Eu e o meu Poltergeist


Creative Commons License

(Foto de Claudia Rangel -detalhe-sobre obra de Nelson Leirner)

ze-pilintra-leirner

A ciberfalsidade deste mundo um-sete-um

…”Art. 171 – Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa…”

—————–

Poltergeist? Vocês sabem o que é um, literalmente, não sabem? Viram o filme.

É alemão, gente: Um ‘Fantasma do barulho’(geist – de ‘espírito’ – e polter de ‘fazedor’ de barulho), um Pluft, portanto, como aqueles do gibi, sem tirar nem por. Na verdade um suposto fenômeno paranormal no qual, sem que nem porque, algo (o tal cara) move as coisas de lugar, joga as tralhas todas para o alto, incendeia as camas, faz as cadeiras andarem, voarem, naquele fuzuê de filme de terror para Spielberg nenhum botar defeito.

O furdunço incrível-fantástico-extraordinário só acaba, quando chega, gritando pragas santas, aquela vidente baixinha, como uma sábia coruja, quase nordestina (ou aquele padre velhinho rouco, porém, destemido), especialista em exorcismo e sessões de descarrego de almas penadas de volta aos quintos dos seus imundos infernos:

_Vade retro Satanás! ‘Desafasta Coisa Ruim’! Chispa, Bisca! Xô! Go home!

(Sem esquecer a cruz de prata sacudida com sofreguidão e os respingos de água benta, que ‘queimam’ a pele do possuído, coitado)

Para mim se há uma imagem perfeita para definir este nosso mundo ‘muderno-de hoje-em-dia’ é esta: Chuviscos e chiados, fantasmas de TV.

Parece modernidade, mas não é. Mundo ‘descolado’ não porque é bacaninha, mas sim, porque foi desconjuntado, suprimido das coisas e banalidades triviais, para dar lugar à incomensurável grandeza irreal das coisas virtuais, tão visíveis quanto intangíveis, efêmeras nuvens de ‘algodão-doce’, ilusão edulcorada que se esvai com três lambidas do vento de qualquer domingo, de qualquer lugar.

Mundo de pueris portais de acesso, quase janelinhas para gente, indiscretamente, pular. ‘Cercadinhos’, ‘chiqueirinhos vip’ que não exigem crachá (para os não vips, os excluídos, tudo bem: É só abrir uma House, sweet Lan House, escancarando portais de inclusão digital na base do Um real).

‘Conta-login-senha-perfil-avatar’, ‘conta-login-senha-perfil-avatar’, tudo por Um Real (eu disse real?)

Mundão on line, todos os instantes – os de ontem e os de hoje – na ponta dos dedos. Mundo digital. Com tudo isto, ainda assim mundão besta, parecido demais com aquela arcaica e lúgrube dimensão na qual ‘vivem’ as almas-do-outro-mundo, o vento gelado vindo de lugar nenhum cortando a pele da gente sentada, ouvindo aquelas histórias de ‘assombração’ no alpendre da casa suburbana, matando o tempo que sobrava enquanto nos faltava, além da claudicante água, a vacilante luz da ‘Light’.

Light & Power. Bonde parado nos trilhos frios da meia noite. Enquanto as velas bruxuleavam as almas riam (nunca soube se pra nós ou de nós), arrepiados até os ossos que ficávamos, com aquelas toscas gargalhadas das tias que nos contavam os ‘causos’ com empostadas vozes canastronas, querendo ser cavernosas, desafinadas e enganosas, como as de um corpo de baile mulambento (como um Thriller, comandado por um já cansado Zé Michael Jackson do Caixão).

_ Pô, Jesus! Ensina logo pra ele o caminho das pedras!

(um apóstolo, escolado vendo o outro, novato quase se afogando)

Eu sei que para os mais jovens é coisa corriqueira, ver estes laços, liames, conexões ou links da internet se tornando coisas reais, assim de quase se apalpar mesmo, para São Tomé nenhum botar defeito. Mas, compreendam, para um cara como eu que não é, exatamente, nenhum Einstein nestas coisas de relatividade, isto causa enlevo e encantamento sim, mas, antes disto, chega mesmo é a assustar.

Sim, é susto puro este vapt vupt da comunicação ‘pós-muderna’, transformando personagens e conversas assim, sem pé nem cabeça, sem compromisso algum com a realidade, em eventos e pessoas concretizadas, materializadas, absolutamente, reais, nos garantindo assim, na maior cara de pau, que de um tudo serão, que de um tudo farão.

(Algumas poucas fazem sim, mas…vai acreditar?)

Na verdade, alguns de nós já até achamos que a maioria do que se diz e se escreve na internet não passa de meras lorotas, palavras ocas, papo caô-caô fajuto, de gente que só fala o que não se escreve – ou vice versa. Eu não. Eu tento esconder o Alan Kardec que trago escondido no fundo do peito, mas não resisto: Blasfemo e vocifero, respeitando apenas o Deus Padre Todo Poderoso de cada um. Yo no credo em brujas, pero… pelo sim pelo não, todavia…

Sim! Só Jesus Cristo – ou a vergonha na cara – afasta certos demônios do corpo das pessoas!

Sabe aquelas predestinações karmáticas, grudadas na gente, indelevelmente, como praga de mãe, daquelas que a gente não sabe se ‘pegam’ mesmo, de verdade, mas que, não convém, de jeito nenhum, arriscar porque…sei lá? Pois é. Vai que existe um ‘poltergeist’ de internet, um fantasma de um hacker assassinado por um banqueiro que foi roubado em seu último vintém?

Ah…Lenda urbana!’– Vão dizer. Como aquela dos celulares que, quando sintonizados, chamando o mesmo número, cozinham… pipoca, mas, e aí? Vai que existe uma ‘hora do espanto’?

——————-

Vocês por acaso se lembram da virtualidade safada do processo de seleção de consortes para príncipes herdeiros – ou reis viúvos – no metier da nobreza européia? A disputa (espécie de concurso de Miss ao contrário), se baseava na avaliação de retratos pintados a óleo (avatars rococós) de supostamente belíssimas princesas que, só depois de desposadas eram vistas ‘ao vivo’, revelando-se para o espanto dos consortes (com-azares, no caso) verdadeiros estrupícios, canhões de grosso calibre, dragões apavorantes que até a magnânima lança de São Jorge repudiaria?

E o que dizer Deles também, claro, porque na vida real (real?) o que havia de príncipe-bagulho… Vocês não fazem idéia do trabalho insano que os alfaiates, os maquiadores, os cabeleireiros e os pintores tinham para desembagulhar as Vossas Magestades (o que estragava tudo era a maledicência das cortesãs fofoqueiras e ressentidas).

A história está cheia de incidentes deste tipo, nos quais a hora da verdade, o limite entre a mais funda decepção e a mais esfuziante surpresa é uma longa, longa, muito longa e ansiosa espera.

Sempre mal traçadas linhas

Se tudo é relativo, o futuro é para frente ou para trás?

Lembrem-se: Sou do tempo em que o máximo do modernismo tecnológico era especular acerca do potencial intercomunicativo dos pulsars e quasars em nossa brevemente futura, líquida e certa relação com os seres de planetas distantes que, para testar a força de nossa fé na vã tecnologia…até hoje nem sombra de rolar.

Me recordo de uma vez que uma carta que enviei para o Brasil, assim que cheguei em Bologna na Itália, só chegou por aqui bem mais de três meses depois (o correio italiano era uma coisa pra lá ineficiente, inepta mesmo, muito pior que o nosso). Quando as cartas chegaram, a realidade já havia mudado da água para vinho, tanto que, nem mesmo na Itália eu morava mais.

Me lembro também que as coisas mais moderninhas de lá das Oropa, só apareceram por aqui cinco, dez anos depois como se, ao viajar eu tivesse ido, concretamente para o futuro e ao voltar, por uma triste compensação, tivesse regressado ao nosso bárbaro passado. Senti bem o mal estar que aquele povo da Corte Portuguesa sentiu ao desembarcar aqui no fedorento Rio de 1808.

“_ Cruzes, ô Raios! C’os diabos!! Como pode? Nosso navio navegou para trás, ô pá!”

Cismado como sou, sempre liguei esta sensação meio de ‘máquina do tempo’ ao torpor do jet leg, aquela vertigem estranha de ‘onde-estou-quem-sou-eu-que-horas-são’, que senti na ida e na volta, aqueles mal explicados saltos de fuso horário, o sol nascendo duas vezes, como num replay de filme VHS mal editado.

Ora, se o vôo saiu do aeroporto às 18hs e viajei… sei lá, por umas 15 hs, teria que chegar ao destino às 09 hs do dia seguinte, certo? Mas não, cheguei às 04hs, cinco antes do previsto… Hum? Volta, volta, repete. Pula a equação do Einstein, mas, me explica, tintim por tintim: Como assim?

Virtualidade, de verdade, era isto: Tudo incerto e duvidoso, o filtro do tempo era o mesmo que o da distância e não se podia dizer nada que fosse assim, definitivo. Usávamos, a perder de vista o provavelmente, o talvez, o quem sabe, o pode ser e o se deus quiser, o oxalá (e, ai de nós se assim não o fizéssemos).

Virtualidade era aquilo: Páginas e páginas rasgadas de um caderno espiralado qualquer, envelopadas em cartas perfumadas, letrinhas cheias de ficção e realidade, lorotas benditas em ‘mal traçadas linhas’, que tanto podiam ser rematadas histórias da carochinha, quanto descrição de fatos rigorosamente reais. Como saber? As noivas que engordaram na longa espera pela volta do prometido, só mandavam retratinhos de quando ainda estavam aqueles piteuzinhos.

Verdade ou mentira, tanto fazia, melhor seria não crer, não fazer nenhuma relação direta com as coisas concretas que nos moviam – e nos movem – na vida real que, apesar de tudo, existiam.

Apaga, risca, deleta. Hoje já não é mais nada assim.

A Internet meio que resolveu esta imponderabilidade… ou não, se a gente considerar que, como o tempo é relativo, esperar meses pela chegada de um navio ou esperar minutos pela conclusão de um download, é, rigorosamente, sofrer o mesmo grau de ansiedade.

Os segundos serão horas, as horas serão dias, os dias serão anos e/ou… vice versa).

– Ih!.. Será que o navio não vai afundar? Será que o download não vai travar?

Zé Pilintra não é pilantra não

As desventuras póstumas de um sambista da Lapa

Vejam o que se deu comigo, por exemplo: Cabreiro, meio mineiro que sou, completamente analfabeto de internet quando entrei nesta dança on line, temeroso de estar tendo como convivas um bando de jovenzinhos pálidos, nerds, super experts nos macetes da rede, me ocultei, timidamente, sob a face de um avatar estranhíssimo: um malandro sestroso extraído de uma charge de capa de disco dos anos 40.

Nossa como apanhei da rapaziada que navegava pela rede. Quantas dúvidas, sem querer lançava no ar, como atraía preconceitos, aquela pitoresca figura de raça indefinida, como um bigodinho fino e pinta de um-sete-um de carteira assinada.

Um dia, no auge das dúvidas lançadas sobre a identidade real de tal suspeita figura, ofendido e constrangido, decidi assumir de vez o perfil com a minha própria e velha cara, assim, na lata.

Mas, qual não foi a minha surpresa quando, expondo minha cara, o meu old face rigorosamente, real (sugerindo, por acaso, algum charme e simpatia), me vi auferindo, logo de saída, votos à mão cheia, de uma legião de fãs muito gentis e simpáticas que, passaram a me dar muito mais crédito moral e intelectual, do que me davam quando usava o avatar do malandro supostamente, um-sete-um.

Milagre de São Judas Tadeu? Vai entender.

Vejam só que injusta injúria! O tal malandro, um mero ícone caricaturado de um sambista qualquer, sabe-se lá se um Assis Valente destes, dos anos 50, algo assim meio Lapa meio Praça Mauá, era o mesmo ego e alma da minha cara real (que, afinal de contas, ninguém sabia mesmo se era eu ou outra pessoa qualquer). Um cara virtual em suma, como todos por ali. E daí?

Será que quem via a cara estava vendo também o meu roto coração? Que nada, claro que não. Aquilo me intrigava, embatucava mesmo, me fazia refletir, meio proustianamente (ou shakespearianamente, vá lá), sobre a insustentável leveza do ser ou não ser na Internet.

Naquela matrix mucho loca, cheia de agentes smiths, me beliscando a bunda nos fóruns, atiçando os meus brios de marrento e brigão, quem seria eu? Muçulmano ou judeu? Grego ou bahiano? Estelionatário ou samaritano?

Crise de identidade: Afinal, o que dava àquelas pessoas a garantia de que eu era eu mesmo? Porque depois de meterem o malho naquele arguto, porém inocente, Zé Pilintra decidiram assim, tão de repente, acreditar que aquele cara grisalho e ocasionalmente, simpático, não era mais que uma nova faceta falsa de um mesmo usuário um-sete-um?

(Para quem não sabe, Zé Pilintra teria sido um malandro dos tempos idos que ficando assaz célebre por conta de suas intrépidas façanhas, depois de falecido, ‘virou’ um Exu, ou seja, um ser virtual, sobrenatural, uma poderosa entidade da Umbanda. Muito esperto e poderoso, Zé Pilintra é um integrante do valoroso panteão do ‘Povo da rua’ – onde também pontifica a não menos célebre ‘Maria Padilha’. Sim, ‘Povo da Rua’, aquela curriola que podemos invocar nos momentos de necessidade. Diz o mito que Zé era um assíduo leitor do livro de feitiços de São Cipriano, base intelectual de suas pícaras malandragens).

O chato é que foi do nome do Zé Pilintra que a ferina má língua popular, também por puro preconceito, tirou o pejorativo ‘pilantra’.

Hum…Vai acreditar?

É por estas e outras que os vigaristas pululam no Brasil

Sabem daquela do Conto do paco?

Leiam aqui a bula da vigarice como ela é

“…Os marginais trabalham em duplas ou trios. Um deles observa alguém que retira dinheiro do caixa bancário e o acompanha à saída. Neste ínterim, o outro golpista passa pela vítima e derruba um maço de papéis moldados como se fosse dinheiro, tendo a cobertura de uma nota de dinheiro real. A vítima, distraída, leva um susto.

Outro estelionatário aproxima-se e divide com a vítima a “perplexidade” com o achado. Cria-se, com isto, toda uma situação de surpresa que acaba engrupindo a pessoa e, muitas vezes, a tornando vítima de sua própria ganância…”

(Troque-se os ‘marginais-golpistas’ por ‘hackers’ e o caixa bancário por ‘Internet’ que tudo fica enfadonhamente igual.)

Ih!! Seria eu um desses ‘falsa qualidade’ (como se dizia antigamente, evocando o sentido deste artigo 171 do código penal) ou um cidadão de bem, Dez, Cem, ‘Pedra Noventa’? Insondável mistério.

E quando soubessem então que só ando de boné?

O que poderia garantir para os meus demais convivas que eu não era mais do que um mero mix anti-frankenstein, montado e retocado a photoshop, marqueteado por um gordo e suculento curriculum vitae no perfil, recheado de feitos, descaradamente, falsos, heróicos e edificantes como este exemplo:

…”Participou da tomada da Bastilha na França, depois de ter sido amante de Maria Antonieta. Participou também, concomitante e valorosamente, da Revolução espanhola e da Batalha dos Guararapes quando, comandante de um destacamento português dizimado inteiro no campo de batalha, foi o único sobrevivente… Depois de criar e implantar a luta da Capoeira na Bahia, participou também, com grandes chances de vitória (não concretizadas) do décimo BBB da rede Globo, recusando insistentes convites para posar seminu para a revista norte americana ‘Men biggest anatomy’, alegando como justa razão o fato de ser o criador e principal incentivador da Ong ‘Pupilos da Esperança’, premiadíssimo projeto de responsabilidade sócio ambiental internacional de inclusão digital de pobres criancinhas faveladas…

Ao que parece, toda alma penada que se preza, todo fantasminha camarada anseia concretizar-se, materializar-se em dores e culpas, medos, existir como algo real, mas, é aí que mora o perigo.

Toda virtualidade tende a ser, portanto, efêmera e isto é que dá sentido e concretude à nossa vida. O que aconteceria, contudo, se perdêssemos um dia o senso da realidade, por conta destas sabidas armadilhas da modernidade, este futuro sem eira nem beira à vista, esta ambigüidade tão ‘ser ou não ser’ do admirável novo mundo virtual que estamos engendrando?

Você já ouviu falar deste escritor ?

Ah, não! Um conto do Paco, de novo?

(Biografia do misterioso escritor pós beatnik Paco Bernardo…Sério, gente! Sem pilantragem. O nome do cara é Paco mesmo)

“…Poeta italiano nascido na década de 1940 que, por razões de educação, sempre escreveu em português. Nunca publicou um livro e viveu afastado dos centros acadêmicos. Viajou por cerca de 80 países, nunca fixando moradia. Ligou-se à poesia experimental e criou ainda em cinema, fotografia, teatro etc.”

Pois é. Dia desses esbarrei na rede com esta figuraça, convidado por um engraçadinho que se dizia membro de um grupo de admiradores do genial romancista e poeta. Como as informações batiam todas ‘na trave’, decidi fazer uma breve pesquisa, chegando a estas curiosas conclusões:

O criador da lorota seria um garoto obcecado pela idéia, que engendrou com disposição quase neurótica, a amarração de todos os detalhes. Contei bem uns cinco ou seis personagens, entre prefaciadores, biógrafos e admiradores, criados a partir de nomes copiados, aleatoriamente, da internet e espalhados, cuidadosamente pelos vários blogs que o engenhoso criador montou, especialmente, para dar veracidade ao seu projeto.

Assim sendo, todos os citados comentaristas da obra do sujeito viajaram muito, estiveram na Itália, na França, na Argentina, todos nasceram na década de 40 e, bingo, todos falam bem o português e escrevem com o mesmo estilo do tal escritor.

Quando muitos erros de concordância ou gramática estão visíveis nos textos do tal misterioso autor, o criativo garoto afirma que o autor entregou o texto antes de revisar. Um destes textos (supostamente, escrito pelo tal autor fantasma ‘entre 1959 e 1960’), tem surpreendentes 228 páginas!

Foi fácil. Vi no google:

Entre as inventadas sumidades que ‘escrevem’ sobre o tal poeta ‘pós beatnik’, um jamais escreveria sobre alguém nascido na década de 1940 por que morreu… no século 19. Outra (a quem é atribuído um prefácio, autorizado pela viúva), se refere a um ambientalista francês que, além de estar vivíssimo (o criador usou apenas o nome), ao que tudo indica, não tem nada a ver com a história, que parece ser pura esquizofrenia. Ou não?

Vai acreditar?

Adoro a internet (até mesmo este seu lado Matrix), mas, me preocupo com quantidade incomensurável de dementes virtuais que ela, potencialmente, pode criar, emaranhados na dúvida cruel de jamais, exatamente, saber separar o que é mentira do que é verdade.

Esquizofrênicos em rede, ‘auto-hackers’, ‘um-sete-uns’ virtuais, serial killers espinhentos, cidadãos ‘de bem’ pedófilos, uma fauna pós-moderna imensa, uma ‘família-monstro cibernética navegando em LCD por aí (que deve ser pior que viajar em LSD )

Podemos combinar que nem todos somos portadores daquela loucura sã dos ficcionistas, dos artistas, dos contadores de histórias, aqueles que possuídos por fantasmas e demônios íntimos, oriundos de estranhas outras dimensões, são capazes de criar mundos e galáxias de personas paralelas, com a finalidade única de nos fazer, na boa, sonhar.

Cavalos’ que incorporam caboclos-poltergeistern sem ferir ninguém, revolucionando a casa com lúdicas idéias de mudança. Sim porque, os ficcionistas transitam, deste mundo ao outro, como loucos, mas, ao simples sacolejar vigoroso de um galho de arruda, o lançar súbito de um punhado de sal grosso, uma leve aspergida de pó de pemba, ou mesmo de uns caroços de pipoca doce, pronto: desincorporam o ‘santo’ e voltam, revigorados à realidade prosaica das coisas deste mundo.

(Depois da pesquisa sobre o escritor fake que, presumo ter descoberto, meu blog pessoal foi invadido por comentários escatológicos de um vandalozinho – seria ele? -. Pulga atrás da orelha voltei a ter aquele velho grilo com jovenzinhos pálidos, nerds, super experts nos macetes da rede, mas isto passa.)

Prometo não me esconder de novo naquele avatar estranhíssimo do malandro sestroso, mas, que evocarei de novo aquela sabedoria sambística do cara, isto evocarei sim. E que São Cipriano me abençoe.)

Kaô, Kaô, kabecile!

Eventual paraíso futuro dos ‘um-sete-uns’ malucos de pedra (que na grande Web poderão ser um dia hackers suicidas de si mesmos) a Rede, como qualquer Casa de Umbanda terrena que se preze, vai precisar, brevemente, de um mentor sábio e poderoso. Um Pai de Santo armado da mais pura astúcia, para gritar na hora agá, em alto e bom som, para os abusados fantasminhas do barulho:

_Vade retro Satanás! Larga este corpo que não te pertence!

Spírito Santo

Musikfabrik Brasil, o filme! (Parte 02)



(Parte 02)

Um filme de Alexandre Gabeira

(Antes veja também a PARTE 01 aqui)

‘Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos’

Sob o curioso nome de Musikfabrik (ou ‘Fábrica Livre de Construção Musical e Outros Estranhos Produtos do Som’) o músico e arte educador Spírito Santo idealizou em 1995 na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) uma oficina de arte que acabou virando um curso, que por conta do grande sucesso obtido, se transformou por fim numa espécie de projeto de extensão, de inovadoras e especiais características, que já dura 15 anos.

Aprendendo e ensinando, especializando-se na pesquisa e no exercício da linguagem musical aplicada como ferramenta pedagógica adaptada às mais variadas finalidades e circunstancias o Musikfabrik a partir de então vem capacitando músicos, artesãos, musicoterapeutas, atores de teatro e circenses, arte educadores, educadores sociais, professores e diversos outros tipos de profissionais interessados na busca de novas maneiras de se inserir a música na educação, no trabalho, na inclusão de crianças e jovens, na vida social e cotidiana enfim.

O método aplicado é a parte mais inusitada da pedagogia do Musikfabrik: Aprende-se a partir do contato físico com a música, ou seja, todos os conteúdos (física elementar – acústica, mecânica etc.- além de história, etnologia, organologia, etc.) são repassados durante o processo de criação e/ou recriação artesanal de instrumentos de música das mais variadas origens (alguns até mesmo inventados pelos alunos).

A partir de 1999 o projeto decidiu formar com alunos um grupo musical representativo de seu trabalho, mas que tivesse um perfil realmente artístico e não exatamente apenas ‘institucional’ como as bandas de projetos sociais mais convencionais.

A função de arregimentar músicos entre alunos e convidados ficou então à cargo do aluno assistente Umberto Alves que, junto com Spirito Santo – e o restante dos músicos – formatou o impactante som da banda Musikfabrik desta ocasião.

Alexandre Gabeira formando do curso em Comunicação Social na Uerj em 2001, escolheu o Musikfabrik e as suas especiais características acima descritas, como tema para o seu trabalho de fim de fim de curso.

É este interessante documentário que temos o orgulho de disponibilizar aqui em 2 partes.

(Veja também a PARTE 01 aqui)
————–

‘Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos’

Achtung! Mais um negão em Viena


“April macht zu viel”
‘Abril faz o que quer‘- ditado popular austríaco (ou alemão não lembro bem)

Não pude resistir à tentação de divulgar isto. Aos que não tiverem a gentil complacência de relevar mais este eventual deslize egocêntrico, justifico enfático:

Corujice também é cultura!

É nestas horas que gostaria de ver a cara de um anti-cotistas destes, estes racistas enrustidos que andam rebolando por aí, afirmando que os excluídos históricos do acesso à educação (negros, índios e afins) precisam esperar caladinhos, na fila, confiando piamente que, um belo dia (quando a galinha criar dentes?) políticas universalistas – ou ‘não racialistas’, no dizer daqueles próceres do jornal O’Globo – vão permitir que os nossos filhos entrem na universidade.

Caladinho é cacete. Digo alto para vocês todos ouvirem: Depois de entrar na UFRJ (e por acaso fora do programa de cotas), meu filhão, negão, acabou de entrar agora na Universidade de Viena, lá na Áustria.

Na base do ‘você sabia’, pra economizar o google de vocês, em verdade em verdade vos digo: Trata-se de uma das mais antigas universidades do mundo, criada em 1365, quando o Brasil, tal como o conhecemos, nem sonhava existir – ou seu ‘descoberto’, como se diz – Os portugueses, por sua vez, nem tinham ainda, a mais vaga idéia de que invadiriam o Kongo um dia e que para cá trariam meus antepassados africanos que de sua parte, séculos e séculos adiante, teriam o meu filhão como descendente ilustre. Dá pra imaginar?

Só pra se ter uma idéia, vaga ao menos, da dimensão da quase ‘façanha’ do ex-pimpolho (nada tão difícil. Foi só ele descobrir que tinha este direito e correr atrás), na lista de celebridades e sumidades mundiais que ali estudaram e se formaram, só encontrei um brasileiro, assim mesmo de ascendência austríaca, o crítico literário e libertário incorrigível Otto Maria Carpeaux (Otto Karpfen antes de fugir dos nazistas para o Brasil ). Veja a lista que fiz assim, só numa zapeada na wikipédia:

Gustav Mahler (músico), Gregor Mendel (músico), Papa Pio III, Otto Preminger (cineasta), Wilhelm Reich (psicanalista), Bruno Kreisky (ex primeiro ministro austríaco), Kurt Waldheim (ex primeiro ministro e secretario da ONU), Stefan Zweig (escritor), Otto Maria Carpeaux (crítico literário naturalizado brasileiro), Jörg Haider (‘moderno’ e célebre político neo nazista austríaco).

Procurar quantos negros brasileiros estudaram ali é a pesquisa mais fácil deste mundo:
Com quase toda certeza nenhum.

Se você considera válido este tipo de parâmetro, raciocina (ou ‘se liga’): A Universität Wien é um dos templos mais bem acabados do que se pode chamar de ‘cultura branca’, cultura européia, saber hegemônico (se é que me entendem) e é lá que, unicamente por conta de seus inalienáveis direitos de cidadão do mundo (e não por conta de nenhuma meritocracia elitista) o meu filhão negão vai estar.

(Aliás, deixei o neo-nazista Jörg Heider como último da lista só pra lembrar que a Áustria é a terra onde nasceu o Adolf Hitler, o anti-cotista mais famoso da história (suas cotas eram as Cotas da Morte) que, como também indigitado Heider, deve estar se revirando no túmulo de saber que tem mais um negão (já há muitos africanos estudando lá, fiquem sabendo) lendo clássicos da literatura universal naquela biblioteca belíssima e gigantesca, como as dos filmes do Harry Potter (desculpe a referencia adolescente, mas foi a mais forte que me ocorreu)

(Se bem que, sofismáticos empedernidos como são, os impagáveis anti-cotistas do Brasil vão tentar descontruir toda esta minha alegria para esbravejarem pomposos – e engulindo em seco – que este meu exemplo é, isto sim, a prova mais cabal do mundo de que cotas raciais e ações afirmativas são ‘inócuas e desnecessárias’:

_ ‘Olha só o caso deste garoto do Spírito. Conseguiu ingressar numa das melhores unicersidades do mundo por seus próprios… méritos”

Mentira. Digo e afirmo na cara de vocês (deles, no caso, os racistas enrustidos que pululam por aí). O programa ao qual o meu filhão se habilitou, está inserido num conceito de intercâmbio entre universidades da União Européia com universidades do antigo Terceiro Mundo, que visa, entre outras coisas, democratizar o acesso à educação e ao conhecimento para jovens oriundos de países subdesenvolvidos ou – vá lá – em vias de desenvolvimento como o Brasil, contexto no qual países africanos (apinhados de negros) e latino americanos (apinhados de negros, de índios e disto e daquilo de quem dizem não serem ‘brancos o suficiente’ para merecer um lugar ao sol) são os maiores beneficiários (países de porte médio da região da União Européia como Portugal, Croácia, Polônia, etc. também entram nesta dança)

Um óbvio e claríssimo sistema de cotas, portanto. Uma prova – aí sim – cabal de nossa vergonhosa e anacrônica, atrasada e estúpida mania de ficar excluindo gente, omitindo gente, matando gente de forma egoísta, na base da ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’.

Ah, ah, ah, anticotistas, racistas de plantão! A vocês só resta ficar arrotando por aí que se formaram pela PUC, que seus filhos vão estudar na PUC. Que a PUC, que a PUC, que a PUC… E daí? Coisa mixuruca. Quem liga mais para esta hegemonia onipotente, tão colonial?

Perderam! Perderam! Meu filhão negão escapou da sanha excludente de vocês que, agora e mais uma vez, não perdem por esperar. Outros muitos escaparão.

_”Achtung! Nicht verboten! Auf wiedersehen!

Spírito Santo
Abril 2010

Dramaturgia de Uns e Outros


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado por uma licença Criative Commons

Diálogo crítico entre ‘Processo Colaborativo no Teatro da Vertigem’ (SP -2002) e o ‘Processo de Dramaturgia Aberta’ da Cia. Off-Sina (RJ-2010)

(Para mal entendedores linguagem teatral é greco, criação é coerção e berimbau é gaita)

Spírito Santo
(Dramaturgo-desconvidado)

O Resumo da opereta

Descrevendo os personagens

(Este é o relato-diálogo, fragmentado – e altamente opinativo – da minha frustrada experiência como dramaturgo convidado do Grupo Off-Sina do Rio de Janeiro, no ensejo do processo da construção do espetáculo ‘Nego Beijo’, sobre a teatralidade Circense e o Circo-Teatro de Benjamim de Oliveira.

Dramaturgo bissexto (com uma obra restrita a apenas quatro textos escritos nos últimos 16 anos), acabo de tomar conhecimento da forma mais impactante possível de algumas mui estranhas – embora muito interessantes – teses em voga no meio teatral brasileiro atual, que apontam para um modo supostamente novo do fazer teatral: O processo colaborativo.

(Calma, calma. Ingenuidade alguma nesta minha história. É que as referidas teses são para mim tão velhuscas, coitadas – já as tinha vivido lá atrás, nos anos 70! – que jamais poderia imaginar que hoje haviam se tornado teses ‘de ponta’ para certas sumidades teatrais)

É pois no empolgante ensejo desta minha frustrada experiência como dramaturgo convidado de uma companhia adepta desta linha de trabalho, que me envolvo neste estimulante debate.

(Os elucidativos trechos do resumo por mim utilizado para historiar a minha própria experiência, foram extraídos de uma derradeira carta enviada à direção artística da Cia. OFF-Sina.

Os trechos atribuídos ao encenador e dramaturgo Antônio Araújo – com os quais os meus fragmentos tentam honestamente dialogar – são de um antológico artigo daquele autor, publicado na internet. Um diálogo teatral no melhor sentido.)

Pois então vamos lá. Como introdução, eu mesmo agora em público falando:

————-

A Carroça e depois os Burros
(Mas não seria vice versa?)

“…Já deu para perceber que a filosofia do processo estabelecido pela Cia. Off-Sina está amparado em algumas premissas ideológicas que priorizam o que eu, modestamente chamo de ‘processo de afirmação do ator’ (em oposição à hegemonia do diretor e/ou do dramaturgo), ancorado em muita teoria sobre o papel do Artista Popular, De rua, etc. como sujeito revolucionário, protagonista principal do fazer teatral etc. “

Está claro que isto, no geral, como informação acessória, é muito relevante para o nosso projeto sim, mas é muito mais importante para militância de vocês em particular já que, no próprio ato de seleção dos profissionais estes critérios – a adesão da equipe à proposta – já haviam sido considerados. “

Spírito Santo – carta à direção artística do projeto ‘Nego Beijo’/ Grupo Off-Sina -2010)

O Drama da Criação Coletiva noTeatro

Processo colaborativo. Uma utopia?

“…Não pretendo com isso desmerecer ou descartar a experiência da criação coletiva. Obras importantes foram criadas dentro desse modelo e é legítimo que cada artista busque a maneira de trabalhar com a qual mais se identifique. No caso do Teatro da Vertigem nós nos orientaríamos em outro sentido, que parecia traduzir melhor as características e os interesses dos integrantes do grupo. É claro que, em essência, estávamos afiliados a alguns dos princípios fundamentais da criação coletiva, mas iríamos praticá-los de forma um pouco diferenciada.”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem

———————–

A julgar pelo que o texto de Antônio Araújo indica ou sugere, a pesquisa ( ‘forma’ e ‘temática’) da sua Cia. Teatral se deu espontaneamente e já foi realizada num contexto eminentemente teatral, sob opções e consenso criados por todo o grupo no transcorrer do processo de uma montagem e orientados – ou moderados – pelo diretor da Cia .

No caso do Off-Sina – e a meu exclusivo entender  – ao contrário, todo o processo foi planejado à priori por uma espécie do ‘núcleo duro’ do grupo, integrado pelos dois atores ‘proprietários’ da Cia. e uma terceira pessoa que funcionava como uma espécie de ‘comissária-ideológica’ do grupo incumbida de  zelar pelo cumprimento das normas pré-estabelecidas de forma discreta, quase subreptícia.

Assim, no caso do Off-Sina, a fase preliminar do trabalho (‘Pesquisa’) parece ter sido pensada para funcionar estritamente como um ciclo de leituras linear e acrítico do excelente ensaio historiográfico (“A teatralidade circense no Circo-Teatro de Benjamim de Oliveira”) de Ermínia Silva, sob a forma de um grupo de estudos convencional.

Alguma razão, contudo – quem sabe talvez por conta de certo grau de desconhecimento da maioria do grupo em relação aos conteúdos apresentados- acabou fazendo com que se optasse por encaminhar o trabalho (fase 1,  a ‘Pesquisa’)  para um formato de ‘aulas convencionais’.

Na verdade, soube-se depois que havia sim uma espécie de ‘coordenação’ dos ciclos de leitura, mas ela se dava por razões obscuras também de forma subreptícia e apenas entre os atores, em contextos e momentos isolados das reuniões com os demais membros da equipe, de modo que esta coordenação subliminar nunca se apresentasse nas reuniões gerais como uma instância acessível, suscetível ao debate, para ficar assim, presume-se, preservada de eventuais questionamentos.

“…A principal diferença se encontra na manutenção das funções artísticas. Se a criação coletiva pretendia uma diluição ou até uma erradicação desses papéis, no processo colaborativo a sua existência passa a ser garantida. Dentro dele, existiria, sim, um dramaturgo, um diretor, um iluminador, etc. (ou, no limite, uma equipe de dramaturgia, de encenação, de luz, etc.), que sintetizariam as diversas sugestões para uma determinada área, propondo-lhe um conceito estruturador ”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem”- 2002

———————-

Ao que tudo indica também, esta fase inicial do processo do Off-Sina foi planejada (arbitrariamente, como se viu e não debatida com a equipe ou com o elenco como um todo) para funcionar de maneira estanque em relação às fases seguintes (‘Dramaturgia’ e ‘Encenação’), criando uma óbvia – e talvez deliberada – dicotomia no desenvolvimento do processo como um todo.

Aparentemente, esta dicotomia programática e deliberada, visava expor o elenco – e os membros da equipe artística em geral – a algum tipo de capacitação ideológica, uma espécie de ”iniciação política” ao que a Cia. Chamava de “Método Off-Sina de Circo-Teatro de Rua’’

(Na análise que o dramaturgo convidado realizava – já a esta altura subliminarmente – aparecia como razão evidente do travamento do processo, a ausência de uma espécie de eixo catalizador, certo tipo de coordenação, moderação ou liderança de natureza efetivamente técnico-teatral, capaz de orientar a transposição (a ‘tradução’) do complexo arrazoado teórico contido no ensaio historiográfico, para ações ou exercícios artísticos  propriamente ditos (a exemplo do que aconteceu, segundo transparece no texto de Antonio Araújo, com a bem sucedida experiência do Teatro Vertigem).

“…Ao que me parece, a nossa eventual dificuldade de, até agora articular as oficinas e as demais ações do processo, estaria relacionada à falta de um eixo qualquer, um foco, que no meu modesto entender deveria ter sido dramatúrgico, mas que no entender de vocês acabou sendo o exercício de uma pesquisa ampla e abrangente, sob a forma de um grupo de estudos clássico sobre tema Circo-Teatro-de-Rua.

O material da pesquisa fala sobre teatro sim e contem todas as informações que a equipe necessita, claro, mas não é teatro ainda, não enseja a criação, a construção de espetáculo algum, porque um espetáculo para ser construído, precisa ter uma síntese de uma narrativa dada (um tema recortado e pertinente), um roteiro que seja, um plano específico sobre o qual a equipe organizada, sinergizada, se debruça, molda, ‘levanta’ e, por fim, encena.”

Spírito Santo / carta à direção artística do projeto ‘Nego Beijo’/ Grupo Off-Sina -2010

Teatro de Revistas sem ‘compère’)

( e o que dizer de um Circo sem dono?)

Com efeito, o cerne das subestimadas proposições fornecidas pelo dramaturgo-convidado à revelia da direção da Cia., se encaminhavam exatamente para a denúncia desta distorção deliberada do processo que, na fase seguinte, com toda certeza, impactaria e contaminaria de autoritarismo a própria estrutura dramatúrgica de um futuro e eventual espetáculo.

Por outro lado, talvez por conta desta falta de um orientador abalizado (função que a ‘coordenação subrepícia’, em termos artísticos – ou mesmo culturais – parecia não dar conta) os ‘resumos’ com as observações e conclusões dos atores, solicitados (de forma isolada) pelo dramaturgo convidado,  para servirem de subsídio para a fase seguinte, nunca apresentavam elementos novos que não fossem aqueles já contidos pelo texto original do ensaio, resumos estes que, copiados ipsis leteris não continham elementos realmente teatrais, tangíveis ou mesmo aproveitáveis para a proposição de qualquer coisa parecida com dramaturgia.

“…Tal dinâmica, se fôssemos defini-la sucintamente, constitui-se numa metodologia de criação em que todos os integrantes, a partir de suas funções artísticas específicas, têm igual espaço propositivo, trabalhando sem hierarquias – ou com hierarquias móveis, a depender do momento do processo – e produzindo uma obra cuja autoria é compartilhada por todos. “

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

———————

Analisando o processo desde o início,  o dramaturgo convidado (já a esta altura protagonista involuntário de uma espécie de jogo de enganos)   elaborou por escrito uma série de propostas (descritas também verbalmente)  como sugestões a serem debatidas em grupo em reuniões, sugestões estas que poderiam estimular o surgimento de uma eventual proposta coletiva para o re-alinhamento ou o re-encaminhamento do processo – notadamente o re-ordenamento da metodologia da fase 01 (Pesquisa) que poderia assumir, no mínimo, a forma (além das pertinentes  ‘aulas convencionais propostas pela orientadora)  de uma ‘pesquisa-ação’ tradicional que fosse, algo com alguma dinâmica ou sinergia.

O fato é que mesmo sob a forma de ‘propostas a serem debatidas pelo coletivo’, estas sugestões foram, do mesmo modo, reiteradamente descartadas pelo ‘núcleo duro’ da Cia. Em certos momentos mais tensos dos contidos debates, este ‘núcleo duro’ chegou mesmo a admoestar, diretamente o dramaturgo – tornado inconveniente proponente, no caso – mostrando-se irredutível quanto ao cumprimento rígido do plano traçado.

Observado mesmo superficialmente, este plano da Cia. Off-Sina parecia ser de fato, baseado em dogmas rasos e mal explicitados, vagamente apoiados nas teses mais corriqueiras ou recorrentes do dramaturgo e encenador alemão Bertold Brecht, associadas ou adaptadas a uma cartilha ideológica maniqueísta, que opunha de um lado supostas técnicas do ‘Teatro Dramático’ (consideradas execráveis por serem ‘burguesas’) e de outro também supostas técnicas do chamado ‘Teatro Épico’ (consideradas ideais e obrigatórias por serem, necessariamente ‘populares’, ‘avançadas’ e ‘ revolucionárias’.)

“…Isto não significa (como parece temer, ingenuamente a meu ver, a Cia.) de modo algum uma eventual ‘ hegemonia do dramaturgo’ sobre o processo (hegemonia esta que, como já disse, ao que parece, a Cia. pretende que seja do ator, como premissa ideológica).

Significa apenas que, para uma ação coletiva ser bem sucedida os participantes precisam executar, cada qual uma função específica no seu devido tempo, segundo uma estratégia comum e factível (que, na verdade para ser mesmo democrática, não deveria permitir a hegemonia de nenhuma das partes.)

(…Há que se ter muito cuidado pois, em certos casos – e com certeza também no Teatro- a teoria pode ser a madrasta da prática.)”

Spírito Santo / carta à direção artística do projeto ‘Nego Beijo’/ Grupo Off-Sina -2010)

Como suporte teórico a este tipo de dogmatismo anti-teatral militante, os ideólogos da Cia. Off-Sina publicavam no grupo de relacionamento online do projeto (‘grupos Yahoo’), textos teóricos de militantes (ou simpatizantes) do que pareceu ser uma instituição política dos artistas de Teatro de Rua de São Paulo, salpicados de fundamentos apócrifos da história do teatro  (reforçados com pretensas e esotéricas expressões etimológicas pinçadas do grego) imiscuídas em teses teatrais outras, ‘da moda’ (entre as quais as do próprio Antônio Araújo, aqui debatido) lidas do mesmo modo acrítico e estreito com que ‘leram’ as teses do velho Brecht.

A certa altura, no auge tresloucado da afirmação dos tais ‘pontos de honra ideológicos’ da Cia. Um dos ideólogos alegou, enfaticamente que o Teatro de Rua pressupunha, obrigatoriamente a ausência total de cenografia e adereços, de uma cenotecnia enfim.

Antes de associar, como se esperava,  ou justificar a opção (obviamente muito relativa do ponto de vista artístico) com especificidades técnicas evidentes da linguagem teatral aplicada no contexto de espaços públicos abertos, os ‘ideólogos’ afirmavam que (cito livremente):

_ “O Teatro Épico considera a cenotecnia um recurso eminentemente burguês, reacionário, alienante, voltado que é para criar a ilusão nas massas”.

(O caráter canhestro deste tipo de posicionamento artístico, obviamente dispensa maiores considerações)

A partir desta ocasião ficou patente, portanto a impropriedade do conceito ‘colaborativo’ (ou ‘aberto’) da Cia. (especialmente quando aplicado ao processo em curso) já que, como se viu, com exceção de três membros deste ‘núcleo duro’ do grupo, ninguém mais da equipe se animava ou se mostrava interessado em participar de nenhum questionamento ou debate mais profundo sobre a metodologia de construção do futuro espetáculo.

Manda quem pode. Obedece que tem juízo.

“…E, ao mesmo tempo, isto não aliena esse responsável ou coordenador artístico “setorial” do restante da criação. Também ele (ou sua equipe) trará sugestões e contribuições para as outras áreas e, principalmente, discutirá o(s) sentido(s) da obra como um todo. Portanto, aquele coletivo de artistas é, no ponto de chegada, o autor daquilo que é mostrado ao público, não só pela “amarração” artística dentro de sua especificidade, mas porque contribuiu, discutiu e se apropriou do discurso cênico total daquele espetáculo.”

Antonio Araújo / em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

——————-

Havia, pois, no caso, hierarquias muito bem definidas invalidando de antemão toda a legitimidade colaborativa do processo que, por esta interessante razão, nada tinha ou poderia passar a ter daí para frente, de teatral ou mesmo de artístico.

Com efeito, a proposta do Off-Sina, em tese se enquadraria perfeitamente no modelo de ‘processo colaborativo’ exposto por Antonio Araújo, não sofresse ela do pecado original de sua estrutura de coordenação ser subliminar e autoritária. Se ao invés de ‘todos serem dramaturgos, encenadores, figurinistas, etc’. somente o tal ‘núcleo duro’ orientava o processo, ninguém na equipe poderia almejar, de fato, ser algo além do que mero expectador, ator ‘dramático’,  passivo, do processo de construção de um não-espetáculo.

“…Em geral, nesses casos, a contribuição de todos tem necessariamente que ser incorporada ao resultado final, muitas vezes levando a obras flácidas e adiposas, e colocando em risco a clareza e a precisão do discurso cênico projetado. Em casos assim, se os integrantes não tiverem maturidade o suficiente para dar sustentação a tal dinâmica de grupo, as brigas e as rupturas são inevitáveis, e muitos espetáculos acabam nem vindo à cena por essa razão.

Quantas companhias não se dissolveram, traumaticamente, pelas crescentes rusgas e incompatibilidades entre seus colaboradores, devido ao desgastante exercício de um pretenso “coletivismo? ”

Antonio Araújo / em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

———————–

Esta contradição seminal, omissa, embora aparentemente percebida e identificada por todos (e, como se viu, sob cuja natureza não era permitido – ou recomendável – debater) era frequentemente apresentada como sendo uma salvaguarda contra rompantes de individualismo eventual por parte de um ou outro membro da equipe (entre os quais, evidentemente, o dramaturgo-convidado, único a propor algum debate sobre o transcorrer equivocado do processo, era constantemente identificado como ‘suspeito’.)

“…Tanto quanto aos outros colaboradores caberá a ele – o dramaturgo – trazer propostas concretas – verbais, gestuais ou cênicas – mas também dialogar com o material que é produzido diariamente em improvisações e exercícios.”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

———————–

Antonio Araújo aliás, acerta na mosca em sua análise dos riscos e percalços do método, com uma diferença crucial entre as duas experiências: Todas as funções da equipe no caso do Off-Sina jamais foram ‘democraticamente’ distribuídas pelo elenco. Desde o início elas haviam sido entregues a profissionais convidados (contratados) procedimento que, aparentemente fazia a proposta do Off-Sina se assemelhar à pragmática versão de ‘criação coletiva’  contida na experiência do Teatro Vertigem. Nada mais falso.

“…É fundamental que o núcleo dos intérpretes e a direção revejam seus conceitos e parâmetros, para que também eles possam abrir-se a um novo tipo de relação com a dramaturgia.

Se como diretor sou capaz de, ao observar a improvisação de um ator, selecionar algum mínimo elemento que seja ou perceber os rumos que não devem ser seguidos, poderia me relacionar com um exercício textual de forma igualmente aberta.”

Antonio Araújo / em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

A Farsa Cômica

(Ou seria uma burleta?)

As atribuições a serem, supostamente distribuídas ao elenco (no caso do Teatro Vertigem, principalmente aos atores da cia.), aquela propalada democracia dos ‘artistas- pensadores’, era sob vários aspectos, no caso do Off-Sina, portanto, uma farsa absoluta.

Senão vejamos: Dos 5 atores previstos para o espetáculo dois eram contratados, pertencentes a um outro grupo e subordinados, portanto às estranhas sub-liminaridades do processo.

Excetuando-se os dois atores ‘proprietários’ da Cia. ficava faltando, portanto apenas um ator,  o único negro do elenco, aquele que encarnaria Benjamim de Oliveira, protagonista óbvio do espetáculo que, como se sabe, foi um ex-escravo de ascendência africana, histórico ator, dramaturgo e ‘clow’ brasileiro.

(Observe-se que a aparente e descuidada protelação da seleção de ator com perfil tão estratégico à montagem, trazia problemas e imposições importantes ao processo de construção geral dos personagens, durante a montagem, um problema essencialmente dramatúrgico, portanto).

Pano rápido.

É esclarecedor que  de forma flagrante, aludindo os riscos potenciais da metodologia em tese, Antonio Araújo toque  em seu texto no que seria o cerne do caráter fortemente utópico da proposta.  No contexto de uma ansiada dinâmica de grupo – a sinergia que deveria ser intrínseca ao processo colaborativo – diversos fatores, muito complexos precisavam ser considerados também, além daqueles relacionados à eventual ‘maturidade’ do coletivo.

Entre eles, o mais grave e relevante talvez seja a necessidade imprescindível de que haja certo nível de capacitação dos membros do grupo ou Cia. para assimilar, apreender e elaborar tantos e tão especializados conteúdos necessários à construção de um bom espetáculo de teatro – ou de qualquer outro fazer artístico, linguístico, técnico enfim, considerando-se que o conceito ‘fazer’, nestes casos, exige também de forma imprescindível, além desta capacitação prévia, experiência e rigor.

“…Muitas vezes, também, essa perspectiva do “todo mundo faz tudo” escondia certos traços de manipulação. Por exemplo, determinado dramaturgo ou diretor pregava tal discurso coletivizante visando camuflar um desejo de autoridade e, dessa forma, evitava confrontos e conflitos com os outros integrantes do grupo.

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

O excessivo ‘democratismo’ (‘coletivismo’ no dizer de Antonio Araujo) forjado no caso do Off-Sina, mas francamente assumido na experiência do Teatro Vertigem, talvez não dê conta de suprir, por exemplo, a eventual (e, a rigor, natural) incapacidade de uns, em relação a outros, diante de desafios criativos para os quais aqueles não tiveram acesso ou, simplesmente não tem nenhum interesse, aptidão ou vocação.

Com efeito, pode estar subjacente no enunciado da metodologia do ‘Processo Colaborativo‘, certa dose de banalização do fazer teatral, alguma simplificação ou subestimação involuntária (inspirada que foi num conceito ingênuo, primário de democracia direta) dos saberes acumulados, necessários para o fazer artístico em geral, saberes estes tão relativos e imprevisíveis quanto pessoais, humanos enfim, cuja carência pode invalidar (e geralmente invalida) em muitos aspectos, o sucesso de metodologias dogmáticas ou rigidamente estabelecidas.

Gerando muitas vezes resultados (espetáculos no caso) cuja qualidade final não justifica em nada a pertinência do processo  do qual foi oriundo (em relação aos demais processos tradicionais ou convencionais) o  interessante ‘Processo Teatral Colaborativo’ talvez precise ser visto de forma crítica, como uma proposta questionável, cuja forma de aplicação precisa ser sempre relativizada (‘ humanizada’ enfim).

“…Contudo, o processo colaborativo garante a existência de alguém (ou de uma equipe) especialista ou interessado em determinado aspecto da criação, que se responsabilizará pela coordenação das diferentes propostas, procurando sínteses artísticas, articulando seu discurso cênico ou concepção, e descartando elementos que não julgar convenientes ou orgânicos à construção da obra naquele momento.”

Antonio Araujo / em ‘Processo colaborativo do Teatro Vertigem’ 2002

————————-

Este aspecto (o do risco principal da metodologia), passível de fazer sucumbir até projetos verdadeiramente colaborativos, pode ser visto então como fatal para o anti-colaborativismo contido no processo de construção do espetáculo do Off-Sina.

O mais curioso é que em todos os debates e discussões, as premissas expostas por Antonio Araújo como sendo as corretas, eram exaustivamente defendidas e repetidas pelo ‘núcleo duro’ da Cia. e endossadas pelos membros da equipe mais cordatos.

“…Exatamente como os atores, o dramaturgo poderá exercitar esboços de cena, fragmentos de textos, frases soltas cujo único compromisso é o da possibilidade do escritor improvisar e investigar livremente. Portanto, esse material será tão fugaz e provisório quanto os exercícios cênicos propostos pelos intérpretes. Poderá ser inteiramente descartado ou, se for o caso, aproveitado dele algum elemento sugestivo.

Evidentemente tal dinâmica exige um novo tipo ou uma nova postura do dramaturgo dentro do fazer teatral. Por exemplo, ele tem de ser tão desprendido quanto atores e diretor que, no segredo da sala de ensaio, são capazes de propor cenas inconsistentes, frágeis, de péssima qualidade, mas fundamentais ao desenvolvimento da obra.”

Antonio Araujo / em ‘Processo colaborativo do Teatro Vertigem’ 2002

———————–

Eram, infelizmente estruturas psicológicas inerentes a grupos de trabalho coercitivos que apareciam, nitidamente expressas no decorrer do processo, tolhindo toda possibilidade de se debater e resolver os impasses que fatal ou naturalmente ocorreriam.

Em se tratando de uma equipe com profissionais contratados, esta reiteração do que aparecia como sendo princípios ideológicos norteadores dos interesses da Cia. eram particularmente constrangedores e desconfortáveis, principalmente quando se mostravam dogmáticos demais ou, o que era pior, desprovidos de consistência intelectual mínima.

Este era o caso das flagrantes distorções  citadas – defendidas de forma catequética e impositiva – que como já disse acima, falseavam ou distorciam conceitos gerais contidos nas teses de Bertold Brecht, constantemente apresentadas de forma estreita como sendo uma contenda entre ‘Teatro de rua popular e revolucionário’  contra o ‘Teatro Burguês’ ou toda estética teatral que não estivesse na cartilha da Cia.

“…Ao contrário, acreditamos num dramaturgo presente no corpo-a-corpo da sala de ensaio, discutindo não apenas o arcabouço estrutural ou a escolha das palavras, mas também a estruturação cênica daquele material.”

Antonio Araujo / em ‘Processo colaborativo do Teatro Vertigem’ 2002

——————-

Não se travava, pois de um grupo de teatro independente, coeso com a ideologia que em tese defendia como nos faziam supor, mas um grupo de profissionais instados por um pequeno grupo ideológico radical, a se adequar a uma metodologia canhestra, supostamente democrática, mas que na verdade, era autoritária e patronal.

Uma aberração artística em todos os termos.

O que pode ficar como lição na avaliação dos dois processos tão semelhantes em tese, porém díspares demais em sua prática é que talvez por um maneirismo elitista típico, alguma razão recorrente no gênero Teatro (pelo menos aqui no Brasil) predomina neste meio, certa predisposição para uma renitente e exacerbada superestimação da teoria em detrimento da prática, um intelectualismo, um academicismo arrogante, mania – ou vício – histórico no desenvolvimento de certo tipo de arte – e de certo tipo de Teatro em particular – ao qual ironicamente, ao contrário de sua pretensa ‘popularidade’ cabe como uma luva, isto sim, o epíteto burguês – e por extensão, populista).

Esta mania – infantil, numa analogia de recorte leninista ou stalinista, bem a gosto de certos teóricos mais radicais – gera sempre encruzilhadas metodológicas… dramáticas (ou pouco… épicas).

“…Negar o poder pode ser uma forma de reafirmá-lo ou de exercê-lo, ainda que sub-repticiamente. Ditaduras ou tiranias podem também se instaurar de maneira difusa, escamoteadas por um discurso de participação e liberdade. A vertente oposta a essa é a de uma democracia artística exagerada, em que cada aspecto é debatido ad nauseam, sem haver alguém que encaminhe ou proponha uma síntese final sobre determinado quesito polêmico.”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

————————

Contudo consideremos por fim que sem conflito não há ação e sem ação, obviamente…não há Teatro possível.

Pano final (ou Blackout)

——————–

Spírito Santo (citando amiúde Antônio Araujo)
Março 2010

Nei Lopes: “Consciencia Negra, modo de usar”


Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Neo racistas do Brasil! Desuni-vos!

O artifício da ignorancia sabida tem sido a grande trincheira defendida pelos neo racistas brasileiros um grupo bem articulado de pessoas (cujos nomes nem vale mais a pena declinar), com muito transito na grande imprensa e que, no ensejo de combater as relativamente bem sucedidas campanhas por ações afirmativas para a população preta do nosso país – no âmbito desta ainda tão jovem democracia brasileira – enche jornais, revistas e livros de capciosas e requentadas teorias tergiversativas, mal alinhavadas sobre velhuscas idéias de sociologos (como Gilberto Freire, por exemplo), martelando a maquiavélica e improvável tese da inexistencia do racismo no Brasil.

Ignorancia sabida é aquela esperta estratégia do ‘João-sem-braço’ que, assim como quem não quer nada, vai envenenando, minando a resistencia dos mais influenciáveis, como um diabinho que buzinando o ‘Mal’ no nosso ouvido, tenta vender o peixe de que, o que parece ser o ‘Bem‘ não é lá tão bem assim.

Todo jovem excluído, segregado, apartado de seus direitos – e ainda sem saber exatamente porque – está sujeito à influencia nefasta deste tipo de intelectual do atraso, advogado do Diabo no pior dos sentidos.

Acho que foi para este jovem que nosso amigo Nei Lopes escreveu esta bula que reproduzo abaixo por sua aguda pertinencia:

————
Consciencia negra, modo de usar
(publicado originalmente em Nei Lopes/Meu lote)

(Fechando a tampa das discussões do mês)

Quando te disserem que você quer dividir o Brasil em “pretos” e “brancos”, mostre que essa divisão sempre existiu. Se insistirem na acusação, mostre que, neste país, 121 anos após a Abolição, em todas as instâncias, o Poder é sempre branco. E que até mesmo como técnicos de futebol ou carnavalescos de escolas de samba, os negros só aparecem como exceção.

Quando, ainda batendo nessa tecla, te disserem que o Brasil é um país mestiço, concorde. Mas ressalve que essa mestiçagem só ocorre, com naturalidade, na base da pirâmide social, e nunca nas altas esferas do Poder. E que o argumento da “mestiçagem brasileira” tem legitimado a expropriação de muitas das criações do povo negro, do samba ao candomblé.

Quando te jogarem na cara a afirmação de que a África também teve escravidão, ensine a eles a diferença entre “servidão” e “cativeiro”. Mostre que a escravidão tradicional africana tinha as mesmas características da constituição em outras partes do mundo, principalmente numa época em que essa era a forma usual de exploração da força de trabalho. Lembre que, no escravismo tradicional africano, que separava os mais poderosos dos que nasciam sem poder, o bom escravo podia casar na família do seu senhor, e até tornar-se herdeiro. E assim, se, por exemplo, no século XVII, Zumbi dos Palmares teve escravos, como parece certo, foi exatamente dentro desse contexto histórico e social.

Diga, mais, a eles que, na África, foram primeiro levantinos e, depois, europeus que transformaram a escravidão em um negócio de altas proporções. Chegando, os europeus, ao ponto de fomentarem guerras para, com isso, fazerem mais cativos e lucrarem com a venda de armas e seres humanos.

Diga, ainda, na cara deles que, embora africanos também tenham vendido africanos como escravos, a África não ganhou nada com o escravismo, muito pelo contrário. Mas a Europa, esta sim, deu o seu grande salto, assumindo o protagonismo mundial, graças ao capital que acumulou com a escravidão africana. Da mesma que forma que a Ásia Menor, com o tráfico pelo Oceano Índico, desde tempos remotos.

Quando te enervarem dizendo que “movimento negro” é imitação de americano, esclareça que já em 1833, no Rio, o negro Francisco de Paula Brito (cujo bicentenário estamos comemorando) liderava a publicação de um jornal chamado O Homem de Cor, veiculando, mesmo com as limitações de sua época, reivindicações do povo negro. Que daí, em diante, a mobilização dos negros em busca de seus direitos, nunca deixou de existir. E isto, na publicação de jornais e revistas, na criação de clubes e associações, nas irmandades católicas, nas casas de candomblé… Etc.etc.etc.

Aí, pergunte a eles se já ouviram falar no clube Floresta Aurora, fundado em 1872 em Porto Alegre e ativo até hoje; se têm idéia do que foi a Frente Negra Brasileira, a partir de 1931, e o Teatro Experimental do Negro, de 1944. Mostre a eles que movimento negro não é um modismo brasileiro. Que a insatisfação contra a exclusão é geral. Desde a fundação do “Partido Independiente de Color”, em Cuba, 1908, passando pelo movimento “Nuestra Tercera Raíz” dos afro-mexicanos, em 1991; pela eleição do afro-venezuelano Aristúbolo Isturiz como prefeito de Caracas, em 1993; pelo esforço de se incluírem conteúdos afro-originados no currículo escolar oficial colombiano no final dos 1990; e chegando à atual mobilização dos afrodescendentes nas províncias argentinas de Corrientes, Entre Rios e Missiones, para só ficar nesses exemplos.

Quando, de dedo em riste, te jogarem na cara que os negros do Brasil não são africanos e, sim, brasileiros; e que muitos brasileiros pretos (como a atleta Fulana de Tal, a atriz Beltrana, e o sambista Sicraninho da Escola Tal) têm em seu DNA mais genes europeus do que africanos, concorde. Mas diga a eles que a Biologia não é uma ciência humana; e, assim, ela não explica o porquê de os afrobrasileiros notórios serem quase que
invariavelmente, e apenas, profissionais da área esportiva e do entretenimento. E depois lembre que a Constituição Brasileira protege os bens imateriais portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira e suas respectivas formas de expressão. E que a Consciência Negra é um desses bens intangíveis.

Consciência Negra – repita bem alto pra eles, parafraseando Leopold Senghor – não é racismo ou complexo de inferioridade e, sim, um anseio legitimo de expansão e crescimento. Não é separatismo, segregacionismo, ressentimento, ódio ou desprezo pelos outros grupos que constituem a Nação brasileira.

Consciência Negra somos nós, em nossa real dimensão de seres humanos, sabendo claramente o que somos, de onde viemos e para onde vamos, interagindo, de igual pra igual, com todos os outros seres humanos, em busca de um futuro de força, paz, estabilidade e desenvolvimento.

Nei Lopes

Orfeu Negro- Marcel Camus


No tempo em que sambávamos feito passarinhos.

http://m.youtube.com/playlist?list=PL5D95F8EE5E6F26A8&desktop_uri=%2Fplaylist%3Flist%3DPL5D95F8EE5E6F26A

Assisti o filme Orfeu Negro do Marcel Camus ainda criança. Revi agora e chorei feito criança, de novo. Saudosismo sim. Saudade de como éramos crianças felizes naquela pobreza mansa dos anos 50/60, na otimista virada do pós guerra.

Só pelo jeito diferente, leve, livre e solto – quase a voar como passarinhos – como a gente sambava dá pra ver como éramos felizes e não sabíamos.

Se você não se emocionar é porque já embruteceu de vez, neste Brasil estúpido em que nos tornamos, deixando crianças morrerem pelas ruas como pardais doentes.

o Sapoti, o Gibi e o Guri


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste post está assegurado por uma licença Criative Commons

0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, Spirito santo, o guri

0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, o guri

Na foto o pai, a mãe e eu guri

Seriam as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente, coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se conseguirá apagar jamais? O meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que é doce e bom:

Um sapoti caído do pé numa quente madrugada.

As frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmidas de orvalho. Eram o prêmio para os mais cedo despertos – e lépidos- primeiros a pular do beliche e correr para fora do alojamento.

Não sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele amarelo manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula: Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.

A marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que me lembro de ruim naquele tempo.

Do dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta parte da história.

Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas. Esta é a parte mais doída das lembranças.

A primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Hadock Lobo, na Tijuca, bem ao lado de um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto Lafaiette.

O prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas lembranças. Passo sempre pelo local, mas, não consigo encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão) que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.

A primeira imagem fugidia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim de Infância.

Havíamos mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado José Cyrillo, meu pai, tirou dela, com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

 O novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.

Lembro do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de colorir com um pintinho impresso, vazado e sem cor que eu, maravilhado, pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’ coisas pelo resto da vida).

Tomado de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez, algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.

Incrível descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.

Pena ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis felicidades, minha derradeira escola convencional.

Logo, tudo escureceu quando em 1951, sequelas do alcoolismo, proveniente talvez do que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o meu mundinho de criança feliz.

… ‘Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil

Ó meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil…’

Não sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é uma canção insistentemente repetida no rádio.

Desta imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de tristeza e melancolia.

..’.Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas

Viram Jesus que dizia:
– Vinde a mim as criancinhas…’

Entre um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente automobilístico.

O ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma unidade conveniada do sistema SAM, Serviço de Assistência ao Menor, famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).

O fato é que, ingenuamente solidário diante das dificuldades de minha mãe viúva, além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino – vestindo um paletozinho tweed – no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei, pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão, sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem – ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.

Esta era – como ainda hoje é, ou muito pior – a lógica crua do sistema de ‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.

Fosse a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos morcegos.

O traço do Gibi

Não sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana?

Talvez ela tivesse conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num ‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que, motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’, encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.

O que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’.

Ela me apareceu desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante, cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.

E quem não se extasiaria com duas latas de leite condensado, muitos sacos de biscoitos sortidos – entre os quais os saborosos Seara’ – peras (e também maçãs) embrulhadas no papel roxinho de sempre, e tantas outras iguarias?

E as muitas revistas de histórias em quadrinhos? E os livros que, apesar de amarelados de tanto terem sido usados, eu – já a esta altura, razoavelmente, alfabetizado – muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais do Arsène Lupin ou romances, como o inesquecível Robinson Crusoè do Daniel Defoe) livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade.

Caixa de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente, de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele pudesse escapar daquela vidinha humilhante de órfão na Escola-Prisão.

Foi como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala, explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.

Finda a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo e da colcha encardida de nosso beliche.

Andei com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos de menino rico por um dia.

Foi logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu um covil bastante seguro.

Gelei quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos. Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um homem não chora.

Minha mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O trauma da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.

Os meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram sonhos muito reais. Difícil aceitar que não fossem a mais pura realidade.

Dava um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.

Assisti a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos, quase filmes, sobre Liberdade.

(Memórias e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)

Assim, como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um velho projetor Bell & Howell 16mm.

E nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.

A roupa do Guri

Era uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do pátio.

Me enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres apontados para a assistência muda.

O ‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica, porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.

Talvez, não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer, inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos, rabiscos, estas coisas.

Se podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.

Não sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo, de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro, aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar, eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:

Um galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz. Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma, chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda ancorado ao largo.

E lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado pela intrigada garotada.

O mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu inspirado antecessor (como numa disputa de artistas plásticos emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem uma pisadinha sequer.

O turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento jogo da ‘Carniça’ predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de fim de tarde ou alguma garoa.

Era como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada – e quase inacreditável – iconografia infantil.

—————

O ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão. Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia destes acontecer de ninguém da família aparecer.

A roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.

O macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar banho.

Éramos organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração de heroísmo explícito.

O líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido) engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões!

Cada um de nós tinha uma escova de dentes que era, cuidadosamente afiada em alguma superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque como os dos presos adultos.

Assisti a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais em disputa por território ou comida.

Quando um dos dois era atingido gravemente pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz), gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a consagração do vencedor:

_’Tirou melado! Tirou melado!’

Outra imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A ‘formatura’ era rígida e marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo, cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados reais.

_ Pelotão…Sentido!
_ Cobrir!
_Descansar!
-Ordinário…Marche!

Para mim, pensando bem, até que a ‘formatura‘ não era assim tão ridícula porque, logo depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das músicas que cantávamos.

O repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas da época, hinos cívicos tradicionais,’‘qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos’. Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos, entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos. Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi escuridão do pátio ao anoitecer.

Ninguém nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de Anhangá que fugiu:

…Ó manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá! Hê!Hê !
Ah! Ah! Foi você
quem me fez sonhar…’

————–

Não que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo, praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma diligente professora e só.

Nossa referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos, a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como gravetos.

Os inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres) eram, pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jitsu. Lembro de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos ‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira, com a qual gostava de acertar o vão das orelhas dos rebeldes incorrigíveis.

Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade que os criara. Que Deus os tenha.

É deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:

Numa formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos, sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro por cerca de quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas, pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor, deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.

A intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM que, ali por volta de 1959, parecia prestes a ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV.

Dos motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente, transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano, Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão principal.

Na visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que não dava mais para ficar ali.

É esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:

O bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente, a mesma música da fuga dos outros.

Música dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.

Minha honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única matéria que realmente merecia ser aprendida.

Escapar íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas remotas memórias, para sempre felizes por serem eternamente infantis.

Spírito Santo
Fevereiro 2008

Cinema em Branco & Preto -Take 01


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons

Imagem popular: Visibilidade zero

(Exterior/Noite)

Entre outras e mais dramáticas consequências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma espécie de perturbadora “impropriedade estética”, causada pela contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.

Por que nos espaços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?

Acreditem, esta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias. Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema está invisível é porque ele não está acontecendo ou simplesmente jamais existiu.

Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia – expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em espelhos simbólicos – tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo essencial de nossa personalidade: nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio estético irretocável.

Racismo é pouco – e vago – para definir esta estranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa autoimagem. Que diabo de paranóia seria esta? Por que ficar durante séculos como uma espécie de “país michael jackson”, tentando esconder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes? Seríamos uma sociedade acometida por uma espécie de vitiligo moral?

Você viu quantas vezes, nos livros escolares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes? E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a escalação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro escalão do atual governo do país?

Como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?

Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia a dia, o merchandising rasteiro, o jingle espirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.

Neste jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro. A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime “organizado”, do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido pela jovem favelada de shortinho leg, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale: a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).

Para distensionar os ânimos e os espíritos, no restante desta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais espaço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos: belas mulatas – geralmente sós –, jovens negros musculosos – acompanhados por falsas louras desinibidas – mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens “etnicamente corretas”, no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o Outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da escravidão. É coisa de gente normal, isso?

Câmera discreta

Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia a dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social – muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista –, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão e na ocupação do Iraque.

Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais? Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos? Claro que não.

Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, escondidas dos olhos das pessoas “de bem”.

Um conjunto de elementos estéticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial são, portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo – ou não recomendadas – aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.

E quem seriam neste contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil? São aqueles 30% que estão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do Outro.

A questão básica portanto passa a ser: por que, no contexto desta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm – uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social – o componente étnico, racial é tão determinante? Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como esta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70% restantes de não-brancos?

Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado? O que podemos fazer com esta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir? Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniquidade?

Deve ser por isso que, do ponto de vista estritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria esmagadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitum, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.

Na literatura, entre a mais recente exceção à regra – Paulo Lins – e a última já se vão mais de um século. Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores escritores, ambos negros: Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.

E é nesta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.

(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama nos takes 02 e 03 desta história meio ‘film noir’. Desliguem os celulares, por favor)

Leia neste link o post 02 desta série:

Spírito Santo
Dez 2008

(Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003 e, posteriormente em www. overmundo.com.br)

CINEMA EM BRANCO & PRETO / take 3


Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob um licença Criative Commons
Creative Commons License

(Leia também os takes 01 e 02 )

Negativo revelado

”Um historiador chamou o período silencioso no cinema no Brasil (introduzido em 1898 pelo italiano Affonso Segretto) de “a bela época do cinema brasileiro”, dada a quantidade e diversidade da produção. …mas do ponto de vista do negro brasileiro, isso conta muito pouco. O cinema mudo coincide exatamente com o período áureo das teorias racistas, quando as religiões afro-brasileiras eram perseguidas pela polícia, e os mulatos claros usavam pan-cake para parecer brancos. Houve portanto poucos registros de negros em documentários.

Apesar da patente invisibilidade do negro nos documentários de nosso período silencioso, aludida e lamentada aqui por João Carlos Rodrigues, talvez já se tenha dito, anteriormente, que a rigor não pode ser considerada, de modo algum, incipiente- ou mesmo insuficiente – a presença da imagem do negro no cinema brasileiro de ficção.

Já nas imagens inaugurais desta nossa cinematografia ‘posada’, o negro estava lá, de alguma forma impresso. A lista de filmes é extensa, a ponto de podermos afirmar, com razoável convicção que, do ponto de vista essencialmente imagético, nunca houve, exatamente, racismo no cinema brasileiro.

Não conheço ninguém que tenha assistido, sequer a um fotograma do documentário (um docudrama talvez) “A vida de João Cândido, o marinheiro“, realizado segundo as poucas fontes disponíveis em 1912, com direção de Carlos Lambertini e, sabe-se lá talvez, inspirado no O encouraçado Potenkim’ filme clássico de 1906, realizado pelo russo Sergei Einsenstein.

Por conta da insuficiência de fontes aliás, o filme sobre João Cândido, acabou se confundindo com o documentário ‘A revolta da Esquadra’ também identificado como sendo de 1912, sensacional furo jornalístico do cinegrafista Alberto Mâncio Botelho (único fotógrafo a conseguir entrar no encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da Revolta) que conseguiu entrevistar João Cândido líder dos amotinados da Marinha de Guerra, contra os castigos corporais.

É lícito se supor inclusive, que a maioria – senão todas – as imagens disponíveis hoje deste grande momento da história do Brasil, tenham sido registrados pelas câmeras deste grande precursor do documentarismo brasileiro que foi Alberto Mâncio Botelho.

Pois saibam que “A vida de João Cândido, o marinheiro” foi o primeiro filme censurado e proibido no Brasil por motivos políticos (certamente junto com o ‘Revolta da Esquadra’ de Botelho). A engrandecê-lo mais ainda, o fato de ter sido também o primeiro filme de ficção, no qual o negro apareceu como protagonista de sua própria história (não se tem a informação se os atores eram brancos pintados. Vamos acreditar que não).

…”Os atores (no tempo do cinema mudo no Brasil) ainda eram brancos pintados, como os minstrels americanos. Esse costume persistiu até bem mais tarde. No cinema, o verismo exige negros verdadeiros, e assim surgiram os primeiros atores profissionais, vindos dos palcos : Grande Otelo, Pérola Negra, Chocolate – os pseudônimos já ostentam a etnia, informando antes mesmo da própria imagem do intérprete. Mas seus personagens não cresceram de importância.”

Caras imagens esparsas de filmes invisíveis.

Além do imperdível ‘Encouraçado Potenkim’, alguns de nós já assistiram, contudo a pelo menos algumas das impactantes imagens de ‘O Nascimento de uma nação’ (The Birth of a nation ou, originalmente, The Clansman) de David Llewelyn Wark Griffith (D. W. Griffith), talvez a mais veemente propaganda racista já exibida pelo cinema, lançando as bases para a recriação da organização terrorista Ku Klux Klan, grupos de brancos que promoveram muitos linchamentos e enforcamentos de afro-americanos nos Estados Unidos.

Embora o filme de Griffith tenha sido um divisor de águas, lançando revolucionárias técnicas para a linguagem cinematográfica do futuro, surpreendentemente, no plano ideológico, estas imagens, ao que tudo indica, não tiveram relação direta alguma com o tema da invisibilidade do negro na mídia brasileira (no cinema inclusive).

As controversas ideias levantadas pelo filme, lançado no já distante ano de 1915, parecem ter somente entre nós – guardadas as devidas proporções – alguns tardios adeptos, veementes opositores das políticas de cotas e ações afirmativas no Brasil, cujo pensamento, ainda que de forma simbólica, pode ser alinhado com este emblemático trecho da sinopse do filme de Griffith publicada pela Wikipédia:

…”A controvérsia que o filme causou gira em torno da premissa de que a primeira Ku Klux Klan restauraria a ordem no sul do pós-guerra, que estaria “ameaçado” por afro-americanos “incontroláveis” e seus aliados: abolicionistas, mulatos e republicanos do norte.”

O fato é que, navegando num mar encapelado de preconceitos estéticos ligados ao biotipo de nossa população, não sabemos ainda a que atribuir esta hospitaleira ilha de diversidade cultural, este inesperado apego, quase fraterno, sempre existente em nosso cinema de ficção pela imagem do povo e do negro, em particular.

Atraído pela imagem de negros e despossuídos, tanto quanto pela pitoresca e dura vida de nossa população ‘carente’ em geral (cujos temas estão sempre presentes nos roteiros, desde os primórdios), este cinema foi sempre bastante popular (ou popularesco), desde a escolha de seus story lines, baseados desde o início em rumorosos casos que eletrizaram a maioria da população, sendo protagonizados por pessoas comuns, até a franca adoção de um conceito de ‘casting’ sem preconceitos biotípicos ou raciais aparentes.

Talvez a pista mais importante desta solidariedade do Cinema para com a imagem do negro do Brasil, a despeito do deslavado racismo das outras mídias, deva ser buscada em outras plagas, bem mais próximas de nós: A colônias italianas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Com efeito, ao nos debruçarmos sobre a bases que formaram o nosso cinema, esbarraremos, fatalmente, numa lista enorme de ‘carcamanos’ emigrantes, gente simples, humilde e empreendedora que, construiu aqui praticamente tudo que precisávamos para ter cinema brasileiro.

De Paschoal, Gaetano, Alfonso e João Segreto, passando por Paulo Benedetti até Rogério Sganzerla, são centenas os nomes de italianos e ítalo-brasileiros envolvidos na arte de fazer filmes no Brasil, inventando equipamentos, processos fílmicos, dirigindo, cinegrafando ou atuando, a importância destes europeus na fundação de nosso cinema foi decisiva.

Empreendedorismo, pitadas de Anarquismo, de Comunismo, Socialismo e, logo mais adiante, Neo realismo, eis o que seriam as lentes abertas para a negritude em nossa cinematografia.

“ Fita apreendida

No dia 27 de junho de 1926 o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria intitulada Exploração ignóbil. Um filme deprimente para o Brasil preparado pela companhia Dramática da Atriz Italia Almirante. A longa reportagem relata a apreensão de um rolo de filme com cerca de 150 metros cenas de batuque que foram feitas no Jardim da Aclimação, supostamente passadas numa senzala de uma fazenda de um nababo português.

“Em certo ponto, um artista não se contem e, por pilhéria, arrebata uma pretinha e sai com ela, dançando. Os dançadores se alvoroçam e o chefe do batuque separa o par, com ar feroz. Mas isso não o satisfaz e para vingar-se vai ao grupo de artistas, tira uma atriz e sai com ela, a dançar. Embalde os colegas tentam arrancá-la daqueles braços, da sanha daquela multidão andrajosa, suada, de catadura hedionda. Estabelece-se a luta.

E, aos gritos de toda a gente, aparece o fazendeiro, de botas, chapéu largo de cowboy, um tipo anacrônico, que arrebata a moça das mãos do preto, atira por terra o agressor e corta-o de rebenque, surdo às imprecações feitas de joelho. Enquanto o companheiro apanha os pretos fazem esgares de pavor”.

         (Em ‘Italianos no cinema brasileiro’ artigo de Márcio Galdino)

Positivo velado

Amir Labaki escreve:…”Numa conversa com Vinícius de Moraes, que o guiava para conhecer uma favela no Rio de Janeiro, Orson Welles fez um comentário sobre o que via, direto e profético:

_ “É um Frankenstein. É um monstro que vai se voltar contra vocês.”

Havendo sido criado por volta de 1940, pelo governo brasileiro o Dia da Raça, no qual se criava o conceito algo eugenista da fusão harmônica de ‘três raças tristes’ (brancos, negros e índios, nesta ordem), havia uma intenção oficial de difundir a imagem de que o país era habitado, principalmente, por brancos, com uma taxa mínima de negros e mestiços (intenção a rigor, válida até os nossos dias, notadamente, entre racistas enrustidos)

Foi este, sem dúvida, um dos principais fatores que contribui para a ditadura Vargas acionar o Departamento de Estado Americano e provocar a interrupção do documentário It’s all true, que o festejado cineasta Orson Welles realizava no Brasil em 1942, descrevendo, principalmente, a saga de um grupo de jangadeiros liderados por um homem chamado ‘Jacaré’, do Ceará ao Rio de Janeiro, para denunciar ao governo brasileiro suas péssimas condições de vida.

Segundo o Departamento de propaganda do governo, Welles enfocava, demasiadamente, em seu filme, os negros e a cultura afro-brasileira (no caso, nordestinos – cafuzos para alguns – com a pele queimada de sol e favelados negros do Rio de Janeiro).

É ainda Labaki quem comenta:

…”Em 19 de maio de 1942, já filmando nas praias cearenses, advém a tragédia. A mesma jangada original da ida ao Rio foi virada por uma onda forte num dia de mar bravo. Os quatro homens caíram na água. Jacaré submergiu, voltou à tona, pediu socorro, nadou desorientado mar a dentro e desapareceu. Seu corpo jamais foi resgatado. “Jangadeiro deve morrer no mar” foi a manchete caimmyana de um jornal, atribuindo a citação ao próprio Jacaré.”

…Pressionado por todos os lados, com produtores descontentes com a extensão das filmagens, e políticos de cá e de lá furiosos com a ênfase na pobreza e na negritude do episódio sobre o Carnaval, Orson Welles terminou o que viera fazer e deixou o Brasil para nunca mais voltar.

Jamais concederam-lhe a oportunidade de finalizar “It`s All True”, editado parcialmente sete anos depois de sua morte.”

Banido, tornado quase invisível, durante muitos anos, os negativos do filme foram recuperados, mostrando imagens épicas fantásticas do nordeste brasileiro, com o movimento impressionista das velas e das ondas do mar do Ceará e da então capital federal, com fortes e trágicos contrastes e nuances de preto & branco.

Visto hoje, com distanciamento, ‘It’s all true’ nos aparece como um legítimo filme brasileiro, tão grande a influência que, sabe se lá por que mágicos meios, imprimiu em nossa filmografia posterior, notadamente no cinema de Glauber Rocha. Talvez fosse mesmo uma tendência, um fenômeno cinematográfico amplo e recorrente, num mundo que, bafejado pelos ventos abrasivos da guerra, impulsionava o cinema, inapelavelmente, para a reflexão em imagens, de valores universais essenciais, tais como a solidariedade humana, a diversidade cultural e a luta contra o racismo, a intolerância e a miséria, seja onde estivessem.

Ventos que, geraram em suma, o movimento denominado Neo-Realismo‘ italiano, famoso movimento cultural surgido no pós guerra cujas maiores expressões foram (olha a Itália de novo aí, gente!) Rosselini e De Sica.

Mesmo com o advento do Cinema Novo (segundo se diz, criado por Humberto Mauro) o cinema brasileiro segue tributário dos italianos.

Se algum pai houve não se sabe ao certo, mas, talvez ‘la Mamma’ de nosso cinema moderno tenha sido mesmo esta avassaladora influência neo-realista de De Sica e Rosselini, em seu amor desmedido pela imagem idílica do povo da itália, escurecido pelo sol do Mediterrâneo e entidade vítima de algozes muito cruéis (o nazi-fascismo que morria e o imperialismo capitalista que surgia voraz), num contexto de caos social impactante. Talvez tenha navegado por estas ondas portanto, a relativa aceitação de uma certa negritude em nosso cinema.

Mas, é bom se frisar que este Neo Realismo brasileiro, se impõe mesmo é com o lançamento de Rio 40 graus de Nelson Pereira dos Santos e, logo após, com Rio Zona Norte, do mesmo autor, seguidos pela série Cinco Vezes favela‘, filme produzido pelo vanguardista CPC da UNE (no embalo lançando os cineastas Leon Hirszman, Cacá Diegues  e até o Eduardo Coutinho – cujo filme ‘Cabra marcado para morrer’, da mesma época, por conta do golpe militar ficou inconcluso).

Reveja o cinema de Glauber Rocha e observe nos formidáveis planos-sequências, aquela visão de um povo heróico e retumbante, esturricado de sol e sede, enfrentando, estoicamente, as agruras da natureza e do cruel capitalismo anglo-saxão.

Isto tudo exposto, podemos dizer que sempre houve uma substancial presença de negros nas telas de cinema do Brasil sim, mas, não nos furtemos em perguntar:

_Como assim?

Vejam talvez que esta, talvez seja uma história boa demais para ser verdade. No cinema, como no Brasil, ‘nem tudo é verdade’.

Alma no olho

João Carlos Rodrigues, em seu livro aqui citado O negro brasileiro e o cinema – enumerou 12 arquétipos (ou estereótipos) invariavelmente, disponíveis para atores e atrizes negros no Brasil. Os mais importantes são os seguintes:

O Preto Velho, o Mártir da escravidão, o Nobre Selvagem, o Negro Revoltado, o Negro da Alma Branca (trágico elo entre oprimidos e opressores ), o Crioulo Doido (equivalente assexuado e cômico do Arlequim da Commedia dell’Arte ), a Musa Negra. Há dois com uma nítida conotação sexual exacerbada :O ameaçador Macho Negro ( Negão ) que povoa os sonhos racistas com estupros e violências ; a Mulata Sedutora ( Uma espécie de mulher-objeto cor de chocolate, desejada por todas as raças).

Na obra de João Carlos, todos os personagens negros e mulatos da ficção brasileira se enquadram em uma dessas categorias.

Assisti, por acaso, um dia destes, ao excelente e bem realizado ‘Também Somos Irmãos’, drama de José Carlos Burle com Grande Otelo, Aguinaldo Camargo, Agnaldo Rayol, Ruth de Souza e Jorge Dória, produzido pela valorosa companhia de cinema Atlântida em 1949. Embora velados, muitos dos estereótipos enumerados estavam lá.

Já foram de algum modo citados também outros filmes emblemáticos – com ou sobre negros – aqui mesmo nesta série. Entre eles Assalto ao Trem Pagador de Roberto Farias, Ganga Zumba (1964) de Carlos Diegues, Compasso de espera, direção de Antunes Filho (que conta o drama de um intelectual negro representado por Zózimo Bulbull, na megalópolis São Paulo, tentando integrar-se na sociedade branca). Podemos citar também Bahia de todos os santos (1960), de Trigueirinho Neto, Sinhá Moça (1953), direção de Tom Payne e Osvaldo Sampaio, O amuleto de Ogum (1974) e A tenda dos milagres (1977) ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, além de Xica da Silva (1976) e Quilombo de 1984 (o mito de Ganga Zumba de novo, também com a direção de Carlos Diegues, desta vez como super produção neo-tropicalista) e o digno Chico Rei (1985), de Walter Lima Junior – do qual este autor que vos fala, orgulhosamente participou, escrevendo a trilha sonora com seu grupo Vissungo (Wagner Tiso escreveria a trilha ‘branca‘, europeia) e coordenando grupos de congada na cena final.

Nesta vasta filmografia, dois fatos saltam aos olhos: Diretamente ligados à história, aos dramas, e ao modo de ser dos negros do Brasil, nenhum destes filmes foi dirigido por um diretor negro. Segundo: talvez por esta prosaica razão, em todos eles, de algum modo, os personagens negros são esquemáticos, estereotipados ou idealizados, quase sem nenhuma diferença do quadro de ‘arquétipos’ enumerado por João Carlos Rodrigues acima.

É fato também, portanto que o negro brasileiro está no cinema apenas com o corpo. Não está presente a sua alma. Seus olhos não se reconhecem nestes corpos travestidos por estereótipos os mais diversos, uns frutos do preconceito ou da ignorância, outros fruto da arrogância elitista de certa classe cinematográfica voltada excessivamente para uma visão estreita de nossa sociedade, contaminada por nossos vícios racistas mais recorrentes e sempre, renitentemente, presentes. Uma alma, senão branca, desvirtuada pela visão esquemática do filtro torto, com o qual a maioria de nossos cineastas enxerga a alma do negro (e, por extensão, dos pobres do Brasil).

As exceções a esta enigmática invisibilidade da alma do negro, dirigindo-se a si mesmo, em nossas telas, são poucas, entre elas, Cajado Filho (1912 – 1966), cenógrafo e roteirista de dezenas de filmes de sucesso, que dirigiu cinco longas metragens entre 1949 e 1958, todos infelizmente desaparecidos. Foi quase certamente o primeiro diretor negro do cinema brasileiro segundo João Carlos Rodrigues.

Com um hiato de muitos anos, temos também ‘As Aventuras amorosas de um padeiro’ de Waldir Onofre (cineasta que narra a alma suburbana da zona Oeste do Rio) ,’Alma no Olho’, de Zózimo Bulbull (Jorge da Silva), além de títulos esparsos por aí, a maioria de cineastas negros iniciantes, unidos, recentemente pelo Centro Afro Carioca de Cinema, criado por Zózimo Bulbull e Biza Vianna que, a partir de referências seminais do cinema africano, do senegalês Ousmane Sémbene, do nigeriano Ola Balogun (que filmou no Brasil nos anos 80 A Deusa Negra) e de Zezé Gamboa (prêmio do júri no Sundance Film Festival, em 2005), entre outros, todos reunidos num concorrido festival realizado no Cine Odeon (entre outros espaços), no Rio de Janeiro em novembro de 2007 e 2008, almejam quebrar o paradigma da ausência da alma negra no cinema do Brasil.

Dogmática feijoada

Na crônica das incongruências que este grupo de cineastas negros almeja superar, no intuito de provar que as idiossincrasias da alma popular brasileira (vale dizer a alma dos ‘não brancos’ do Brasil) não tem sido bem descrita pelos filtros do nosso cinema tradicional, existem casos clássicos, muito discutidos por seu caráter assaz constrangedor, como por exemplo, a salada antropológica, de cunho, grotescamente, tropicalista e gosto duvidoso (até como cinema) com que o sempre festejado Cacá Diegues tratou o Quilombo de Palmares, emblema de um episódio caro a alma libertária de todos os brasileiros (travessura estética repetida em 1999 no – vá lá – ‘pós modernista’ Orfeu com Toni Garrido).

E nem precisávamos falar também da, certamente bem preparada e articulada mulher que foi Xica da Silva, transformada em mera ‘mulata’ lasciva, quase prostituta, por – de novo ele – Cacá Diegues, o renitente cineasta que filmara também, alguns anos atrás, a imagem risível no filme Ganga Zumba de uma escrava africana usando hennè nos cabelos (Luiza Maranhão, grande atriz de tantos filmes emblemáticos como o já citado Assalto ao Trem Pagador).

Mas, quem se importava com estas continuístas filigranas de foco e enquadramento àquela altura dos acontecimentos, tomados que estávamos pelo sonho ufanista de termos com a Embrafilme, enfim, uma indústria cinematográfica de peso? Definitivamente, não pegava bem naquela época, falar mal do cinema nacional.

Felizmente, panorama cinematográfico brasileiro neste aspecto tão vexatório, neste cipoal de impropriedades estilísticas, pode estar prestes a mudar com a mais recente e incisiva – pelo menos como atitude – incursão representada pelas ações afirmativas tocadas, à própria conta e risco, por um grupo de cineastas e estudantes de cinema de São Paulo: O Dogma Feijoada.

Liderada pelos, relativamente, jovens cineastas paulistas Jeferson De e Noel de Carvalho, O Dogma Feijoada é uma ação que reúne cerca de 13 cineastas negros paulistas, a maioria representantes de uma inédita geração de alunos de cursos regulares de cinema, animada a quebrar os tabus conceituais e ideológicos mais recorrentes neste assunto, com muita disposição, embora ainda se baseando em ideias – apesar de, saudavelmente provocativas – em sua maioria, um tanto ou quanto insuficientes (redundantes até) – segundo se pode avaliar pelas sete ‘dogmáticas ‘ cláusulas que expomos a seguir:

‘Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada

1- O filme tem de ser dirigido por um realizador negro brasileiro;
2- O protagonista deve ser negro;
3- A temática do filme tem de estar relacionada com a cultura negra brasileira;
4 -O filme tem de ter um cronograma exeqüível. Filmes-urgentes;
5- Personagens estereotipados (negros ou não) estão proibidos;
6- O roteiro deverá privilegiar o negro comum brasileiro;
7 – Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados. ’

Mesmo considerando que – nem mesmo como ironia ou brincadeirinha com dinamarqueses- não se quebram paradigmas com dogmas (dogmática mesmo é a prática dos que estão do outro lado ) só nos resta desejar que, a partir desta entusiasmada galera do Dogma, a moviola simbólica deste nosso ainda inacabado filme noir (que por aqui, sem o menor suspense, parece sempre rodar para trás) avance mesmo, rumo a um cinema brasileiro completo em gentes e nuances; rico, com heróis e vilões sem máscaras ou pankaques; um cinema colorido, diversificado em temáticas e arquétipos, feito por todos e Paratodos (como o nome daqueles cine ‘poeiras’ de interior).

Enfim, sem mais delongas vulgares ou ‘The ends’ bregas e, sobretudo, sem ‘_ Óticas do povo, morou?’, só me resta gritar à guisa de corte final:

_Luzes, Câmeras e…ação!

Spírito Santo

Dez 2008

(Leia também os takes 01 e 02 )

CINEMA EM BRANCO & PRETO / Take 2


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons1229206214_howard_and_mack_comedians1

Cinema para quem precisa

Interior/Dia

Voltando a nossa boa conversa do Take 01 desta série, o fato é que, para sermos justos, foi nas dimensões hospitaleiras do veículo cinema, da tela grande, que se asilaram e se tornaram visíveis muitos atores não-brancos fabulosos deste Brasil.

Neste âmbito de dramas empolgantes, tivemos Eliezer Gomes, o Tião Medonho (do clássico Assalto ao trem pagador de Roberto Farias), que foi também o caseiro psicopata de Anjo da Noite, de Walter Hugo Khouri, e o escravo-cavalo de Jeane Moreau (em Joana, a francesa de Cacá Diegues). Um ator autodidata, de ‘dimensões shakesperianas’, segundo disse um crítico na época, mas, quem se lembra? Pelo visto, poucos.

Belo e bravo cinema do Brasil. Bucólicas ou violentas imagens, suburbanas ou rurais, às vezes sagas grandiosas, nas quais os não-brancos apareceram sempre com a alma de certo modo inteira.

Generoso e ainda efêmero cinema nacional. Sempre tão precário como indústria.

De Bulbul à la Diniz

Se de vez em quando um mea-culpa doloroso é carpido pelos cerca de 30% de incluídos, geralmente isto se dá nas telas do cinema. É neste momento – como num rápido trailer – que a imagem dos 70% mais ‘feios’ aparece gloriosamente colorida, incômoda e corrosiva, tanto aplacando talvez culpas internas (como autoflagelação de mentirinha), quanto desmascarando, internacionalmente, nos Hollywoods e Berlins da vida, a cegueira extrema daquele Brasil ‘branco’, sarado e siliconado, que não cansa de olhar o outro Brasil pelo retrovisor.

O pior é que, ao que tudo indica, o grande e perturbador aspecto do problema não é ainda este. A coisa é ainda um pouco pior. Pasmem se ainda puderem mas, pelo que se vê exposto nesta mídia, é quase que, totalmente, ‘branca’ também a maioria das pessoas comuns visíveis, os transeuntes flagrados por câmaras fotográficas ou de TV, dando opiniões e entrevistas, frequentando praças de alimentação de shopping centers.

São também, majoritariamente, ‘brancos’, do mesmo modo, os frequentadores de bibliotecas, de cibercafés (lan houses de favela não contam, é claro), de bares genéricos ou temáticos, de centros culturais, assim como o são os professores universitários, os aposentados com dignidade, os funcionários públicos acima do último escalão, as socialites autênticas ou emergentes, as recepcionistas de lanchonete ou de butique, os modelos e manequins, os praticantes de cooper na orla, os ciclistas e motoristas de fim de semana, até os mortos nos acidentes de trânsito o são.

É sempre incrível para os estrangeiros que nos visitam, mas também é ‘branca’ a maior parte dos espectadores de cinema e teatro, os atletas de esportes radicais, assim como também são brancos a maioria das prostitutas do calçadão, os jogadores de frescobol, de voleibol, de basquetebol. Cá entre nós, já notaram que são cada vez menos negras também, até as empregadas das telenovelas?

Milton Santos, o brasileiro que chegou a ser considerado o maior geógrafo do mundo (ele mesmo, um dos muitos invisíveis gênios negros deste país), costumava perguntar onde estaríamos escondendo os nossos milhões de não-brancos. Em guetos infectos como na antiga África do Sul? Seriam mesmo guetos infectos as nossas milhares de favelas? Ou não?

A relativa invisibilidade de não-brancos em nossa televisão, aliás, é um episódio digno de várias novelas. Desde o tempo do dramalhão A cabana do pai Tomás, no qual ator Sérgio Cardoso apareceu pintado de preto, passando pelo beijo – até hoje escandaloso – do crioulo Zózimo Bulbul na ‘loura’ Leila Diniz, pouca coisa mudou.

Corte / Tela escura / Silêncio

O impressionante Aguinaldo Camargo, o nunca demasiadamente citado ícone Grande Otelo, Milton Gonçalves, Antônio Pompeu, os saudosos Marcos Vinícius, Norton Nascimento e Paulão Barbosa; Cosme dos Santos, Luiz Antônio Pilar, Maurício Gonçalves, Roque Pitanga, Lui Mendes, entre outros, são parte de uma dinastia de duas ou três gerações que, com raras exceções, sempre representou eternos estereótipos do bandido, do policial, do porteiro, do traficante, do motorista e, quase sempre, do indefectível escravo doméstico, assim meio Uncle Thomas, meio Pai João (escravo rebelde de novela, sempre morre sozinho, abandonado pelos irmãos de cor e de infortúnio).

Também para duas gerações de atrizes a mesma galeria de tipos chapados, estereotipados. Ruth de Souza, Léa Garcia, Chica Xavier, Zezé Mota, Neuza Borges, Zezeh Barboza, Iléa Ferraz, Mariah da Penha, Isabel Fillardis, Thaís Araújo, Maria Ceiça, Cida Moreno e – vá lá – Camila Pitanga, entre tantas outras, revezam-se em papéis similares, geralmente jovens mucamas oferecidas, velhas escravas resignadas (ou alegres e prestativas domésticas). Às vezes, para variar, desbocadas prostitutas.

A não ser quando representando escravos de alguma senzala de padrão global, os atores negros de nossa teledramaturgia quase nunca são ocupados assim, em grupo, em núcleos (como ocorreu aliás uma vez, quando uma família negra de classe média exibiu seus um tanto descoloridos conflitos na TV).

Geralmente as telenovelas, quando existem papéis específicos “para negros”, costumam ocupar de cada vez, apenas um ou dois atores ou atrizes negras “de plantão”. Este plantão envolve sempre a mesma galeria de personagens estereotipados citados, o que faz com que a carreira de ator ou atriz para negros no Brasil seja uma atividade de pouco ou nenhum futuro, atraente apenas para os loucos mais abnegados.

A natureza e a dinâmica dos mecanismos que acionam esta invisibilidade a que estão relegados os não-brancos em nossa teledramaturgia são dois grandes mistérios de nossa sociologia.

Tudo nasceria de um acordo tácito entre teledramaturgos? Seriam mecanismos regidos por secretos memorandos internos trocados entre a alta cúpula das emissoras? Estariam baseados em estratégias de comercialização, em pesquisas de mercado nas quais o consumidor não-branco apareceria como um segmento desinteressante ao mercado? Ou seria culpa da desmobilização política da classe, do conjunto de artistas negros, da opinião pública não-branca deste país?

Talvez seja esta a faceta mais cruel do racismo à brasileira: seu caráter de omertá, a lei do silêncio, instituição fantasmagórica, mas, onipresente, rígida e complexa apesar de não estar escrita; tácita; sórdida porém tolerável; seguida à risca por uma multidão de cúmplices, beneficiários de uma injustiça impossível de ser inteiramente identificada e compreendida pelas vítimas, porque não pode ser atribuída diretamente a ninguém, já que todos os indivíduos que a praticam aprendem, desde de criancinhas, a repetir o surrado discurso que diz:

“Se há racismo, os racistas são os outros”.

Plano Americano

Corte

De todo jeito, se todos nós sabemos que um rostinho levemente europeu definitivamente não corresponde ao perfil étnico da maioria de nossa população, o que estaria havendo então? Algum tipo de loucura, de neurose coletiva? Estaríamos vivendo todos um problema tão grave de autoestima que, mergulhados numa profunda crise de identidade, acabamos por nos atolar na paranoica negação de nossa própria imagem? Ou seria uma cínica e esperta “ação afirmativa” às avessas, algum corporativismo racista do tipo “primeiro o meu, depois o do judeu”?

Seja lá o que for, é bom que deixemos logo de ser brancos para sermos francos. Já não é possível encontrar inocentes neste roteiro de sutis omissões e comodismo interesseiro.

Se não nos surpreendemos mais com isto, indignemo-nos, pois!Dizem que um dia destes (bem antes da Obamania surgir, claro) um apatetado George W. Bush perguntou ao presidente do Brasil que o visitava:

_”É verdade que vocês tem mesmo negros por lá?”O ‘branco’ Lula, dizem, ficou vermelho e depois sorriu amarelo.Indignemo-nos pois, antes que, sem nenhuma imagem que represente a verdadeira cara do nosso Brasil cor de anil, em resposta a um destes Bushs da vida, só nos reste, dizer:

_ “Tivemos negros sim, mas, com o tempo, eles foram sumindo, sumindo…”

As conclusões mais enfáticas deste artigo, no plano de nossa vida cotidiana, no dia a dia, começam a carecer já de alguma revisão, no bom sentido. Tudo ainda muito incipiente, quase imperceptível. Contudo, seria este um reflexo das políticas de ação afirmativa, tão combatidas quanto ignoradas por nossa renitente mídia ligeira, sempre inerte e omissa como aquele cego que teima em não querer ver?

Deixando de lado este quase interminável rol de invisibilidades de nosso ‘apagão imagético’, siga então em frente e leia também os posts takes 01 e 03 deste eletrizante argumento.

Spírito Santo

Dezembro 2008