brasil (e na área por onde Monsueto transitava, a elegante noite boemia de Copacabana) também não era de brincadeira não. Sonambulos, sonhávamos ainda. Sem nos tocar que a Revolução Cubana significaria algum tipo de ruptura, de perigo para a estabilidade latino americana, vivíamos, tolamente, os últimos capítulos dos anos dourados’, para entrar nos ‘Anos de Chumbo’.

Um dos principais pólos desta efervescente letargia era Copacabana. Ali se fermentava, se destilava e, principalmente se bebia, uma música popular muito original e híbrida, em vários sentidos.

Nas boates de Copacabana se poderia ouvir tanto um Samba na praia de um Cyro Monteiro (figura rara em boates), swuingado, puxado à la Geraldo Pereira, como uma mescla do Samba canção, meloso, com aquele chiquê trágico das canções de Edit Piaf, marca aparente das composições de Dolores Duran e Antônio Maria.

Os dois aliás, estiveram de algum modo presentes, na veia seminal de outro tipo de Samba, mais voltado para a inconsequência burguesa da Côte D’Azur francesa: A Bossa Nova primordial de Jobim e sua turma que, logo em seguida, elegante que era, achou por bem embarcar na tal – e não menos burguesa – ‘Influencia do Jazz’.

O que não se fala muito, nesta crônica da música da Zona Sul do Rio de Janeiro, é que haviam outras tendências, tão ou mais, interessantes, como é o caso da corrente da qual, de certo modo fazia parte Monsueto.

Esta corrente, muito rica, integrada por artistas negros oriundos, em sua grande maioria do âmbito da Favela do Pinto, a partir das mesmas influências, digamos assim, ‘pequeno-burguesas’ que geraram mais tarde a Bossa Nova, desenvolvia um estilo mais calcado numa mistura entre o Samba ‘de morro’, como já se dizia na época, com lado mais ‘africano’ da música de jazz que nos chegava, mais diversificada com os bons ventos do Desenvolvimentismo, avançando rumo ao que, mais tarde, se cristalizou no estilo sacudido da música de Jorge Ben (o Benjor de hoje) ou mesmo de Baden Powel e seus Afro Sambas.

Este estilo, ainda pouco estudado no Brasil, gerou nos anos subsequentes muitas figuras emblemáticas de nossa música instrumental (muito populares em sua época, ali pelos idos dos anos 60) como, por exemplo, Erlon Chaves, um maestro muito popular na TV da época, o fabuloso Dom Salvador (e seu Grupo Abolição), Moacir Santos (’Ouro Negro’) e tantos outros.

Monsueto Campos Menezes, cria desta fabulosa geração de artistas, atuou também como ator cômico no cinema (onde trabalhou em, pelo menos, 14 filmes, inclusive europeus) e na televisão. Excursionou para a Europa, a África e a América, falecendo em 17/2/1973.

Bem, vocês podem até dizer que eu ‘viajei’, que Monsueto não passava mesmo era de mais um bom sambista, mas, primeiro precisamos combinar uma coisa (como diria Paulinho da Viola) :

O Samba, ‘não é só isto que se vê. É um pouco mais’.

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As músicas de Monsueto

A primeira composição de Monsueto, gravada em 1951, foi o samba “Me deixe em paz”, parceria com Aírton Amorim (gravada por Linda Batista) porém muito mais lembrada na antológica versão de Milton Nascimento no disco ‘Clube da Esquina‘.

Conheça melhor (e aprenda a cantar) a obra do homem:

Me deixe em paz

Se você não me queria
não devia me procurar
não devia me iludir
nem deixar eu me apaixonar

Evitar a dor

é impossível
evitar este amor
é muito mais
você arruinou a minha vida
me deixa em paz’

O Couro do Falecido

Um minuto de silêncio
Para o cabrito que morreu
Se hoje a gente samba

É que o couro ele nos deu
Castigue o couro do falecido
Bate o bumbo com vontade
Que a moçada quer sambar
Castigue o couro do falecido
Morre um para bem de outros
A verdade é essa, não se pode negar…
(Tá bom? Tá…)

(Em 1954, a cantora Marlene estava preparada para gravar a deliciosa – e quase non sense- ‘O Couro do falecido’ mas teve que desistir na última hora por que Getúlio Vargas acabara de se suicidar e a letra do Samba poderia ser mal interpretada).
A fonte secou (1953, com Raul Moreno e Marcleo)

Eu não sou água pra me tratares assim
Só na hora da sede é que procuras por mim
A fonte secou
Quero dizer que entre nós tudo acabou

Seu egoísmo me libertou
Não deves mais me procurar

A fonte do nosso amor secou
mas os seus olhos nunca mais hão de secar.

Mora na filosofia
(1955, com Arnaldo Passos)

Eu… vou lhe dar a decisão
botei na balança… e você não pesou
botei na peneira… e você não passou.
Mora, na filosofia… prá quê rimar
amor e dor?

Se seu corpo ficasse marcado
por lábios ou mãos carinhosas
eu saberia (ora vá mulher)…
a quantos você pertencia.
Não vou me preocupar em ver
seu caso não é de ver prá crer: tá na cara…

O lamento da lavadeira
(Nilo Chagas, Monsueto Menezes e João Vieira Filho)

Ô, dona Maria!
Olha a roupa, dona Maria
Ai, meu deus!
Tomara que não me farte água!

Sabão, um pedacinho assim
A água, um pinguinho assim
O tanque, um tanquinho assim
A roupa, um montão assim
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para lavar a roupa da minha sinhá

Quintal, um quintalzinho assim
A corda, uma cordinha assim
O sol, um solzinho assim
A roupa, um montão assim
Para secar a roupa da minha sinhá
Para secar a roupa da minha sinhá

A sala, uma salinha assim
A mesa, uma mesinha assim
O ferro, um ferrinho assim

A roupa, um montão assim
Para passar a roupa da minha sinhá
Para passar a roupa da minha sinhá

Trabalho, um tantão assim
Cansaço, é bastante sim
A roupa, um montão assim
Dinheiro, um tiquinho assim
Para lavar a roupa da minha sinhá
Para lavar a roupa da minha sinhá


Larga Meu Pé

Nega larga o meu pé
Vá quando quiser

Pra você não falta homem
Pra mim não falta mulher

Eu quero essa mulher assim mesmo

Eu quero essa mulher assim mesmo
Eu quero essa mulher assim mesmo

Eu quero essa mulher assim mesmo
Eu quero
Quero essa mulher assim mesmo

Baratinada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Alucinada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Despenteada
Eu quero essa mulher assim mesmo

Descabelada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Embriagada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Intoxicada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Desafinada
Eu quero essa mulher assim mesmo
Desentoada

Eu quero essa mulher assim mesmo
[etc., a critério da inventividade do intérprete.,

Spírito Santo
Junho 2007