Salada Mista


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Foto Tadeu Brunelli
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Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes

“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”

(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)

Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.

A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade.

Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.

Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’).

Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.

O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.

A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.

Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta : )

_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’

A VITAMINA
Descrevendo as receitas

…”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.

(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)

Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil à década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:

_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’

É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).

A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre.

Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:

_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.

Ao que Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:

_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”

O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?

É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.

É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)

O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)

Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:

_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’

É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ‘superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.

Para outros, contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).

(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).

Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.

Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiram para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.

O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:

“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’.

Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”

As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele, no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.

Não é possível, portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente”

No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.

Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim, mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:

_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.

A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis

Há também, pode-se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.

Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?

Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.

É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade.

A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.

E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.

Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto.

Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto

Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política.

A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.

Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?

Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma frequência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão.

No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?

 O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.

Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.

Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?

(Agora, sem maniqueísmos, por favor)

Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente, mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.

E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.

(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)

Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.

Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.

“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!

Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.

(Samba muito popular nos anos 70)

Spírito Santo

Abril,  2007

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A Síndrome do Gueto


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Foto: Escravidão século 19 – Biblioteca do Congresso dos EUA

Movimentos ‘Brancos’ ou Movimentos ‘Negros’? Teorizando sobre mazelas sociais indizíveis

Sei lá porque (acho que é um trauma do colégio interno ou da prisão), maior baixo astral, mas o fato é que sempre penso nisto e senti agora mesmo um impulso incontrolável de falar com alguém sobre o assunto.

O Gheto de Varsóvia é a referencia mais vívida e emblemática: Na circunscrição daquele espaço cercado pela polícia nazista, um microcosmos social transbordando de psicopatias e neuroses sobre as quais, até hoje, ninguém quer falar.

O clima é de urgência. Cada dia é um dia. Sabiam, mas agora ninguém sabe mais, exatamente como é ‘lá fora’, o que ocorre ‘lá fora’, a dimensão e a natureza terrível do que está por vir.

Os colaboracionistas com tarjas identificativas nos braços; uns servindo de polícia, controlando os próprios vizinhos, outros se ocupando do tráfego de carroças e pessoas, da distribuição de comida, todos pensando que vão conseguir se safar, salvar a si e a família pelo menos da fome e por isto fazem jogo das tropas de ocupação.

Políticos espertos (até alguns líderes religiosos) na pele de agentes comunitários ‘um-sete-uns’ criam ou dirigem instituições – muito parecidas com as ONGs modernas – que intermediam informações trocadas por indignas migalhas ou mesmo pela honra, pela moral, por valores que deveriam ser inegociáveis, enfim.

No fundo não passam de atenuadores de conflitos que cumprem apenas o papel de cobrir com ‘panos quentes’ a indignação e a ânsia de revolta que grassa o pensamento das pessoas.

O Gheto é isto: De um lado a submissão conformada da maioria e do outro a resistência louca de um punhado de insanos suicidas que pega em armas por alguma razão.

(E aqui o olhar servil e malvado do camponês denunciando o esconderijo de Che Guevara na selva da Bolívia é a lembrança mais pungente)

É que nestes casos denunciar os rebeldes vira uma mercadoria valiosa. Vale um queijo, um pouco de presunto, uma garrafa de vinho. Como condenar, censurar os que se submetem a isto, os que se aviltam para tentar sobreviver? Uns mais ardilosos e canalhas até que se dão bem. Chegam até a enriquecer um pouco – isto se considerarmos o pouco que é necessário para se sentir rico num ambiente miserável como este.

No fundo a maioria compactua, abaixa a cabeça e se submete. Nem se dá conta da eventual imoralidade de seus atos, da iniquidade de sua traição àqueles semelhantes que se rebelaram e que por isto irão, com toda certeza morrer.

Na verdade, a esta maioria, se lhe fosse dada a chance de escapar, não saberia nem mesmo para onde ir, porque ir, tão envolvida que está pela propaganda viva, pulsante nas coisas descritas pelo momento, pelo dia a dia.

_‘As coisas que são o que são e está acabado’_ É o que toda maioria diz.

Adaptada às circunstâncias, aprisionada em si mesma, a maioria presa fácil da Síndrome do Gueto.

Não lhe parece familiar este filme?

…Não. Não falo deste filme colorido de Hollywood. Falo daquele nosso filme íntimo real e brasileiro que está em cartaz num cinema bem perto de você.

(Pronto. Se já não sabia, você agora sabe muito bem do que estou falando. Podemos enveredar então pela outra ponta do assunto).

Enunciado completo da questão:
Entranhas da estranheza. Sintomatologia

Síndrome: Distúrbio ou doença – individual ou social – contingência irrecorrível, estado de coisas anormal, conjuntura aguda, quase inescapável, a qual um indivíduo ou um grupo social está acometido, caracterizada pela conjunção de um número determinado de fatores, especialmente articulados que, condenam o indivíduo e/ou o seu grupo a um destino indesejado e quase sempre inexorável. Exemplos:

  • Distúrbios ou doenças individuais: Aids (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida), Síndrome do pânico, distúrbios psicológicos ou neuro-químicos em geral, esquizofrenias, psicopatias diversas (Síndrome de Estocolmo, aquela do sequestrado tomado de admiração pelo sequestrador).
  • Distúrbios ou doenças sociais: Analfabetismo, carência alimentar (subnutrição), alienação cultural aguda (aculturação)… Racismo, etc.

Gueto: Espaço restrito, físico ou simbólico, para o qual foi alijado ou no qual, deliberadamente foi confinado um grupo social, que por este intermédio passou a ficar isolado, de um lado de seu meio social e/ou cultural original e, de outro lado, isolado também do convívio com a sociedade em geral, vista de forma ampla.

Esta subjugação do grupo confinado neste gueto, neste espaço de exclusão, se dá por força de dispositivos do mesmo modo físicos, concretos (tal como muros ou cercas de contenção, repressão policial, etc.) ou simbólicos, mentais (tais como campanhas sistemáticas de difamação, privação de acesso à educação formal, procedimentos segregacionistas abertos ou dissimuladas, racismo, etc.).

Muito eficientes ao longo do tempo, estes dispositivos, geralmente impostos por um grupo social hegemônico por força de forte pressão psicológica e expedientes culturais subliminares os mais diversos, muitas vezes acabam sendo até mesmo tolerados, aceitos – ou passam despercebidos – por aqueles que, expostos a eles durante muito tempo, acabam subjugados por muitas gerações.

Síndrome do Gueto: Estado mental ou comportamental manifestado por indivíduos submetidos às condições gerais e especiais acima citadas, principalmente no campo de suas relações psico-sociais e culturais, marcadas indelevelmente pelas consequências nefastas do prolongado isolamento ao qual o grupo está ou esteve submetido.

Espécie de circulo vicioso, este estado de coisas impede ou dificulta aos indivíduos destes grupos (e até mesmo às associações de indivíduos criadas para defender seus interesses) a compreensão da natureza complexa de seus problemas, a ponto de dificultar o encontro de soluções eficientes que possam efetivamente romper o estado de coisas estabelecido, tornando estes indivíduos ou grupos, presas fáceis, quase cúmplices da manutenção ininterrupta de seu estado de subjugação.

Tratando-se de um estado de coisas de natureza social, embora anômalo, ou seja, do ponto de vista das regras básicas do conceito Humanidade, um estado de coisas injusto, a Síndrome do Gueto pode ser vista como sendo uma nítida política de exclusão social, deliberada, perpetrada por certos grupos ou classes sociais contra os outros, com o intuito de subjugá-los, justificando, plenamente o ensejo e o direito dos grupos prejudicados, por meio do estudo meticuloso de sua condição de excluídos, de buscar estratégias (que são a princípio políticas já que, em casos mais agudos, até mesmo estratégias para-militares ou violentas podem ser necessárias) para quebrar o jugo dos hegemonistas.

Exemplos emblemáticos de grupos sociais afetados pela Síndrome do Gueto ao longo da história:

  • Hebreus ou Judeus subjugados por egípcios no tempo dos faraós
  • Indigenas norte-americanos – e sul americanos – e africanos de diversas etnias subjugados pelos colonizadores brancos nas Américas e na África nos século 18 e 19, confinados em reservas ou territórios militarmente controlados
  • Fazendas de escravos nas Américas (como as de algodão nos EUA ou as do ciclo do café brasileiro)
  • Judeus aprisionados em guetos de criados pelos nazistas na segunda guerra mundial (como o Gueto de Varsóvia)
  • Emigrantes contidos em bairros de deserdados (como o velho Harlen de Nova York), etc.
  • Populações aprisionadas em Guetos e ‘bantustões’ implantados pelo governo racista da África do Sul durante o regime do Apartheid (como Soweto)
  • Palestinos subjugados pelo estado israelense na faixa de Gaza
  • Euro-muçulmanos subjugados – e massacrados- por sérvios e croatas na partilha nacionalista da ex-Iuguslávia.
  • Negros e nordestinos alijados para morar em ‘Morros’, ‘Favelas’, ‘Comunidades’e ‘Complexos’ de pobres no Rio de Janeiro, Brasil

O conceito, portanto está lançado. Este é, pois o tema proposto: a análise meticulosa da natureza desta síndrome em todas as suas nuances e melindres, afim de que se escape da armadilha estratégica que o combate ao racismo no Brasil parece estar confinado.

A luta contra o renitente racismo à brasileira estaria de algum modo, comprometida, travada por esta síndrome? Toco no assunto só de relance abaixo.

Anos de chumbo. A clausura impregnada em nós

Nos tão bem lembrados – e em certa medida saudosos – anos 70, a questão só assumiu contornos de emergência revolucionária para uns poucos. Lutar contra a ditadura era uma necessidade indiscutível e inadiável sim, prioridade absoluta para aquela parcela bem pensante de nossa sociedade, mas lutar contra o racismo não.

Tabu embutido no discurso da esquerda brasileira o tema foi, ora discretamente omitido, ora desestimulado com veemência, tratado como uma questão menor, ‘reacionária’ até, que só serviria mesmo para… ‘atrasar’ a luta.

Refletindo já a visão distorcida – que, aliás, predomina sobre o assunto até hoje – sendo a maior parte desta camada ‘bem pensante’ composta por pessoas auto declaradas ‘brancas’ (ninguém parava para pensar – ou fingia não saber – porque diabos a sociedade brasileira estava dividida assim).

O fato é que a discussão sobre o racismo era considerada, francamente secundária, ‘superestrutural’ como se dizia, quase um estorvo diante das grandes e sagradas questões nacionais.

(Não devia ser assim, mas pimenta nos olhos dos outros sempre foi refresco).

Como estaria se dando em Cuba e em outras mais longínquas plagas, o socialismo tão ansiado, assim que implantado por aqui, naturalmente se incumbiria de anular as eventuais e prosaicas (residuais para muitos) divergências raciais.

Justiça social total e automática. Esta era a utopia que parecia a verdade mais líquida e certa deste mundo. Dá até angústia pensar hoje em dia na solidão dos minguados velhos militantes negros da ocasião, calejados de exemplos frustrados desde a mal ajambrada abolição da escravatura.

Melancólicas lembranças daquele malhar em ferro frio do pessoal do Teatro Experimental do Negro nos anos 40/50, dos vetustos senhores da Frente Negra Brasileira dos anos 30, ingênuos quase comunistas, quase integralistas, vendo uma após outra as gerações de negros, filhos, netos, passarem a juventude inteira sem referências ideológicas válidas, curtindo a incômoda sensação de que, para vencer a barreira quase invisível do racismo o jeito mesmo era buscar uma saída individual, sem tocar publicamente no problema, sublimando-o na subserviente crença de que, estudando o negro chegaria ‘’.

_’Lá onde?’_ Pensavam e esbravejavam minguados rebeldes como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Olímpio Marques dos Santos e uns poucos outros mais.

Eu mesmo, jovem militante subalterno de algumas poucas lutas puramente sociais, tomado por esta mesma negação do problema racial que não via ou não queria ver, me ressentia calado da subestimação com que as lideranças tratavam do problema que eu, mesmo sem assumir frontalmente, percebia estar grudado em nós como craca em casco de navio, enrustido em todas as relações que se estabeleciam entre as pessoas no Brasil, independentemente delas serem da ‘esquerda’ ou da ‘direita’.

Líamos o mesmo Karl Marx, mas, entendíamos marxismos diferentes. Como nas teses originais do alemão, inspiradas que foram na realidade européia, a questão do racismo não aparecia claramente expressa, os mais brancos de nós interpretavam o racismo como sendo uma espécie de problema cultural apenas subjacente, estritamente brasileiro, passível de fácil remédio com programas sócio educacionais pontuais.

Nós, os mínimos – embora mal letrados – quase marxistas negros do pedaço, não nos arvoraríamos jamais de, aquela altura dos acontecimentos, corrigir semelhantes filigranas nas teses do ‘mestre’ do materialismo dialético.

A chapa estava quente demais. As pessoas morriam de verdade, envolvidas naquela aventura. Amargavam as dores todas da cadeia, da tortura. Perdida de antemão, sabemos agora, contudo que aquilo era luta mesmo, luta à vera, gritariam para nós nas assembléias, se ousássemos levantar a voz para propor qualquer aprofundamento da questão.

Contudo, o exemplo mais candente da relevância deste ressentimento era facilmente perceptível na condição subalterna a que eram relegados os gatos pingados negros da ‘organização’.

Para ‘Uns‘ tarefas subalternas, posições subalternas até num simples ‘comício relâmpago’, práticas nas quais os ‘Outros‘ (às vezes – pasmem! – vestindo ternos de ‘tweed’ em pleno verão carioca) nas portas das fábricas faziam os prolixos discursos incitando greves contra os ‘patrões exploradores da mais valia operária’ enquanto que os  ‘Uns‘, disfarçados de mendigos, operários ou camelôs, entravam mudos e saiam calados, fazendo a ‘segurança da ação’, prontos a, se fosse o caso, segurar o trem pesado da repressão.

(Desnecessário se dizer no caso quem eram ‘uns’ e quem eram os ‘outros’).

Para cada tempo um fundo sentimento
Ser negro naqueles anos de chumbo

Fortes, intrínsecas e renitentes as premissas básicas do Racismo à brasileira já apareciam ali, claríssimas, só os cegos (os que não queriam ver) não viam. O símbolo mais evidente do caráter doentio desta renitência podia ser simbolizado por aqueles militantes ‘revolucionários’ que, sabia-se à boca pequena, quando ainda não ingressos na clandestinidade, mantinham empregadas domésticas em suas próprias casas.

Dizem até que alguns contratavam discretas arrumadeiras diaristas para limpar os ‘aparelhos’, limitando-se apenas a tratá-las como ‘iguais’, vez por outra as brindando com pequenos regalos e exortações à conscientização de seu papel de escravas dos ‘outros’ (por suposto, nunca ‘deles’).

Talvez tenha sido por isto que aquele renovado Movimento Negro dos anos 70, aparentava já na sua origem, aquela forte vocação ‘Black is beatifull’, curtindo mais Lhuter King do que Malcom X, tendendo mais para o fashion ‘Black Power’ do que para o enfático ‘O Negro no Poder’.

Subestimando por julgar arcaica e ‘out‘ cultura dos nossos avós sambistas, alguns de nós ignoravam ou repudiavam do mesmo modo, o caráter francamente racista da ‘juventude branca’ de esquerda, que de forma vanguardista propunha uma revolução social rumo a uma sociedade sem classes.

‘Renegar o velho‘, ‘renegar o branco‘, estas eram as palavras de ordem subentendidas em algumas de nossas falas. E daí como consequência o efeito terrível: Aculturados, misturamos assim alhos com bugalhos.

Foi incrível, mas cega pela aversão ao racismo renitente e enrustido dos ‘movimentos brancos‘, esta parte mais proeminente da militância negra parece que foi perdendo também o sentido de sua luta, o foco de seus próprios interesses sociais mais evidentes, ao negar – como uma pequeno-burguesia destas bem egoístas e chinfrim– o eterno sonho da revolução social, mesmo quando ela já estava sendo feita, exatamente por exemplares sociedades negras contemporâneas, aquelas mesmas antepassadas diretas dos negros do Brasil (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau).

(Aliás, quem por aqui se importava com Nelson Mandela na década de 70?)

Zumbi por certo, nestas horas, se revolvia no túmulo ultrajado por ter seu revolucionário nome evocado em vão (isto sem se falar no mesmo revolver do corpo do Oswaldão do Araguaia).

As ideias de libertação sócio racial, na luta de todos para todos (do vitorioso ideário do ANC de Mandela), acabaram assim trocadas pelas contidas ideias de ascensão social individual, segundo um modelo de luta calcado no que havia de mais aparente no comportamento de uma minoria negra, que reivindicava direitos civis nos EUA.

A mal disfarçada tentativa de criar aqui uma classe média negra, uma elite negra, uma casta de intermediários entre os milhões de negros pobres e a hegemonia branca – como se pode ver ainda hoje – claramente era (como o é ainda) totalmente improvável no contexto de uma população afro-descendente tão numerosa quanto tão meticulosamente segregada como a nossa.

Assim como uma maioria equivocadamente se julgando minoria, pensando como minoria (como se dava, por razões bem menos prosaicas em Varsóvia), esta minúscula liderança negra foi facilmente inviabilizada e corrompida, cooptada enfim como qualquer ‘panelinha’ social oportunista.

Pois foi assim que a Síndrome do Gueto, se apossando sorrateiramente daquelas nossas mentes mais vadias e românticas, que sonhavam em sozinhas chegar ‘lá’, nos levou a este deu no que deu.

O isolamento político de uma geração inteira de hoje maduros líderes negros que, animados naquela época pelas emocionantes palavras de ordem dasMarchas para Zumbi, se empenharam no vão intento de ser a antítese perfeita e acabada da esquerda ‘branca’, acabando mesmo como tributários subalternos das plataformas pretensamente esquerdistas do PT (e de outros partidos menores, também supostamente de esquerda) tendo que amargar hoje as lamúrias tardias de um ou outro líder-orixá caído na lama, dentre os poucos que…chegaram ‘‘.

Como, ao que supomos, ficou provado, não bastava mesmo ser negro e favelado.  Seja lá qual fosse a revolução de cada um, o dístico rebelde nunca poderia ser apagado:

_ ‘hay siempre que endurecerse sin perder a ternura – e a ética, a vergonha na cara – jamás.’

(Melancólicas e tardias constatações, reconheço. E é por isto que peço tempo. Depois o papo segue de onde parou, num outro post ou até onde esta penosa conversa nos levar.)

Spírito Santo
Abril 2010

(Hoje, 2019, infelizmente não consegui mudar uma vírgula)

Butim:O derradeiro boletim da guerra


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Correspondente pede pra sair e sai batido, enquanto há tempo.

Já deu. Qualquer um com um pingo de lucidez que seja vai me dar razão.

A antena parabólica de minh’alma continua arguta – e atabalhoada como sempre – perscrutando tudo obsessivamente, mas convenhamos que não vale mais a pena – ou o risco – testemunhar. Para que? De que nos vale ser um ‘são tomé das letras’ na descrição desta guerra sem batalhas, se nem soldado – tampouco civil algum – está afim de crer no que está bem diante do nariz.

_”Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Falo sério. A mim bastaria citar de passagem o que a antena perscrutou ontem mesmo – ou anteontem – no lapso de uma manhã apenas, para justificar o enfático pedido ao motorneiro:

_” Pare o bonde! Quero desembarcar!”

Na TV a repórter brasileira descreve a dramática situação do povo de Port Au Prince, Haiti: depois do terremoto, o cólera. Uma criança morta pela doença, entre os mais de mil mortos na conta da nação mais miserável do planeta, jaz numa pequena plataforma destas de depositar sacos de lixo, à beira da rua. Orientada por um soldado brasileiro a repórter veste o colete à prova de balas e o capacete azul das tropas da força de paz da ONU. Eles vão dar uma volta por Citè Soleil, a afamada e violenta favela haitiana.

Assim que desembarca do blindado a repórter é cercada por populares revoltados que cercam a mãe da criança morta, solidários. Um jovem em bom português aprendido com soldados brasileiros, explica que a mãe da menina morta tentou salvá-la, desperadamente, mas o posto de saúde da ONU há apenas 1 km dali, fora abandonado pelos médicos, amedrontados com os protestos da parte mais impaciente da população.

A câmera resolve fazer uma panorâmica da favela e a gente vê, logo de cara,  a enorme galeria de concreto da qual escorre uma cascata de esgoto infecto. Bastou olhar a galeria e juntar a imagem com aquela negrada toda que compõem a população do Haiti para concluir, como numa aturdida constatação deja vù:

_ “Ué!! Mas isto aí não é o Complexo do Alemão, gente? Esta não é aquela boca de esgoto por onde fugiu a bandidagem do CV?”

Não era não. O Haiti, todo mundo sabe, não é aqui.

Abandono a TV contrariado e decido folhear o jornal do dia. Fujo, é claro, das obviedades da guerra do Alemão, mas, não consigo. Os milhares de tabletes de drogas e armas apreendidas são esfregados na minha cara, mas não me convencem. São tomé teimoso e renitente que sou, chego a imaginar as várias e recorrentes maneiras que a polícia corrupta que nos serve teria de nos enganar (pura viagem de rebelde sem causa, concordo). E nem vou contar as tantas falcatruas oficiais que me ocorreram.

Mas compreendam, por favor, que para um velho e cascudo observador das coisas deste mundo, acreditar naquele ufanismo todo das imagens do pós-guerra do Alemão, de uma hora para outra, é dose cavalar, overdose, seria de uma ingenuidade pra lá de infantil.

Criancinhas aboletadas em tanques de guerra, arrancando lágrimas de crocodilo de repórteres dondocas (os coletes à prova de balas cada vez mais fashion – Dior, Vuiton, DasLu ? – sei lá) ávidas pelas mais miseráveis – e contraditoriamente otimistas – crônicas da favela ‘libertada’, desfiando assim rosários de loas à eficácia policial derepentemente surgida, assim do nada?

Ah!Vamos combinar: Ninguém em sã consciência acredita nesta história mal roteirizada. Todo mundo apenas anseia, almeja, quer acreditar e aí defende, aplaude, mas não acredita não. Finge acreditar.

Uma desconfiada sensação de insegurança é o que de mais sensato se devia sentir em meio a este turbilhão de notícias disparatadas e improváveis, gritadas por repórteres sensacionalistas, advogados de porta de xadrez tornados comentaristas, todos comprometidos com a audiência de suas redes de TV. Políticos clientelistas, comandantes de tropas nacionais de elite – raro trigo no joio – governantes oportunistas, pastores atrás de dízimos e fama, todos se assumindo ‘um-sete-uns’ da hora, com promessas e charlatanices de camelôs de tudo.

Tal e qual no terremoto do Haiti o mundo inteiro desembarcado no Morro do Alemão gritando para bandidos que ninguém mais vê:

_ “Perdeu! Perdeu! Pede pra sair!”

A banalização dos armamentos de guerra de ultima geração desmoralizada pela quase ausência de sangue e de inimigos numa guerra estranhamente desmesurada. A compungida fé das criancinhas miseráveis pinçadas pelas reportagens piegas nesta paz militarizada – muito mais do que esperança – me dá é frio na espinha (além de frias também, embora pálidas, premonições).

A reação ensandecida de amigos – e inimigos – nas redes sociais diante da minha – segundo eles – amalucada insistência em não me animar com as vitórias da guerra já me davam uma dica da anti-socialidade destas redes de laços de ternura tão fake e mal amarrados.Ô Raça!

Não foram poucos entre estes amigos os que, de um modo ou de outro, me deram conselhos cifrados, interessados em entender porque diabos eu me mantinha assim tão incrédulo e ‘do contra’ diante de tão ‘esplendorosa’ vitória das ‘forças da Paz’

Teria sido eu torturado nos tempos da ditadura – chegou especular uma amiga – e guardado o trauma do ódio cego às autoridades constituídas para sempre? Uma senhora infame e desconhecida, (oculta por um avatar sem rosto) via facebook estrapolou e chegou mesmo a me mandar a nada sutil mensagem:

_”Filho da Puta!”

Doeu. Tirando fascistas e oportunistas desconhecidos, teve gente até que, honestamente preocupada com a minha lucidez, me admoestou por telefone até, aludindo o risco terrível que eu corria de perder ‘toda a minha credibilidade na rede’ (como se redes virtuais fossem mesmo críveis) se insistisse em remar, de novo, contra esta formidável maré da unanimidade nacional.

“Só sendo cego ou doido” – berravam eles – para não enxergar a inegável euforia da população do Alemão e das demais favelas hoje controladas pelas ‘paradigmáticas’ forças de ocupação das UPPs como sendo um sinal de novos tempos de paz.

_ É a febre da guerra _ fui obrigado a concluir conformado, embora com a orelha a arder aquela urticária dos cri-cris renitentes.

Mas era aí, neste desassossego que eu ficava pensando, mais assustado ainda: Deus do céu! Como é que podiam, justo eles tão apopléticos, histéricos e ensandecidos que estavam (alguns pregaram, abertamente, como nazistas de Auschwitz, o fuzilamento sumário dos bandidos), me chamar de maluco?

Ah! E os jornalistas? Estes sim, vivandeiras de corte medieval! Eram eles sim, sem dúvida os destiladores do veneno que não parava de nos mobilizar a todos, de nos apavorar.

Uma carta atribuída ao Fernandinho Beira Mar, por exemplo, insinuava um namoro entre ele (e o seu CV) e os capi de tutti capi das milícias da cidade.

Na carta, num texto surpreendentemente bem articulado Fernandinho – o nosso inimigo número 1 – sugere ou ordena, sei lá, o seqüestro de autoridades para breve, com o propósito de libertar presos, entre eles o famigerado ‘general’ miliciano Batmam, braço direito dos irmãos Natalino e Jerominho, encarcerados na Penitenciária a Federal de Campo Grande (MS) junto com Beira Mar.

_” Não pensem que estou maluco. Estou ‘perpetuado’. Tenho que fazer alguma coisa.”_ Justificava-se Beira Mar.

Meiga e tranqüilizadora notícia, não é não? Sendo assim, não teríamos mais Comando Vermelho ‘puro’, como diziam os facínoras a nos aterrorizar. Agora seria o advento da era da ‘Milícia Vermelha’, as duas bandas podres da sociedade virando uma maçã envenenada só. A Big Aple do crime.  Uma promessa de evolução do caos.

Ai Deus do céu! E as notícias pinçadas aqui e ali, embaralhadas como cartas não paravam de anunciar um jogo de perdedores anunciados: Nós. Até as pequenas manchetes avisavam o pior: bananas de dinamite são achadas agora com freqüência inusitada, aqui e ali. Fala-se no roubo de um carregamento delas de uma pedreira de nossa região.

Um proeminente coordenador geral de uma super-mega-ong do Rio de Janeiro, voltada para a ‘inclusão social de jovens’, profundamente envolvida em parcerias com a Secretaria de Segurança do Estado, fez uma incursão nos meandros mais recônditos do Morro do Alemão, em pleno cerco, para tentar convencer os bandidos acuados a se renderem.

Soube pela TV que os especialistas chamam isto de ‘mediação de conflitos. Seria uma nova profissão? Mas já repararam que até nos filmes da TV esta função é desempenhada por funcionários do Estado, negociadores da polícia, gente credenciada? Viram que esquisito? Tá, mas deixa isto pra lá.

Os bandidos – que segundo este ‘mediador’ seriam mesmo 600, como a cifra oficial indicava – como já se sabe, não se renderam. Preferiram se escafeder. Tudo o mais é difuso nesta história. A narrativa da ação é um tanto holywoodiana, os dados contradizem as notícias dos jornais que sugerem que a maioria dos bandidos já havia desaparecido do Alemão muito antes do cerco. Quantos seriam? Onde estariam?

Mas o coordenador da super-mega-ong é enfático e incisivo. Em suas diversas entrevistas na TV ele afirma que, no momento de sua ação estaria inclusive ameaçado de morte, por algum dos proeminentes chefes daquela famigerada facção do tráfico (Comando Vermelho), segundo ele por ‘estar tirando gente do tráfico e provocando com isto muitas delações e informações sobre ações estratégicas da facção’. _” Foi a primeira mediação que fiz sendo, ao mesmo tempo, alvo”_ disse ele à imprensa, como um herói da guerra do Afeganistão.

(Ei, Padilha! Seria ele um candidato a personagem de um provável filme ‘Tropa de Elite 3’?).

Pulgas nas orelhas pensei intrigado: Será? Existiria nesta guerra suja a possibilidade de alguém manter contatos ‘limpos’ e tão estreitos com Deus e o Diabo? Um mediador de conflitos que tem parcerias com os órgãos oficiais de segurança poderia ter, ao mesmo tempo, o respeito e a confiança dos chefes de uma facção de bandidos desesperados?

Melhor deixar quieto, refleti. Por muito menos já me ficharam como maluco. Fiquemos por aqui então, olhando de longe, à margem das notícias embaralhadas, encerrando este derradeiro boletim de guerra com os sinais da alma assustadora das ruas, os vagos e prosaicos indícios que a nossa intuição, agora silenciosa, vai capturando aqui e ali.

————–

Circulo, por dever de ofício nos territórios de duas bandas emblemáticas desta guerra. Uma é a área de traficantes. A outra é a área de milícias. Faces da mesma moeda, ora pois. No complexo de comunidades sob o ‘jugo’ do tráfico onde freqüento ‘dia sim’, fotografei anteontem a meninada (faço musicalização com a garotada) posando com instrumentos musicais alternativos, feitos com materiais precários, catados no lixo, único material a que eles têm acesso: latas velhas de ‘nescau’ então viram alaúdes, tubos de PVC e garrafas pets viram clarinetes, por aí.

Na hora de editar a foto a surpresa: Um dos garotos, com um olhar irônico e um sorriso sarcástico traçado no rosto, havia posado com o clarinete em riste, simulando um fuzil Ar15 ou uma máquina mortífera destas aí do Alemão.

Corte rápido.

No outro dia – o‘dia não’- na área das milícias a sensação trocada: Como que inserido dentro de um filme com a imagem invertida, adentrei o portão da cerca gradeada que isola toda a comunidade, tenso como sempre. Outras crianças, iguais àquelas do outro lado da fronteira, talvez já me aguardassem.

A tensão freqüente me assaltava de novo porque, todo dia quando chego ali, ainda de manhãzinha, invariavelmente as pessoas, geralmente donas de casa, senhores aposentados ou desempregados, só me cumprimentam se eu insisto e mesmo assim sem me encarar.

Tento me aproximar com um olhar desarmado e simpático, mas não consigo desarmá-los nunca: desviam sempre os olhos dos meus, tensos e amedrontados, como se num simples cruzar dos seus olhos com os meus fossem ser fuzilados por alguma represália fatal. Como podia eu, um cara tão pacífico, parecer um vilão assim tão cruel para eles?

Com o tempo fui percebendo o contexto. A associação de moradores concentra a gestão de, rigorosamente todos os serviços daquela pequena comunidade, gaz, luz, correio, administração dos imóveis (aluguel, compra e venda, etc.) tudo. Um preço determinado é cobrado como taxa pela administração destes serviços. Reina, portanto a mais perfeita paz, o mais completo silêncio nestes lugares.

Presumo que julguem, que um velho negro magro, quase atlético, de boné sob os olhos, transitando impunemente por ali, só pode ser um bombeiro ou um PM destes, aposentados – ou mesmo expulsos da corporação – destes que estão proliferando por aí, a serviço de alguém controlando tudo – óbvio! – eu, funcionário ou assecla de algum outro terrível miliciano destes neo-ditadores que andam, sorrateiramente pela Zona Oeste da cidade.

A Ditadura em nós

De fato, nunca vou saber o real motivo daquele medo surdo dos moradores. Não os recrimino e na verdade – se vocês querem mesmo saber – os compreendo perfeitamente: Deve ser por conta da ditadura a que estão submetidos,uma ditadura seletiva, grande novidade, o must ainda secreto – e cada vez mais recorrente – da segurança pública nacional.

Tampouco saberei jamais de onde nasce a fé inquebrantável daquele menino da outra favela que, apesar de todo o ufanismo histérico e vitorioso dos repórteres de TV ainda assim se mantêm fiel ao heroísmo ambíguo e romântico de bandidos sanguinários, prestes a serem presos ou mortos num cerco ou numa emboscada do exército nacional.

Caixa de Pandora sem tampa, nunca descortina paisagem de Xangrilá. O futuro escapou por uma galeria de esgoto daquelas que ninguém sabe muito bem onde vai dar.

Como num relance de memória, algo daquela matéria que assisti pela manhã na TV sobre a nova tragédia do Haiti pisca pisca na minha cabeça. Nela, nesta imagem já corriqueira hoje em dia, a única diferença significativa entre a miséria do haiti de lá e o haiti daqui, salta aos olhos e faz barulho:

Haiti de lá: Cartazes e orgulho – sabe-se lá se organizado ou apenas desesperado – protestos veementes, faixas e tabuletas com reivindicações raivosas. Um mapa da Ilha Hispaniola (que sempre me intrigou) aparecia na tela, talvez explicando tudo. A ilha é dividia em dois países.

Num lado, a República Dominicana, terra ‘pacificada’ pelos norte americanos (como Puerto Rico) onde quase tudo há. No Haiti, terra de ex-escravos rebeldes e orgulhosos, terra sempre conflagrada e acossada por todos os flagelos deste mundo, nada há e, ao que parece, nunca haverá.

Haiti do Alemão: Conformada e submissa antes, sob o jugo dos bandidos e agora, aparentemente conformada e submissa também – e até feliz – com a ocupação das tropas federais, a população da favela forma uma ordenada e pacífica fila para pegar sacos plásticos com miseráveis sardinhas. Uma carga ilegal que foi apreendida por algum órgão de fiscalização municipal, e foi ‘caridosamente’ distribuida à população como doação das autoridades. Cena humilhante? ‘_Que nada!_’ dirão os ufanistas. _’Feio mesmo é roubar e não poder carregar!’

Ah, é? Então tá!

A moral desta história? Sei lá. Foi só um relance de pensamento que voou, que já esqueci. Não sei também onde fica a saída. Tenho até raiva de quem sabe.

Enfadado, cansado de ser julgado como maluco, o correspondente desta não-guerra eivada de exageros e hipocrisias, não quer mais se apoquentar e se aposenta, passando olimpicamente agora a se abster dos fatos  desta guerra.

Melhor tomar aquele ar fresco dos que não devem nada a ninguém, bêbado daquela merecida cerveja do entardecer, único troféu que realmente interessa aos  lúcidos e inocentes homens de bem.

Medida de segurança. Seguro de vida. Quem pariu Mateus que o embalance, não é o que diz aquele velho ditado?

Spírito Santo

Dezembro 2010

Kwame Opoku: A consciencia do homem é negra


Foto de Fernando Rabelo - Folha Press

Brasil e consciência negra.

(Para a africana Lucia Kudielela)

Há muitos anos atrás quando eu vivia em Viena Áustria, Kwame Opoku do Ghana, um grande e bom amigo que fiz por lá (na Europa, bem entendido), resolveu confessar toda a sua contrariedade com a insistência com que eu justificava coisas que não conseguira realizar no Brasil, alegando como impedimento incontornável o racismo.

Advogado na sede da ONU em Viena, velho adepto das grandes causas africanas de nosso tempo, tive a honra de admirar na casa dele, fotos suas com Amílcar Cabral, Nelson Mandela, Sam Nujoma e tantas outras enormes e memoráveis figuras do renascimento africano  as quais, de algum modo meu amigo esteve ligado por dever de ofício ou militância. Estar perto de uma pessoa associada tão diretamente à história moderna do negro africano me fazia ficar exultante. Sentia-me assim também muito próximo daqueles gigantes lutadores pela liberdade dos homens, orgulhos da raça humana, heróis da minha geração.

Mas demorei muito a assimilar a contrariedade de Kwame. Ela me constrangia e envergonhava bastante. Sentia-me enquanto negro brasileiro um pouco diminuído, num sentimento de inferioridade estranho para uma pessoa como eu que sempre se vangloriou de sua combatividade, seu engajamento político, de sua militância enfim.

Mesmo orgulhoso de, inusitadamente ser o professor de marimba africana de um africano real – Pasmem, mas é isto mesmo! Bem antes de ser meu amigo, o já velho Kwame (desconfio eu um membro destacado de alguma casta da nobreza ashanti, segundo pude testemunhar numa festa de reverentes conterrâneos seus) fora educado num liceu de Accra, onde havia tocado piano. Um africano refinado como europeu, digamos assim, mais, sobretudo um africano com um recôndito desejo de aprender a tocar um instrumento musical de sua cultura ancestral.

Kwame comprou o instrumento que – imaginem!- eu mesmo havia fabricado no Brasil e  levado para Viena. Um ano depois  Kwame acabou se tornando meu aluno, numa inusitada relação cultural invertida entre um brasileiro afro-descendente e um africano ‘legítimo’.
Isto me animava e redimia um pouco, mas devo reconhecer que demorei algum tempo mais para compreender de onde vinha aquele sentimento de quase desprezo de Kwame pelas minhas lamúrias de negro brasileiro revoltado.

_” Há racismo lá no Brasil? E vocês, sendo tantos como são, aceitam?”_

Era esta a admoestação mais recorrente que ele me fazia, querendo dizer com isto que talvez nós estivéssemos sendo condescendentes demais, omissos demais diante das afrontas e impedimentos que o racismo nos impunha. Jamais consegui convencê-lo da força insuperável das amarras que nos tolhiam.

Jamais me recuperei daquela sensação de fera afrontada. Fiquei até hoje achando que talvez falte mesmo em nós, brasileiros – e isto estava explícito no sentimento honesto de Kwame, o africano – a  consciência do que significa ser mesmo um afro-descendente, um negro-africano desgarrado, além da vívida sensação que temos do estigma, da pecha de ignorantes, despreparados e submissos que carregamos nas costas.

Reconheçamos que só os nossos antepassados africanos, trazidos para o Brasil como escravos, manietados e subjugados pela força bruta, é que tiveram o direito de incorporar, de assimilar, de se curvar diante da opressão (mesmo fingidamente que fosse, saltando para trás como os capoeiristas negaceando o golpe) por necessidades de sobrevivência física.

Reconheçamos, sobretudo que, mesmo assim, mesmo podendo se acovardar diante da força bruta e da morte, muitos de nossos antepassados ainda assim, insubmissos morreram, lutando, apenas para nos legar as lições e o sangue de sua descendência.

Sei que são palavras amargas no dia em se deveria apenas  exaltar nosso orgulho, mas me ocorreu dizer agora mesmo que falta-nos talvez e ainda – a consciência negra plena e profunda – o traquejo para manejar ferramentas válidas da insubordinação e da revolta, a consciência ampla dos nossos direitos – não de negros tão somente, mas de homens – direitos básicos humanos enfim, ainda hoje quase que apenas concedidos por brancos ‘bons’, ‘solidários’ ou ‘piedosos’ – e muitos o são honestamente, coitados – e quase nunca conquistados pelo esforço organizado de nós mesmos, a reboque de nossas geralmente pífias lideranças, oportunisticamente aboletadas nos poleiros do poder.

Talvez falte a nós, negros brasileiros, o instinto africano de romper enfim, de uma vez por todas, com a escravidão emocional que ainda está entranhada em nós. A consciência de que, haja o que houver, façam o que fizerem para nos submeter, somos e seremos livres sempre sim.

————-

Depois desta estada em Viena – ironicamentea pátria de Adolf Hitler – trocando lições de negritude com Kwame Opoku, o africano, passei sempre a observar melhor a diferença sutil que existe entre ter consciência negra e ter a consciência de ser negro.

A primeira consciência (a de ter) reside na profunda e refletida compreensão dos valores morais, éticos, sociais, culturais enfim contidos na herança africana de irmãos na diáspora, a busca incessante pela essência de ter a África simbólica dentro de nós, de ter humanidade enfim, onde quer que se esteja neste vasto mundo. A consciência de si per si, de sermos nós mesmos os reis, cada qual com mais um rei seu na barriga.

A segunda consciência (a de ser) seria manter a alma inquebrantável, a consciência ideológica limpa, adquirida na convivência com a exclusão social reiterada e o racismo num país que tem negros, mas que também tem – fazer o que? – brancos, na busca de saídas para fazer a ‘coisa certa’ junto com a maioria – e não no oco de uma minoria ‘negra’ de ocasião, no convescote de uma casta sórdida – para romper as barreiras mentais de nossa submissão, daquela escravidão emocional que nos aniquila e avilta a todos.

A consciência sócio racial de jamais ficar trancado no gueto escuro de nós mesmos, na síndrome da dicotomia que, separando maquiavelicamente negros de brancos, perpetua  e legitima a desigualdade, assim justificada pelas alegadas diferenças de um – a branca elite – supostamente sempre superior aos demais – todos aqueles que não sendo brancos, passam a ser negros, simplesmente por exclusão.

A consciência plena de saber se colocar acima deste mundo de iniquidades que o racismo introjetou nas cabeças de nós todos, negros e ‘brancos’ do Brasil.

A consciência enfim de que, para todos os efeitos, o Brasil é essencialmente um país com negros, que só atingirá o ansiado sucesso de seu processo  civilizatório (como dizia o saudoso Darcy Ribeiro) no dia em que tiver consciência de sua natureza pan-africana, super humana  de ser, quando tiver, definitivamente se assumido  como Brasil brasileiro de todos nós.

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Nunca mais vi Kwame Opoku, o africano. Dele tenho notícias esparsas, sei, por exemplo, que se aposentou do trabalho na ONU. Depois que deixei de vê-lo muita coisa mudou. Mandela foi libertado, por exemplo.  A África do Sul virou uma grande nação. Angola caminha para isto, a África sofrida ainda em certos bolsões renitentes de ditadura e pobreza também e sobretudo, anda.

Desejaria nos Dias da Consciência Negra no Brasil que nós, os negros e os brancos deste nosso país de sonhos perfeitamente realizáveis e angústias passageiras, fizéssemos um exame de consciência e partíssemos para a luta às nossas próprias custas e riscos, certos de que assim –  e só assim – a vitória será certa.

Spírito Santo
Novembro 2010

Brasil Afro #03 – Ainda Palmares e um necessário parentese africano


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Clique na foto e a amplie. Fique chapadão como eu. Na gravura do pintor holandês Olferd Dapper, uma vista panoramica da incrível – e enorme – capital do ‘reino’ do Loango no século 17. O Loango era um sobado suserano (um reino menor e subalterno) do grande Reino do Kongo que, pode-se ver agora, devia ser muito maior do que imaginávamos.

(Leia os sensacionais posts #01, #o2 e desta série)

Se liga galera: Negros não nascem de pés de repolho

Eu sei. Promessa é dívida. Fiquei de desvendar um segredo crucial desta saga angolana no Brasil: O mito do menino Zumbi sequestrado.

Vou cumpri-lo, claro, mas me dei conta agora mesmo de que vocês estão – como eu estava –boiando totalmente nesta história, na História maiúscula desta gente preta que deu no que somos hoje todos nós.

Incrível, mas vocês não sabem de nada. Cegos em tiroteio. Também não é para menos: Ninguém se deu ao trabalho de colocar esta parte da nossa história num livro didático. Numa ou noutra tese de doutores ela está, mas quem lê teses de doutores? O certo é que – sabe-se lá quem – falsearam, forjaram e omitiram totalmente de nós alguns detalhes.

Negros não nasceram de pés de repolho, não é mesmo? Estamos aqui porque nossos parentes vieram de algum lugar.

Daí ficarmos assim, achando que nosso jeito africano de ser surgiu – sem desmerecer os silvícolas ameríndios que também somos – da improvisação, do atavismo de um bando de selvagens de tanga, arco e flecha, envolvidos em ritos bárbaros e trazidos à força para um ‘civilizado’ Brasil.

Mentira deslavada, sabe-se lá por quem lançada. E nem nos interessa mais saber por quê. Cuidemos de, cabalmente desmenti-las e pronto. Vocês verão que o segredo impressionante que estou guardando sobre a farsa do menino Zumbi sequestrado – o tcham tcham tcham tcham desta série – fará muito mais sentido depois deste mergulho na mais remota história de nós mesmos, negros e brancos do Brasil.

Não precisa nem dizer: Eu sei que você, brasileiro (ou angolano), estudou bastante história portuguesa no ginásio. Dom Sebastião, o venturoso, batalha de Alcacerkibir, sei lá, estas coisas aí bem ‘trás-os-montes’. É hora de perguntar então (pelo menos os brasileiros): Porque não nos ensinaram a história de Angola?

A hora é esta então: Em vez da história da nobreza portuguesa, coloquemos  em foco, aqui e agora, a história gloriosa de nossa própria e preta nobreza de descendentes de lá dos ‘trás-os-oceanos’.

Sim por que, no século 17 – época na qual o Kilombo de Palmares cresceu e prosperou – Angola e Brasil eram praticamente uma colônia só. Tudo nos unia, até mesmo as guerras. A maioria esmagadora dos negros de Palmares veio dos reinos do Kongo e de Angola.

Ué?! Não te contaram isto não?

Há um lençol pudico, uma névoa de censura envergonhada cobrindo o nosso espelho étnico neste em em muitos outros aspectos – e este é o tema central desta série de posts – nossa imagem africana real precisa ser revelada. Vamos pensar mais nisto então, enquanto corremos atrás do que nos diz respeito?

África. Século 12, 13, por aí:

Ndongo, reinos do Kongo e de Angola

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto do Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este Nimi a Lukenyi foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

Em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, exceto sugerir que voltará daí a pouco tempo e que gostaria de conhecer o rei de todo aquele país. Deixa por lá desta vez quatro padres franciscanos com a incumbência de irem até onde reside o rei do lugar.

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior da selva e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos.

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuwu.

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuwu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Bem vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, este embaixadores involuntários teriam sido encorajadas á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local, o kimbundo) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos de forma tão espalhafatosa, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

A cronologia dos ‘anos de provação’ 1

A história africana desta época, no que diz respeito á nós, brasileiros, começa portanto em 1482 com o MweneKongo Nzinga a Nkuwu 2 (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuwu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei MweneKongo Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene Nsundi. Nzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de “Irmãos Reais” – imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba, ‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manoel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum à sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuwu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene Soyio e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manoel, cabendo a seu filho o nome de D. Antônio.

Nzinga Mpemba e a gênese do afro catolicismo angolano

A era de Nzinga a Mbemba é marcada também pelo aprofundamento da ligação da cúpula ou nobreza do Kongo com a igreja Católica Apostólica Romana, representada pelos interesses do Cardeal D. Henrique,  importante líder católico, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal e que, muito se empenhou junto a Santa Sé em Roma pela sagração de D.Henrique I, filho de Nzinga a Mbemba como bispo de Utica em maio de 1518 aos 23 anos de idade.

A extraordinária missão diplomática que leva o jovem de 18 anos carrega muitos presentes de marfim, peles raras e finos têxteis de ráfia do Congo e é acompanhada por uma comitiva trezentos e vinte cativos selecionados pelos portugueses.

A missão chegou á Lisboa de onde foi enviada, por terra, até a Itália, atravessando os Alpes á pé e chegando sã e salva ao Vaticano em 1513. O Papa Júlio II havia falecido sucedendo-lhe Leão X. que é quem em Maio de 1518, sobre a recomendação de quatro cardeais do Vaticano, consagra o filho do rei do Congo, como Bispo de Utica aos 23 anos de Idade. D.Henrique regressa ao Congo em 1521 do Kongo, morre em 1538.

A bem da verdade, esta política de colonização cultural, era levada a cabo no Kongo, não só pela coroa portuguesa, mas por seu agente principal: a ordem dos jesuítas, cujo objetivo central era montar na África missões semelhantes as criadas nas colônias europeias da América do Sul e tinha como estratégia essencial, fomentar a discórdia e desestabilizar a já combalida unidade entre os povos da região, afim de facilitar a conquista militar e territorial que se seguiria à dominação religiosa e ideológica da elite do Kongo.

Em nome da imposição de uma ordem cultural cristã hegemônica, uma era de cruel repressão ás práticas culturais tradicionais é empreendida pelo rei do Kongo, sob as ordens dos padres da ordem jesuítica dos e portugueses. Grande parte dos sacerdotes e médicos tradicionais (Ngangas e Kimbandas) é exterminada por meio de uma série programada de assassinatos. Uma longa série de conflitos e golpes de estado provocados pela inconciliáveis divergências entre sobas nacionalistas e a incondicional aliança do rei com os portugueses, lança o império do Kongo no caos.

A partir desta época, pelo pouco que se pode apreender a partir da enorme ambiguidade da documentação, o que se conhecia como Reino do Kongo passou a ser apenas uma espécie de protetorado português, com importância reduzida no contexto das lutas pela independência da região, posto que passou a ser ocupado pelo ‘Reino d’Amgola’, assim chamado pelos portugueses por conta do título de seus governantes: ‘Ngolas‘. Os títulos Mwenekongo (Rei do Kongo) e MweneNgola (rei do Ndongo) passaram então a se confundir. Os Portugueses e jesuítas que não se conformaram com esta nova  conjuntura ensaiaram um cruento golpe de estado, tentando devolver o poder a seu preposto rei do Kongo D.Alvaro I.

Ao que parece esta dinastia ligada a Ngola Ndambi (D.Alvaro I) é o clã mais importante da região do Kongo e do Ndongo, pelo menos até a morte de Nzinga Mbandi, a rainha Jinga (neta deste Ngola Ndambi) em 1663 3 . Pelo que se sabe até agora, o clã Nzinga do Ndongo assume o poder (tendo em alguns períodos total ascendência sobre o Kongo) a partir de Ngola Ndambi em 1570. Os documentos são confusos em relação a genealogia dos reinos do Kongo e Ndongo-Matamba (‘Reino d’Amgola’) nesta época. Ao que parece, alguns documentos omitem ou confundem o nome ‘angolano‘ de certos manikongos (que pertenceriam ao clã do Ndongo) com o nome de seus títulos nobiliárquicos na língua local (Kimbundo).

Ao que tudo indica portanto teriam existido dois períodos principais na história da região: Um no qual reis títeres de Portugal governaram o Kongo em crescente litígio com o clã do Ndongo-Matamba, e outro no qual os chamados Ngolas, ora se aliaram ora combateram Portugal, governando (ou tendo parentes governando) o Kongo como Manikongos de fato ou seja, o poder do império a partir de certa época, passou a ser (se já não era) exercido exclusivamente por membros de famílias oriundas do povo da região do Ndongo – Matamba.

O período de predominância desta dinastia relacionada ao Ndongo-Matamba, parece se acentuar quando o representante português Paulo Dias de Novais foi aprisionado e o golpe perpetrado pelos portugueses e jesuítas totalmente rechaçado pela população que, em 1568 numa espécie de guerra civil expulsou o Mwenekongo 4 , D. Álvaro I ,seus aliados e todos os estrangeiros para a ilha de Luanda no Reino de Angola na embocadura do Rio Nzaidi)

Novamente aqui, a grande confusão sobre os nomes de quem, efetivamente, governava o Kongo pode significar que o poder real na região estava sofrendo de muitos questionamentos e conflitos entre clãs e facções, podendo significar que conviviam num mesmo período reis do Ndongo (com algum tipo de ascendência sobre o poder no Kongo) e reis títeres, que tentavam governar o Kongo a serviço de Portugal.

Como o nome português destes eventuais reis títeres (principalmente os da dinastia dos ‘Álvaros‘) aparecem em alguns documentos como contemporâneos – ou mesmo homônimos- de supostos reis Ngolas do clã do Ndongo (o que ocorre notadamente com Ngola Nbambi e seu filho Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba), O mais provável é que tenham sido do clã do Ndongo todos os governantes da região compreendida pelos dois reinos, á partir da época de Paulo Dias e Novais.

Dois anos depois, logo após a tentativa de golpe por parte dos portugueses e dos jesuítas (1570), D.Alvaro I / Ngola Ndambi (ou Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) pede de ajuda ao rei de Portugal (D.Sebastião e ao seu tutor Cardeal D. Henrique, jesuíta e senhor-mor da inquisição em Portugal) que enviando prontamente 600 soldados comandados por Francisco de Gouvêa o recolocam no poder.

1575. Paulo Dias de Novais (que havia sido libertado) volta a Luanda. Havia assumido o poder o filho de Ngola Ndambi, Ngola Ndambi Kiluanji Kia Samba (ou, como o pai, Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba) conhecido como D. Alvaro II. Ngola Kiluangi, liberta Francisco de Gouvêa, comandante da expedição que socorreu os aliados de Portugal, que estava também preso até então. Kiluangi também muda a Mbanza de Kakulo para o reino vizinho, o Mbaka e, em Junho 1575, manda uma embaixada de boas vindas a Paulo Dias de Novais.

Poucos anos depois, no entanto, pressionado pela grande insatisfação da população com os invasores, ele decide trair estes invasores, promovendo o cerco militar aos portugueses em Anzele em 1579. Em Janeiro 1584 chegam a Massangano os reforços militares e munições solicitados por Paulo Dias de Novais. 20 de Julho 1585 O Rei Ngola Kiluangi retira do seu acampamento de Cabaça. Ngola Kiluanji Kia Samba morre em 1587.

O próximo MweneKongo, filho de Ndambi Kiluanji e seu sucessor é Mpanzu a Lukenyi que assume o posto de MweneKongo sob o nome de D.Álvaro III, a princípio não ratificando nem derrubando os acordos anteriores, do mesmo modo pretendendo consultar a população. Lukenyi acaba  decidindo avisar ao Soba do Reino de Ndongo para tomar muito cuidado com os portugueses, pois eles querem mesmo é tomar o reino do Ndongo (Angola) e todo o império do Kongo para si. Uma guerra de libertação nacional se anuncia.

Reino de ‘Amgola’ e Palmares. Tudo junto e misturado?

Consideremos neste preâmbulo que, enquanto isso, no Brasil de 1597 já se falava no  famigerado Kilombo de Palmares.

O soba do Ndongo é Ngola Ndambi, também filho de Ndambi Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Ndambi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Ndambi, segundo algumas versões após se ver acometido de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Kimbundo (Kiluanji). Jinga (Nzinga)é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manoel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Ndambi chamada Nda Kaniinii Ka Kiluanji, oriunda de Pamba (no Mbaka), apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kaniinii foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilineares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Jinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Jinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

Jinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Anna de Souza.

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino e Angola, porque foi rompido assim que Jinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

Isolada no interior de Matamba, Jinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos e sobados de região se aliaram á Jinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis, Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depois Quissama, além do próprio Kongo.

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Amgola’, guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do Kilombo de Palmares.

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Jinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba e 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e do Ndongo-Matamba (além de sobados aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse fato histórico comprovado) que o fluxo convencional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza do reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área sociocultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo (deportados), segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso .

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados, ‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Kilombo de Palmares.

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Jinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ndambi Kiluanji.

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e Angola) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e de Angola.

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

Spírito Santo

Julho de 2006 (com ligeiras revisões em Novembro 2010)

Leia aqui no link o post final desta série

 

 

Brasil Afro #2 e o Zumbi fake book


O grande encontro de 'Bois Caiman' onde começou a revolução do Haiti

O grande encontro de ‘Bois Caiman’ onde começou a revolução do Haiti

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Palmares revisitado

(Leia também – e logo – os posts #01 e #03 desta série)

Há poucos anos atrás, numa solenidade festiva em Brasília na sede da Fundação Palmares (como se sabe, uma instituição do governo do Brasil voltada para a cultura dos afro descendentes) resolvi prestar mais atenção numa apresentação gravada que sempre , algo incomodado, ouvia meio assim por alto, nas solenidades da entidade pelo Brasil a fora. Nela, na tal apresentação, um locutor repassava com a voz empolada de civismo o que seria a história oficial do grande líder da nosso maior e mais perene complexo de cidadelas de escravos rebelados: Zumbi de Palmares:

“… Embora tenha nascido livre, (Zumbi) foi capturado quando tinha por volta de sete anos de idade. Entregue a um padre católico, recebeu o batismo e ganhou o nome de Francisco, aprendeu a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

O incômodo um belo dia deu lugar ao susto. O insight chegou como nos chegam todos os ‘eurecas’ desta vida: uma luz imaginária piscando, piscando e logo se acendendo, ardendo os olhos e a cuca, quase queimando a nossa mufa. Caramba! Como não havia me dado conta daquilo antes?

(Na verdade já me dera conta sim, mas ressabiado, precisava juntar ainda alguns cacos, mesmo embaçados que fossem, alguns poucos subsídios teóricos para poder duvidar, questionar com propriedade. Temia que me tomassem por doido varrido ou delirante, como sempre fazem nestas horas os patrulheiros ideológicos de ocasião. Faltava o ‘eureca’ crucial e inquestionável).

Podem dizer então que tudo começou com um surto de rebeldia adolescente ou algo assim bem intempestivo, mas convenhamos que é isto mesmo que agita e move o mundo de lugar. A insubmissão e o questionamento, o arroubo quase infantil de criancinhas ‘pé no saco’:

_ O que, Tio? Por quê, Tio? Pois sim, Tio! Como não, Tio?

Estas coisas surgem de repente, mas amadurecem como qualquer fruto. Afinal foram muitos anos chafurdando livre e empiricamente, neste esmiuçamento ‘cri cri‘ de detetive forense de série de TV, fuçando estas coisas enrustidas da cultura negra do Brasil.

Pulgas atrás das orelhas. Fazer o que?

Uma pesquisa insana, em suma – todo mundo que mexe com isto sabe – porque as perguntas são milhares, mas a maioria das respostas não estão, absolutamente onde deveriam estar, muito menos nos livros de história do Brasil

Ah…Se tudo na velha fosse bonito como o arco dela!

A enormidade da surpresa, esta sim, precisava ser explicada. Ora, o problema era que a versão da história de Zumbi de Palmares – acatada como oficial pela maior e mais referendada entidade de cultura negra do país – tinha todos os elementos de ser totalmente inverossímil, infundada, falsa mesmo, como conversa pra boi dormir ou aquelas histórias do arco da velha.

E vejam só meu dilema: Como embasar um ponto de vista assim tão iconoclasta, propor uma revisão tão paradigmática, diante de uma versão profundamente estabelecida como verdade absoluta, corroborada por livros e mais livros (alguns até mesmo escritos por mui eminentes historiadores negros do Brasil) jamais questionados nestes termos. Como desmontar uma versão mítica, supostamente heróica, incrustada na mente de – quase – todos nós por meio de séculos de incansáveis reiterações?

Difícil, não é não? Mas sério, gente! Juro que posso explicar – provar – cada tim tim mal ajambrado desta história.

E o pior de tudo – e não há de ser nada – é que terei de fazê-lo quase sem nenhum livro brasileiro conhecido em que me basear. Existem sim revisões da história oficial do negro no Brasil, mas são abordagens, do ponto de vista crítico, muito tímidas, a maioria resgatando ainda muito vagamente a importância da cultura bantu. Diretamente sobre o Quilombo de Palmares, contudo, neste foco em que decidi abordar o tema, rigorosamente – e isto foi uma surpresa absoluta para mim – nenhum trabalho com informações realmente novas foi encontrado.

O que me queimava a mufa é compreensível que seja aceito por pessoas comuns, mas de modo algum poderia ter sido corroborado por argutos historiadores. Este ‘plot’, este leit motiv, este cerne do argumento da história nunca lhes pareceu conhecido não?

Um ‘Story Line’ fajuto:

“…Aprendeu (Zumbi) a língua portuguesa e a religião católica, chegando a ajudar o padre na celebração da missa. Porém, aos 15 anos de idade, voltou para viver no quilombo.”

Nossa senhora! Isto é um mito completamente cristão, não é não? E o que é pior: Ela, esta versão oficial da história de Zumbi de Palmares, na verdade ofende e desmerece a memória dos quilombolas (e em conseqüência a memória das lutas e anseios de todos negros do país) sabem por quê? É que em seu argumento central ela sugere, quase afirma que, para que o Quilombo de Palmares alcançasse o sucesso político e estratégico que alcançou, foi necessário que o seu líder máximo – Zumbi – fosse formado, educado como branco (aculturado, melhor que se diga) por um padre europeu.

Nada contra a civilização cristã ocidental, mas vamos e venhamos, aquele pessoal de Palmares descendia de gente com séculos e mais séculos de história original. África, gente! Parem para pensar: O berço da humanidade. Se tocaram agora?

O recorte do herói mítico que, tal qual um Jesus Cristo ‘black power’ ou um Moisés negão eleito por Deus para salvar seu povo é altamente popular, mas convenhamos: carece de sentido naquelas e em quaisquer outras circunstancias em se tratando da história transatlântica de um povo africano, de cultura tão diversa da dos europeus.

As perguntas que me incandesceram mufa foram, portanto as seguintes (perguntem-se vocês também, se de mim duvidarem, mesmo que por um instante):

1- Seria historicamente comprovável a hipótese de um menino, descendente do principal líder do quilombo de Palmares ter sido sequestrado sem que ninguém se desse conta ou comunicasse o fato?

2- Seria possível a criação e a manutenção por quase um século de uma experiência política e estratégica tão exitosa como foi o Quilombo de Palmares, por parte de milhares de negros escravos, sem que estes se baseassem em sólidas referencias anteriores de organização social, comunitária e militar – regras rígidas de sucessão inclusive- ligadas ao seu mais que remoto passado africano?

3- No contexto de uma sociedade com semelhantes características sócio históricas, teria sido possível um menino negro aculturado, com identidade ou origem genética impossível de ser estabelecida, educado por um padre católico, assumir aos 15 anos (ou 20, tanto faz) o comando de um articuladíssimo e eficiente conjunto de cidadelas rebeldes?

Nenhuma destas hipóteses – pasmem – podem ser comprovadas, carecendo, portanto, totalmente de fundamento. Na verdade, se formos nos basear numa pesquisa mais aprofundada (como esta que estou propondo aqui) todas estas hipóteses, com toda certeza terão que ser declaradas mera e rasteira ficção historiográfica.

É o que devíamos fazer. E logo.

Bem, isto tudo é para explicar que este artigo é apenas uma introdução a uma pesquisa independente, talvez solitária e ainda em curso e que vai precisar de outras evidencias para ser considerada inquestionável, mas que já pode ser lançada por aí . Sim, porque é por aí mesmo que a História real avança: aos trancos e barrancos, pelo caminho das pedras.

Só um aspecto a historiografia brasileira terá que aceitar como falha flagrante e indesculpável de sua metodologia: A maioria esmagadora dos títulos a que tive acesso para embasar meus pontos de vista sobre estes incidentes que ligam, indelevelmente à África ao Brasil, apesar de estarem facilmente disponíveis aos especialistas interessados que poderiam ter proposto teses e livros a partir deles, são quase todos absolutamente estrangeiros (europeus e africanos)

Respondendo à perguntas pra lá de cabulosas

As cartas do padre Antonio de Melo

”…O padre não tratava o pretinho como escravo. ’O padre criou o menino, batizando-o como Francisco. Com a educação recebida, aos 10 anos já sabia latim e português e aos 12 era coroinha. Em uma carta, o padre refere-se ao menino como dono de um “engenho jamais imaginado na sua raça” e que bem poucas vezes encontrara em brancos. Certa manhã do ano de 1670, então com 15 anos Zumbi resolve se emancipar e parte em busca de seu destino, viver com os negros de Palmares…”

(História oficial de Zumbi de Palmares. Vários autores)

Nada foi encontrado nos documentos oficiais analisados sobre nosso herói negro mais recorrente, personagem de tantos sambas-enredo, Zumbi de Palmares, que comprovasse a veracidade de dados desta sua suposta biografia, contidos na versão insistentemente aludida pela maioria dos autores que trataram do tema e admitida, até mesmo, como disse acima, pelo movimento negro e todos os órgãos oficiais interessados na superação do racismo no Brasil.

Dos muitos filhos, netos ou prováveis sobrinhos de Ganga Zumba identificados e citados nos documentos portugueses e holandeses da época, existem pelo menos quatro filhos adultos que teriam sido presos ou mortos (Zambi ou Zumbi, Acainene, Acaiuba, Tuculo) há também o líder do mocambo Acotirene, que deve se referir a mais um membro da família de Ganga Zumba, o rei, filho mais velho de Aqualtune, a rainha-mãe.

São citados ainda por outros autores Zangui, Maiolo, Engana Colomim, Camoanga, Cabanga, Gone, Gongolo, Quiloange, Quissama, todos líderes de mocambos (e observem nos negritos como é bastante recorrente a semelhança fonética entre a maioria dos nomes e os vocábulos ‘Nkanga’ e ‘Nzambi‘ ).

Observamos também a ocorrencia de nomes comuns em Angola – como Kiluange, por exemplo – que remetem ao nome de um grande chefe angolano – Ndambi Kilwange, ‘manikongo‘ líder da guerras contra Portugal no século 16 e que, segundo algumas fontes era o próprio pai da Rainha Jinga.

A grande questão é que, a julgar pelo cruzamento dos dados extraídos de documentos da época disponíveis, principalmente relatórios de expedições invasoras, nenhuma entre estas quase 20 pessoas pôde ser associada, da forma mais remota que fosse, àquela criança descrita nas supostas cartas do padre Antonio Melo.

…” muitas entradas, de fato, se fizeram aos quilombos a partir de 1654, ano da expulsão dos holandeses, até 1657, mas, cronologicamente, não se sabe a data certa em que elas se realizaram ou por não ter havido diário de operações, ou por terem eles se perdido…”

(Trechos de um relatório de expedição contra Palmares extraídos do livro de Mário Martins de Freitas “ O Reino negro de Palmares”, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro 1988.)

…”Depois vieram as expedições comandadas pelos holandeses Rodolfo Baro (1664) e João Blaer (1645). Em seguida, o governo de Pernambuco passou a tratar Palmares como um “caso de polícia”, adotando medidas mais “enérgicas”, comandadas por militares locais, as expedições ocorridas nesse período foram, segundo o autor, maiores, mas não atingiram os resultados esperados, tendo acontecido, inclusive, um período de “trégua” entre 1667 e 1671”.

(Laura Peraza Mendes – ‘Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695’)

Existe num documento uma alusão a dois filhos de Ganga Zona (irmão de Ganga Zumba) que teriam sido adotados pelo governador da capitania no ato da ratificação do acordo de Cacaú e batizados com o sobrenome do governador Aires de Souza Castro, mas nada indica que fossem adultos ou capazes de, logo a seguir, assumirem a função de Nkanga a Nzumbi, ou qualquer outro posto relevante no quilombo, cuja atribuição, sabe-se hoje, devia obedecer à práticas socioculturais africanas, pelo menos da maneira como supomos, também vigentes na sociedade de Palmares na ocasião.

Como nos dão conta diversos documentos consultados acerca da similaridade óbvia entre os hábitos sociais dos kimbundos do Reino de Angola e do Kongo nos séculos 16 e 17 e os dos quilombolas de Palmares, existiram vários indivíduos que, com nomes ou funções precedidas pelo título Nkanga (a confusão semântica com o vocábulo ‘Nganga’ /’senhor’ é muito recorrente)  como reparamos anteriormente, foram realmente chefes de alguma localidade ou exerciam alguma função importante no complexo de quilombos (Nganga Zumba, Nganga Zona, Nganga Muissa, etc.). Neste sentido, em nossas prospecções a palavra Ganga Zumba parece ser mesmo uma expressão genérica, diretamente originada de…

Nkanga a Nzumbi.

Nkanga (Nganga) = sacerdote, sagrado, Santo

Nzumbi= entidade, fantasma, Espírito =

Espírito Santo.

A tradução literal do termo Nkanga a Nzumbi (termo do kimbundo angolano) vocábulo que pode, mais acertadamente estar relacionado ao personagem Zumbi de Palmares, poderia ser portanto Espírito Santo.

_Como assim, Spírito Santo?_ Dirão vocês.

Calma! Surprendam-se sem pudores. Eu também fiquei surpreso – na verdade ‘chapado’ – com esta estranha conclusão’, mas como naquele aviso de filmes ela não passa de mera coincidência.

O nome (‘Nkanga‘) seria uma espécie de título de origem com toda certeza católica – daí a coincidencia – que supomos estar fortemente relacionada a alguma linhagem de inspiração jesuítica de reis ou sobas – ‘Manikongos’ – cristianizados, iniciada em época remota (que poderia mesmo remontar ao século 16) e que identificaria o ‘rei’ ou chefe com poderes religiosos e militares, francamente utilizado em algumas culturas do Reino do Kongo (e também no Reino de Angola) ainda durante este período.   

Aliás, isto pode ser constatado facilmente analisando a lista dos mandatários dos reinos do Kongo e de Angola do século 16 em diante.  A quantidade de ‘Nkangas‘ na lista é impressiomnte. O fato de se usar a mesma palavra para definir ou ‘sacerdote‘ quando se referindo a ‘padre‘ (católico) é também uma eloquente evidencia a nos encaminha para estas conclusões.

Segundo esta regra protocolar, portanto, todo supremo mandatário poderia ser reconhecido pelo povo como um ser divino, possuidor de poderes – e obrigações – religiosas, conceito africano original, que teria sido mantido vigente (reciclado, sincretizado) mesmo após a cristianização da aristocracia congoleza ou angolana de então (com os termos católicos traduzidos  para o kimbundo local) e, deste modo transplantado para o Brasil de Palmares.

O fato é que se a rigor (como acabamos de constatar acima) não existem informações documentais confiáveis (o menino, futuro Zumbi, supostamente sequestrado teria nascido entre 1655 e 1662) acerca das fracassadas expedições ocorridas contra o Quilombo de Palmares entre 1654 e 1662 .

Logo, se teria havido pouco depois  desta época ‘um período de “trégua” entre 1667 e 1671 (pouco se sabe sobre os anos entre 1663 e 1666) de onde teria, vindo as recorrentes informações que dariam conta de que um filho do rei Ganga Zumba, recém nascido ainda (ou já com 7 anos de idade) teria sido sequestrado nesta ocasião? Ao que parece, tudo se origina mesmo – sem querer desmerecer a renomada fonte – da seguinte enganosa revelação:

“…E por isso teria havido tantos Zumbis. Eu efetivamente entendia que não. Até que um dia, por mero acaso_ e a pesquisa histórica depende muito de sorte também e do acaso , eu encontrei uma consulta do Conselho Ultramarino, órgão de assessoria ao rei, em que se dizia ao rei que todas as certidões que diziam ter sido morto um Zumbi eram falsas, forjadas para que os chefes das expedições recebessem as mercês do rei. Verificou-se que Zumbi continuava vivo. Este foi o ponto de partida para estabelecer a identidade de Zumbi. Até que encontrei as cartas do padre Antonio Melo…”

(Decio Freitas, autor de “Palmares, a guerra dos escravos” em entrevista á ‘Folha on line Brasil 500’.)

A respeito precisamente do heróico personagem a quem as cartas citadas acima se referiam, há que se considerar que diversos relatórios militares da época já haviam sido unânimes em atestar que este ‘Zumbi‘  já estaria ativo em Palmares, em época mesmo anterior ao acordo de Cucaú datado de 1678 (tendo sido inclusive ferido em combate). Havia até um mocambo com o seu nome (Zambi ou Zumbi), o que seria, naquele tempo, o mesmo que dizer: habitado e comandado por ele.

O fato é que não existem fundamentos nem provas documentais para confirmar, em qualquer um de seus aspectos, a fabulosa história do padre Antonio Melo. A sustentá-la apenas o beneplácito dos pesquisadores diante de hipóteses tão infundadas quanto providenciais a certos setores do pensamento acadêmico brasileiro – e talvez resida aí alguma eventual intenção oculta nas supostas cartas- para quem, ainda hoje, faz sentido a pergunta que até hoje não quer calar:

Como o negro escravizado no Brasil, não tendo passado, origem, nem história, poderia constituir e manter durante tanto tempo, uma sociedade tão complexa e, em sua conturbada época, tão estável e perene quanto foi o Quilombo de Palmares?

Tentando explicar o que a ingenuidade etnocentrista, infelizmente julga inexplicável até hoje, um documento chegava a especular:

”…Tal habilidade aparecerá nas paliçadas e fossos, feitas em torno do quilombo, com paus pontiagudos colocados para matar invasores, e aí já estamos 1694. Zumbi, portanto, tudo indica, nasceu livre. Não fica claro se o padre que criou Zumbi conheceu, leu, as grandes utopias (e se informou sobre aquilo a Zumbi) dos grandes escritores do passado, tais como: Platão, com a sua República, antes da era cristã; Thomas Morus (More), com a sua Utopia, 1478 / 1535 ; Tommaso Campanella, com Cidade do Sol, 1568 / 1639 e, finalmente, Francis Bacon, com Nova Atlântida, 1561 / 1626. Saliente-se, aqui, que as obras acima citadas foram sobre maneiras de se organizar um Estado, e nada tinham de inocentes, e lidas no mundo inteiro”

O ‘Segredo’ da Condessa Schönborn

O argumento da história central, aquela que gera todas as outras versões sobre as cartas do padre Antonio de Melo (muitas delas acrescidas de detalhes que não se sabe bem de onde surgiram) parece estar baseado na mera suposição (uma lenda urbana da época, talvez apócrifa), de que certo padre de Porto Calvo teria escrito uma ou duas cartas contando a saga de uma criança negra sequestrada numa expedição contra o quilombo em 1662 (certos autores, sem nenhuma evidencia apresentada – talvez fazendo ‘contas de chegar’ – falam que o fato teria se dado numa expedição em 1662).

“…Durante uma expedição contra Palmares, comandada por Brás da Rocha, foi raptado ainda recém-nascido e entregue ao padre Antônio Melo, vigário de Porto Calvo, que o criou sob o nome de Francisco.

Na dificuldade de se encontrar uma origem segura para a história , quem buscar notícias sobre o paradeiro das cartas do padre Antonio Melo , terá o dissabor de descobrir apenas uma segunda história, também providencialmente complementar à primeira e, contudo mais implausível ainda:

(Na verdade – tcham, tcham, tcham, tcham – já desvendamos a origem segura da lenda, que é como os leitores verão em breve -num post a seguir – absolutamente surpreendente!)

“Arquivo revela que Zumbi sabia latim!

A condessa de Schönborn, 65, nascida Graziela de Cadaval, é conhecida entre os pesquisadores e ”caçadores” de documentos como a guardiã dos arquivos da casa da marquesa de Cadaval, sua mãe. São cerca de 5.000 livros e conjuntos de documentos reunidos nos últimos seis séculos e guardados em Muge, 80 quilômetros a leste de Lisboa. …Anos atrás, dezenas de documentos foram roubados por um ”pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas”. Desde então, só convidados vigiados pela condessa pesquisam os manuscritos tombados pelo Estado.

Entre esses papéis (roubados) estariam duas cartas preciosas que permitem imaginar Zumbi no seu tempo de menino. Foram escritas pelo padre Antonio de Melo em 1696 e 1698, quando já corria a notícia da morte de Zumbi. As cartas, não localizadas pela condessa, foram copiadas em 1978 a pedido do historiador gaúcho Décio Freitas.

..Na época das cartas, o presidente do Conselho Ultramarino era Nuno Pereira Álvares de Melo, que foi o primeiro duque de Cadaval, e por isso os documentos foram guardados pela família. Ao longo do tempo, parte do arquivo dos Cadavais foi se perdendo. Em fins do século 17, um incêndio destruiu o palácio da família. Depois, com a invasão napoleônica, muitos papéis foram trazidos para o Brasil. Em 1964, as famílias dividiram o que restava do arquivo. Metade ficou com a condessa e o restante foi para o duque de Cadaval. Há notícias de leilões de documentos nos últimos anos…”

(Do enviado a Muge (Portugal) Aureliano Biancarelli para Folha Online – Brasil 500)

O que esta história complementar nos dá conta em suma é que, as famosas cartas deste misterioso e desconhecido padre Antonio Melo talvez não possam ter jamais a sua autenticidade – ou mesmo a sua própria existência – comprovada porque, de uma forma ou de outra, por furto, extravio, por culpa de um incêndio ou um acidente fortuito qualquer, os originais teriam se perdido para sempre.

Como se vê, são bastante controversas as questões suscitadas por abordagens históricas que, deliberadamente ou não, subestimam ou omitem a óbvia ligação da cultura das comunidades quilombolas do século 17 com sua matriz africana mais imediata. A principal destas questões talvez seja a grande insistência com que elas foram sendo inseridas, com foros de verdade histórica absoluta, no contexto dos vários estudos existentes sobre o assunto, a despeito de sua evidente carência de fundamentos.

Entre dezenas de documentos disponíveis, a simples leitura, por exemplo, de uma das cartas do Padre Antônio Vieira (estas sim, autênticas), notório e influente agente dos interesses ultramarinos de Portugal além de importante autoridade eclesiástica, poderia esclarecer muito sobre esta questão. Pode-se destacar em especial dentre estas cartas de Vieira, aquela escrita em julho de 1687, em resposta a uma consulta do rei de Portugal, indeciso quanto a oferta de mais um acordo de paz aos palmarinos, sugerido por certo padre italiano de Recife:

“Muito me admiro… que sem outra informação dos superiores desta província, houvesse por bem a proposta feita por um padre particular de ir á Palmares… este padre é um religioso italiano de não muitos anos, e, posto que de bom espírito e fervoroso, de pouca ou nenhuma experiência nestas matérias. Já outro de maior capacidade teve este pensamento e posto em consulta, julgaram todos ser impossível e inútil por várias razões. Primeira: Porque se isto fosse possível, havia de ser por meio de padres nativos de Angola que, todos, os quais crêem e deles se fiam, e entendem, como sua própria pátria e língua…” .

A propósito, as evidências sobre a existência de certa similaridade entre os hábitos culturais praticados no Brasil pelos líderes palmarinos e os de seus conterrâneos na conturbada Angola do século 17 (hipótese aventada como vimos pelo próprio padre Antônio Vieira) estão se tornando cada dia mais candentes, principalmente se admitirmos a possibilidade de alguns líderes do quilombo da capitania de Pernambuco terem sido prisioneiros de guerra (soldados portanto e não escravos comuns), removidos para os Brasil no contexto da cruenta guerra colonial que sacudia o chamado ‘Reino D’Amgola’ naquela época.

Ao contrário do que ocorreu com as cartas de Vieira, o mais surpreendente é que a existência das outras cartas, supostamente atribuídas ao outro padre Antonio (e seu inusitado conteúdo) tenha sido um fato completamente desconhecido durante 300 anos.

E sobre o total desaparecimento dos originais das referidas cartas, logo que foram enfim descobertas, o que dizer? Por isto mesmo, mais do que com as controvérsias do incidente em si, talvez devêssemos nos preocupar mesmo é com as péssimas conseqüências advindas de sua eventual intenção etnocentrista, tão compreensíveis no contexto de uma colônia européia no século 17, quanto inaceitáveis neste nosso emancipado Brasil do século 21.

Sobrava-nos apenas a palavra solitária do já falecido Decio Freitas, incansável e meticuloso pesquisador que, pelo que sabe até agora, teria sido o único a ter acesso as cartas em poder da condessa o que, em se tratando de fato histórico desta relevância, infelizmente, não deve servir ainda, como prova cabal de coisa alguma.

Aliás, mesmo que tenham realmente existido, por conta do alto grau de improbabilidade dos incidentes por elas descritos, estas cartas não poderiam ter adquirido jamais, a importância que lhes deu a nossa história oficial.

“…A Torre do Tombo, o mais importante acervo do país (Portugal), tem inúmeros catálogos diferentes. O principal, os ”Manuscritos da Livraria”, não traz os documentos por ordem alfabética. Obedece a cronologia de entrada no acervo. Milhares de documentos das antigas casas de nobres ainda não foram catalogados. Não se pode confiar no que já foi informatizado.

Segundo o computador, a carta do rei que dá a patente de mestre de campo a Domingos Jorge Velho deveria estar na folha 426 do códice nove do ”Registro Geral das Mercês”. Foi encontrada pela Folha no verso da folha 246. A maioria dos documentos sobre Palmares pertence ao Arquivo Histórico Ultramarino. Ali estão as cópias dos papéis que seguiam às colônias. Muitos dos originais, destinados às capitanias do Brasil, desapareceram no tempo… Os documentos pouco ou nada contribuíram para traçar o perfil do homem Zumbi.”

(Jair Rattner especial para a Folha On Line, de Lisboa)

O que nos parece inquestionável contudo é que, a morte definitiva do último Nkanga a Nzumbi de Palmares, o sucessor de Ganga Zumbase deu mesmo em 20 de novembro de 1695 quando um de seus ajudantes de ordens (e seu suposto genro) é preso numa escaramuça e aceita traí-lo em troca de perdão. O traidor identificado como o mulato Antonio Soares, viveu em paz em Recife até morrer de velho.

Na hipótese de ser factível, pelo menos em parte, a versão dos fatos aqui apresentada, a dinastia que governou a região do Império do Kongo pelo menos a partir de 1545 (ano de nascimento de Ngola Ndambi, avô da valorosa Nzinga Mbandi, a rainha Jinga), reconstruída no Brasil num formidável fenômeno de transculturação, com a rainha Aqualtune mãe de Ganga Zumba ou com Mateus Ndambi, sogro do rei, teria durado no total mais de 150 anos (dos quais cerca de cem só no Brasil), havendo sobrevivido, após a morte de Jinga, pelo menos até 1695, apogeu e glória de seu último representante conhecido: O Nganga Nzumbi degolado em Recife.

“…ficando só mente (Zumbi) com Vinte negros, dos quais mandou catorse pa. Os postos das emboscadas que esta gente uza no seu modo de guerra, e hindo com seis que lhe restaram a se ocultar no sumidouro, que artefiçiosa mente avia fabricado, achou tomada a paçagem; pelejou valeroza e desesperadamente matando hum homem ferindo alguns e não querendo Renderce nem os companheiros, foy preciso Matallos e só hum se apanhou vivo, enviouçeme a cabeça do zumbi que determinei se puzese num páo no lugar mais público desta praça a satisfazer os ofendidos e justamente queixosoz e atemorisar os negros que supretisiozamente julgavão este immortal… “

(Ds G.a Real pesoa de Vmagde.Como todos desejamos. Pernco.14 de Março de 1696” Caetano de Mello de Castro – Governador da capitania de Pernambuco )

Surpreendentemente – ah! como é bom por água na boca dos curiosos! –  tendo como pista apenas as datas e o nome suposto deste Zumbi fake aculturado – que se chamaria Francisco, lembram-se? – conseguimos em textos angolanos, portugueses e italianos a chave, a prova mais do que cabal – se é que isto é mesmo possível – da gênese real desta farsa absurda – displicente talvez , muito mais do que fraudulenta – do ‘zumbi menino sequestrado’.

Mais isto …tcham, tcham, tcham, tcham!…. como já disse, será o tema do próximo episódio desta série.

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Julho de 2006 (com pitacos novos em Novembro de 2010)

Nota: Na foto acima grande encontro em ‘Bois de Caiman’, bosque onde a revolução do Haiti foi deflagrada. Veja neste link o que isto – mesmo remotamente-  pode ter a ver com Palmares e reflita.

Leia post #03 neste link

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Se você curte analisar bibliografias e notas de rodapé, este texto possui uma relação bem completa deste tipo de referencia que você pode ler neste link

Basil Davidson: Morre o filho branco da Mãe Negra


Bristol, 9 de Novembro de 1914 – Londres, 9 de Julho de 2010

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Morre o grande amigo da mãe África

A lembrança está marcada em mim como e tivesse sido a fogo tatuada, nítida como se fosse hoje. Agora mesmo, contando isto para vocês, me vem o cheiro do papel do livro que comprei novinho, estalando, na Livraria Camões, no térreo do Edifício Av Central, no centro do Rio de Janeiro.

“Mãe Negra- Basil Davidson”

O cheiro acre da tinta e  do papel portugueses, o mesmo cheiro que impregnava todo o ambiente da tradicional livraria (até hoje existe) especializada em literatura africana, livros e mais livros, revistas (entre elas a antológica e literária  ‘Revista África’) mapas, tudo que quisesse ler sobre Portugal e suas ainda colônias em franco e acelerado processo de descolonização sim, porém marcado ainda por cruentas lutas de libertação. O cheiro disto tudo, ainda hoje está impregnado em mim, não sei se na pele, nas narinas  ou se apenas na memória, só sei que para sempre.

Egito, Sudão,  Kilwa, Angola, , Guiné Bissau, Nigéria, Benin, Moçambique, Zimbabwe…nenhum sentido haveria na história destas terras que tanta gente nos mandaram como escravos, se não fosse aquele livro fulgurante,  fulminante que comprei naquele dia remoto na década de 1970.

Mãe Negra, de Basil Davidson continha toda a verdade omitida pelos livros de história que havia lido antes em toda a minha vida. Nunca mais abri um livro didático de História do Brasil depois daquele dia. Era óbvio que o Brasil real jamais esteve nos meus livros e cadernos de escola. Fiquei achando que que havia lido apenas lixo e mentiras até então.

Até hoje leio historiadores brasileiros com desconfiança e certo ‘pé atrás’, alguns até com mal disfarçado desprezo, confesso. Porque aceitam omitir e falsear tanto algo tão importante quanto a nossa própria história e suas nuances mais orgulhosas? Porque não foram capazes de ser historiadores de verdade como Basil?

A morte de Basil Davidson no dia 9 de Julho passado deixará uma saudade enorme em mim e em tantos outros como eu que, por intermédio dele, descobrimos a natureza complexa da África que havia latente em nós. Ela, a saudade de Basil,  será mitigada apenas pelo cheiro ocre dos livros da Livraria Camões que guardo comigo como ouro em folhas de papel.

De certo modo, ler aquele livro claro e incisivo dele, aquela historiografia incisiva, precisa, me contando a saga de uma África grandiosa assolada por tão vorazes e covardes predadores europeus, antes  apenas imaginada ou sonhada por nós, militantes por uma negritude brasileira ainda ingênua de propósitos, me libertou completamente e me inspira até hoje. É uma das mais mais vivas brasas entre as minhas mais fogosas lembranças.

É por isto – por causa da saudade de gente como eu –  que o mundo inteiro está lendo agora mesmo a história honrosa de Basil, o amigo da África e este mesmo mundo inteiro esquecerá num lapso, jamais lerá um um pingo de ‘i’ que seja da história dos outros, destes reles historiadores que  tanto tentaram nos enganar com mentiras falsamente cívicas, bajuladores da pátria alheia, desestoriadoriadores, descontadores, engendradores de apagões mentais.

“…Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente
nas horas difíceis.
Mas em mim
a vida matou esta mística esperança
eu não espero.
Sou aquele por quem se espera
A esperança somos nós, os teus filhos
nascidos para um fé que alimenta a vida…”

(Agostinho Neto)

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Basil Davidson: Espião, resistente anti-fascista repórter e historiador de África

Maputo, Quarta-Feira, 18 de Agosto de 2010/Notícias

(Extraído de ‘Moçambique para todos’)

Owei Lakemfa

Basil Risbridge Davidson não foi um santo, tipo o que evoca a figura do herói Ernesto Che Guevara. Não foi um Tarzan, deambulando pelas selvas de África, nem tão-pouco um missionário de uma estranha confissão religiosa que evangelizou o continente à expensa da sua terra, da sua cultura, sangue e riqueza.

Não foi um neo-colonialista, que em nome do FMI ou do Banco Mundial passava a prescrever receitas expiradas para todas as enfermidades africanas. Antes, Davidson foi um intelectual comprometido, que estudou e escreveu honestamente sobre África e os seus povos, sobre a sua história ancestral e contemporânea, sobre os seus ancestrais; sobre lideres africanos convictos tais como Samora Machel e criminosos como Mobutu Sesse Seko.

Não foi um cientista social desinteressado que estudou África à distância, quando os nossos povos vertiam sangue nas guerras de libertação em Moçambique e na Guiné-Bissau, ele esteve fisicamente nos campos de batalha. Dos mais de trinta livros que escreveu não abarcavam apenas uma vertente teórica, mas eram guias práticos para muitos africanos; ajudou a moldar a visão política de muitos jovens africanos na década de 1970 e 1980.  Ele abriu a mente de muitos africanos sobre o rico manancial historial, desde aos tempos pré-coloniais, passando para o período das guerras anti-coloniais aos encarniçados combates para a libertação, envolvendo as forças patrióticas do continente e os fidalgos representantes de Lisboa, Bruxelas, Paris, Londres e Joanesburgo.

Curiosamente, atendendo aos seus antecedentes, Basil Davidson era umas das mais suspeitas e improváveis vozes a levantar-se a favor da consciencialização e libertação em África. Ele era tenente-coronel na reforma do Exército, inglês que combateu na segunda Guerra Mundial, tendo ajudado os movimentos de resistência na Hungria, Jugoslávia e Itália. Chegou a ser espião britânico, trabalhou para M15, especializou-se em sabotagem e foi prisioneiro de guerra, que beneficiou com o processo de troca de presos com a Itália.

Basil Davidson, que trabalhou como repórter para muitos órgãos de imprensa, decidiu, a partir de 1951, documentar o continente africano. O seu interesse inicial foi a Europa do Leste, mas depois inclinou-se para a África e foi neste continente onde deixou um legado a várias gerações. O seu primeiro encontro com África foi no Cairo, Egipto, onde se tinha deslocado ainda como soldado e espião para arranjar logística para a resistência eslava.

O avião em que viajou tinha feito escalas na região de Bathurst (antiga designação da cidade de Lagos) e num local que, para ele, passou a ser “algures no norte da Nigéria, um ponto desconhecido do mapa, tanto quanto eu pude descobrir”. O avião, dizia, “tinha feito um voo, abaixa altitude, sobre em paisagens, planícies e vastas extensões de terra desprovidas de populações”. Basil Davidson disse que tinha saído para um passeio: “À distância, vieram sobre mim imagens da presença de uma barreira estreita e alta, o muro de uma cidade…tinha sido construída de barro, paus e circundava toda a cidade perdida algures em África, que descobri mais tarde ser a cidade de Kano, com mais de 700 anos, senão mais…e que não havia nenhuma história em África, tanto quanto eu sabia”.

Assim foi como a sua curiosidade por África cresceu. Os seus estudos e escritos acerca do continente estavam para absorver os últimos dois terços dos seus 95 anos que marcaram a sua passagem pela terra, que começou no dia 9 de Novembro de 1914 e terminou no dia 9 de Julho de 2010.

Ao procurar provar que África tinha uma rica História pré colonial, Basil Davidson escreveu numerosos livros, que incluíam estudos sobre os antigos reinos do Egipto, de Kush, de Nok, sobre culturas e impérios do Mali, Ghana, Songhai. Tudo isto consta de livros como “A redescoberta da velha África”, “Mãe África”, o “Passado africano e os africanos”.

Davidson escreveu sobre a ruptura dos impérios africanos, forçados a entrar num ciclo de nações-Estados, tendo questionado se “deve a África renovar a proliferação de nações e as disputas nacionalistas…os povos africanos tinham seguido, no passado, o seu próprio caminho, e nada indica que não venham fazê-lo novamente de forma construtiva e criativa”. Mas a África não seguiu o seu velho caminho, antes optou por aquilo que foi ditado pelas as suas antigas potências coloniais. Davidson sentiu-se atormentado com esta perspectiva.

Ao analisar a tragédia do continente, especialmente nos anos de 1970 e 1980, lamentou que “o declínio de valores morais e políticos daqueles que clamavam falar em nome de África era tão rápido quanto generalizado”. Ao mesmo tempo que reconhecia a imensa autoridade moral de líderes como Julius Nyerere, Basil Davidson notou em líderes como Samuel Doe, da Libéria, Ibrahim Babangida, da Nigéria, Idi Amin, do Uganda, Jean Bedel Bokassa, da República Centro-Africana, e Macias Nguema da Guiné-Equatorial o que chegou a caracterizar como “um fenómeno excessivamente patológico que apareceu no período colonial e pós colonial jogado por individualidades que tinham a autoridade e carisma para chegarem ao poder, mas sem a sabedoria para controlá-lo.

Tais figuras agarraram-se ao poder e surgiu a ambição, quer por mais poder, quer pelos seus frutos”.

Um dos seus legados duradoiros foi a forma documentada como retratou a luta de libertação nas colónias portuguesas, as lições para África e o que se pôde aprender com a teoria da guerra popular. Por exemplo, ele tinha descrito uma acção audaciosa desencadeada por combatentes do então movimento PAIGC no aeroporto de Bissau, numa altura em que as autoridades coloniais portuguesas tinham fortificado as áreas circundantes do aeroporto com vedações e campos minados. O movimento conseguiu destruir aviões que se encontravam na placa aeroportuária, nos hangares, sem que tivessem provocado danos humanos. Uma das lições, do audacioso ataque, dizia Davidson, era que a invulnerabilidade estava do lado da guerrilha e não do lado colonial.

Basil Davidson defendia que “todas as guerras eram perversas”, mas que “uma bem dirigida guerra de auto-defesa” – distinta de qualquer acto terrorista – pode resultar em ganhos, mesmo em circunstâncias mais adversas”.

O historiador britânico advogava que uma ideologia de libertação não pode ser desenvolvida sem “a potencialidade da consciencialização de um povo, num específico tempo e determinado lugar”. Basil Davidson, com as suas obras “O fardo do homem negro”, a “Causa do povo: uma história de guerrilhas em África”, “As cidades perdidas de África”, “África Ocidental antes da era colonial: uma história até 1850”, “África” (que veio a ser adaptada em série televisiva) e “África na História”, plantou o seu legado no solo africano e no mundo intelectual.

Owei Lakemfa

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