Os Caras



Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons

image

 

Um cara:

(Adrenalina a mil, trincadão, falando sem parar)

_ Aí, o seguinte: Perdeu, meu! Não levou fé e nem sentiu firmeza, né? Pensou que fosse esmola, foi? Tu tava era me achando assim um otário, um mané desses aí, qualquer nota, que estão sempre batendo cabeça, como se tu fosse um qualquer coisa dessas aí, assim, importante pra caramba, um doutor desses, das colunas de jornal. Percebeu o ferro? O cagaço prateado? O argumento frio do dedo no gatilho? E aí? Vai encarar? Quer sentir o cano duro na espinha? E agora? Gelou, não foi? Apertou o fiofó? Não passa nem agulha, certo? Dá pra ver pela tua cara de bundão, sem chão onde pisar. Seu merda.

Achou que eu era um cara bom, do bem, mas se danou, mermão. Eu sou mau, mau, mau, bem pior do que um pica pau, cheio daquelas picardias passadas pelas crueldades desta vida, sacumé? Muito pé descalço e sacanagem. Rodado. Sou o que sou. Vai fazer o que?

Abre! Abra a porra do vidro, anda! Achou que era um moleque desses de sinal, di menor ainda, inofensivo, só que meio grandão, não é? Algum sujinho, imundo, pacato malabarista de limão murcho? Errou no diagnóstico da parada, tu viu a situação, assim… de forma… cumé que tu diz?…equivocada, morou? Vacilou, doutor bobão. Já era.

Trabalhar é o caralho! Me arrepio só de dizer este nome feio, baixo calão, chulo, palavrão. Não sabia? Pois vira esta boca rota pra lá, rapá! Nem pensa. Li no teu olho. Deus que te livre e guarde. Nem pensa em pensar tal blasfêmia aqui, na minha frente, que eu posso até, de nervoso, raivoso, apertar o dedo em ti, e aí sim, tu babáu, morreu, seu língua solta. Vê se me tem respeito, tá legal?

Trabalho pra mim é chongas, palavra sem sentido. Pesadelo. Me dá ânsia de vômito só de me imaginar, cumprindo a maldita rotina de, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair…

Toda porra de dia.

Num meio tempo qualquer desses aí, aturar o mal humor da mulher caída, canhão, baranga, dragão, semi adormecida, que me acompanha na vida de cão cachorro sem vergonha que eu, se fosse um desses, relevaria, perdoando o mal humor dela, por que sei que ele vem daquelas bolhas ardentes que ela carrega no punho, feito um bracelete, bolhas e bolhas de óleo respingado da frigideira preta, de toda santa madrugada fritar aquele ovo mínimo e solitário, olhando, meio dormindo ainda, aquela porra de clara branca espalhada, aquele arroz branco empapado, achatado na marmita de tapeware esbranquiçada, aquela gema feito a coroa amarelo-dourada de algum rei de sonho, faminto rei torto do meio-dia, comendo sofregamente a sua comida, depois de cumprir metade de uma batalha de merda, sem glória nenhuma pra justificar a fome de leão.

Vomito só de pensar: Tomar um banho as cinco e as cinco quinze partir, pegar um ônibus cata-corno desses, lotado, empanturrado de otários e choacalhar pela Avenida Brasil, feito um côco ensacado, num saco mal amarrado, em tempo de rolar pelo asfalto e um carro atropelar, alguém chutar. Vê só. Olha pra mim… – não, não olha não, senão tu morre, mané! – Só pensa. Pára pra pensar: Dá pra eu me enquadrar neste perfil?

Detesto insufilm, não deixa eu ver tua cara. Abre! Abre logo a porra do vidro, caralho! Anda!

—————

_ Eu disse pra não olhar, pera lá…Que olhar de banda é este? Ai ai ai! Tá me esnobando, é, bebé? Tem grana aí? Já percebi. Filmei. Deu mole, mané. Ah, sim. Beleza! Então. Tanto melhor pra tu, seu babaca. Já tinha visto pela tua elegância de pato de galocha que tu é besta pra dedéu.

Ah, é? Não abaixa a crista não é? Então tá. Me dá, porra! Me dá logo este tablet! O celular também! Agora! Me irritou esta pachorra tua de levantar os olhos pra mim, tipo que nem é contigo, que não te interessa a vida do otário operário que eu te contei como é que era.

E se fosse mesmo eu, o tal do operário? E se fosse o meu passado que eu estivesse te contando assim, pra tu, na boa, na maior, confidentemente? Tu é frio, cara! Tu é sangue ruim, sangue de cazuza, logo se vê.

Tu não é um duro, certo? Não tivesses um qualquer aí, pra me dar, e ia ver só a merda em que estava se enfiando. Tiro na bunda, seu mofino filho da puta! E na cara. Duro tu seria um duro morto, agora mesmo – Foda-se! – Diria eu. Podes crer. Pra teu governo, por isto mesmo, não se esqueça e não se iluda com a parada.

Lembra que eu não sou, nem nunca fui e nem vou ser, jamais, este otário personagem bonzinho que trabalha duro. Destes que abaixam os olhos pra tu, arriam as calças pra tu, abrem a porta pra tu, servem cafezinho pra tu, que quase lambem o teu cú. Não.

Não sou. Sou de outra laia. Outra qualidade, morou? Sou o bicho solto, cão-raivoso-chupando-manga no meio da noite escura do teu destino de zé mané, que é o que tu é, bundão, bundão! Bundão! Mil vezes bundão!

Dou mais de mil graças ao céu de não ter sido nunca, nem de longe, um panaca assim triste e obediente como tu vai ter que ser agora, na hora de me dar tudo que tu tem aí, e que de hoje em diante será do malandro aqui, que sou eu, Euzinho da Silva.

Tá vendo os outros caras ali, de cobertura. São os meus ‘braços’? Pois é. É nóis. É eles e eu, o bam bam bam da parada, o dono de tudo aquilo que um dia foi teu. Ah, ah! Agora tu morou direitinho qual é a da parada. Morou ou não morou?

———————

_ Perdeu meu chapa! Passa o carro. A mala, a pasta, tudo! O quê? Que documento o caralho. Eu sei que tu tem uma grana preta aí, seu, mané! É ou não é? Tu acha que eu sou ladrãozinho de celular, é? Tira o terno. Sim é isto mesmo. É isto aí. Pelado no meio da rua. Humilde, uma mão na frente a outra atrás. O quê? A rua tá escura? Alguém pode te matar? Qualé, cumpádi? Tá cheio de cupincha teu aí, nos carros. Teu dia ainda não é hoje não. Se bem que, vivo ou morto tu já foi, mané! Tu já era. Agora é nóis!

Tchau. Te deixo vivo por que eu sou legal.

Fui!

————————

O outro cara:
(em pânico. No mesmo lance, pensando rápido num jeito de se safar)

Puta que pariu! Fudeu! É assalto. Só pode ser. Olha só jeitão do cara, me olhando. Parece até a porra um bicho armando o bote. Caralho de sinal que não abre. Olha só o tamanho do braço do negão, meu irmão! Forte pra caramba! Um armário, tirando esta onda de pedinte de rua? Sei não.

Escola, nem pensar. Não tem ânimo, não tem cara de ficar afim. Deve ter fugido da sala de aula de algum Ciep morfético desses aí, há mais de dez anos. Melhor fechar o vidro e fingir que não é comigo, que nem vi. Adianta o que pagar imposto? Me digam. Não tem um policial sequer na pista. A gente que é cidadão, fica assim, inteiramente, à mercê desses camaradas mal encarados. Nós, desamparados, sem ter em que se segurar, em que se valer.

O que ele está pensando? Que eu sou rico? Pô! Imagina. Técnico de contabilidade. Um ferrado, por assim dizer. E este Pálio, velho, caquético, é de rico, por acaso? Tá na prestação. Este mês nem deu pra pagar. E se eu dissesse que eu trabalho numa Ong que ajuda pra caramba esta garotada que, como ele, tá por aí ao Deus dará?

Será que cola? Tá legal. Mentira descarada. Minha mina é que trabalha nesta praia de Ong, trabalho que aliás ela detesta, coitada, mas, e daí? Quem é que vai saber?

Furada. Ele não está com nenhuma bolinha de tênis na mão. Nem limão. Nenhum nariz de palhaço, nenhuma flanelinha, nenhum rodinho de raspar sabão de parabrisa. O que é que ele tem ali? Parece um… é um… Ai meu Deus! Olha lá! Ele está portando um revólver, dá pra ver debaixo da camisa. Uma arma prateada. Caralho! Tô fudido!

_Tá doido! Abro! Abro, sim! Já abri, pronto!

Só mesmo dizendo pra mim mesmo: Controle-se! Segura a onda. Não faça nenhum gesto brusco. Ai que vontade de mijar. Puta que pariu. Pára de tremer, porra! Para de tremer, seu imbecil!

O problema da minha mina com estes caras é este aí. A verdade está aqui, na minha cara. A gente dá um montão de alternativas pra eles, dá aula de ética e cidadania, circo, teatro, música, o cacete a quatro. Explica o que é internet, word, excel, email, whatsapp. Tá certo, eles quase não têm computador em casa, mas, e daí? Televisão eles tem, não tem? Nós também não tínhamos computador, ninguém tinha.

A gente ensina como elevar a auto estima desses caras que, mal sabem ler e escrever e eles ficam marmanjos e acabavam se voltando contra a gente. Ingratos. Ora, que diabo. A gente faz o que pode. Se eles não tem trabalho a culpa é de quem? Nossa é que não é. A gente paga imposto pra ter tranquilidade e segurança. É ou não é?

Ai que vontade de mijar, caralho!

Trabalhar não quer, o vagabundo. Vai você, mesmo sem precisar, oferecer um biscatinho para um cara desses. Um serviço de pedreiro, um quintal pra capinar, umas sacolas de mercado para carregar. Pensam que ele aceita? Que nada. É soberbo. Se ofende. É o memso que xingar a mãe dele. Vai querer me bater, me matar. Afinal, alguém precisa dizer pra ele que todo trabalho é digno. A pessoa deve fazer o que pode para sustentar a família. A sociedade não pode ficar bancando vagabundo assim não. Onde é que a gente vai parar?

_Ai meu Deus! O que foi agora. Vai atirar? Vai me me matar? Calma! Calma! O que foi que eu fiz? Eu não falei. Eu só pensei. Fiz uma cara de que? Que cara?

Será que ele lê pensamento? Ai meu Deus! Mostra pra ele que eu não estou debochando de nada não. É o meu jeitão de ser. Fico assim quando estou em pânico. Pelo amor de Deus! Ai que vontade de mijar, caralho!

Ontem mesmo eu vi, de noitinha, uma mulher enfurnada num container de lixo catando papel, latinhas, garrafas Pet, o que pudesse. Deve vender o que arrecada à noite, pelos becos, pra poder comprar comida para levar para casa. É feio? É deprimente? Tá. É sim, mas, fazer o que? Aquele garimpo é o trabalho dela, ora. Trabalho honesto. Deus a recompensará um dia.

Eu mesmo, se tivesse uma situação melhor, se morasse numa Barra da Tijuca destas, da vida, pegava esta mulher e contratava como empregada doméstica. Já pensou? Honesta e trabalhadora como parecia ser. Um dia desses até carteira assinada ela ia ter. Depois, era só ir evoluindo, um aumentozinho aqui, outro ali, uma bolsa família para completar o orçamento. Ia longe a moça.

————–

_ Não! Não! Que é isto? Não atira não!

Ai me acuda, meu Deus! Ele tá puto! Deve estar drogado. Vai atirar! Vai atirar!…

_ Tá legal, toma o tablet, toma o celular, toma minha carteira, toma tudo logo!

Ladrão filho da puta. Ralei feito um corno pra comprar este celular de câmera. Este Tablet…

_ O que? Não! Isto não!

Não posso nem pensar. Ele pode desconfiar.

_ O que? Tá legal. Dou a pasta. Toma. O que? A mala não! A mala não!

Ai meu caralho. O dinheiro do caixa dois da empresa. Vai me fuder a vida! Vai me fuder de verde amarelo! Como é que vai ser? O patrão vai querer que eu dê conta. Vai pensar que eu armei com a porra deste ladrão.

_ Calma! Calma! Nada de pânico. Vou sair! Vou sair do carro! Calma!

Deus me ajude que ele não me mate.

_ O terno? As calças, toma! Toma o paletó, está bom assim? Ficar só de cuecas? Nem cuecas? Puta que pariu! Quer me desmoralizar de vez, me esculachar, cara? Quem são estes caras vindo aí?

Caralho! Lotaram o carro!

_…Ei! Já vou, já vou!…Tá bom, tá bom….Calma aí! Calma aí! Não vai não. Não vai não.

Pronto. Lá se foram. Fudeu.

—————

O que é? O que é vocês estão olhando. Nunca viram ninguém pelado não? Vão se fuder, vocês também. Vão todos pro caralho! Fizeram porra nenhuma para me ajudar. Ficaram aí, olhando, se cagando de medo. Mais de cem carros aí, parados, imóveis, no maior silêncio, assistindo eu me fuder, de camarote. Olha lá os ladrões filhos-da-puta com o meu carro. Liberou geral. Parece até que sinal abriu só pra eles. Alguém aí vai testemunhar a meu favor? O senhor? Não? A senhora? Também não? Seus escrotos! Eu sabia. Não precisava nem falar.

É por estas e outras que o Brasil não vai pra frente. Porra! Caralho! Cacete! Merda! Puta que pariu!

Spírito Santo
Setembro 2007 (com notas esparsas em 2016)

Brasil Bandido


Todo o conteúdo deste blog está assegurado por uma licença Criative Commons

Creative Commons License 1219547927_soldados_de_chumbo_marcos_carmona

(O post é velhusco pra caramba. Para ser exato, foi escrito antes mesmo de lançarem o primeiro filme Tropa de Elite. Com esta moda de UPPs, tanto quanto o filme o post parecia superado, mas eis que – ê brazilzinho dinâmico às avessas! – do nada volta tudo à vaca fria. A tentativa de explicar a história de nossa insegurança pública voltou então à baila. O chato é ter que dizer: Viu só? Eu avisei!)

Junte os pontinhos e veja o país da “transpolítica”

”…Pensadores pós-modernistas franceses inventaram o termo “transpolítica” para se referir ao ultrapasse da política tradicional por formas novas de esvaziamento da democracia representativa. A “parapolítica” é outra coisa: não um termo reflexivo, mas a realidade da transformação de ações marginais ou ilegalistas em poder político…”

(Muniz Sodré)

—————

Vocês podem dizer que não estão nem aí ou que não é com vocês, mas, as notícias mais eletrizantes da região onde moro são as seguintes:

Notícia Um (locutor mascarado de touca ninja):

– O mais cotado candidato a vereador, com chances de ser um dos mais votados do Rio é, todo mundo sabe, o chefe-gerente da milícia local (preposto de alguém que nenhum de nós conhece, um grande capo, pior que os do cinema, com certeza).

Notícia Dois:

O mais cotado candidato a ser eleito como prefeito da cidade é um senador, suposto bispo de uma milionária seita evangélica inventada ontem mesmo. A ideologia desta seita é meramente pecuniária, baseada que é na máxima do ‘é dando (dinheiro) que se recebe (dinheiro)”. Esta ideologia espertalhona paira hegemônica sobre os corações e mentes da miserável população carioca, como uma praga pior do que as saúvas citadas pelo Mário de Andrade.

Notícia Dois e meio:

Este poderoso senador apóia, entusiasticamente, o tal vereador miliciano, chegando até mesmo a defendê-lo chamando-o de ‘jovem honesto, esforçado e trabalhador’. Supõe-se, por óbvia dedução, que toda a máquina coercitiva das milícias, que domina já, a base de chacinas quase diárias, praticamente, toda a cidade ‘maravilhosa’, tenha o Senador como seu candidato preferido, amigo ‘do peito’.

Notícia Três (esta, apesar de velha, revista agora mesmo na TV, no programa eleitoral gratuito):

_ Este candidato a prefeito– e, por extensão, toda a sua eventual futura entourage de vereadores milicianos – é, segundo o reiterado depoimento do próprio vice-presidente da república, “o candidato preferido e do coração do presidente Lula”.

(Corte rápido. Pela minha assustada e conturbada mente passa, de relance, a imagem embaçada e trêmula de uma enorme fila de eleitores vestindo toucas ninjas)

—————

Que os sensatos e comedidos insistam sempre, pacientemente, que é muito mais recomendável (faz bem à saúde) focar com melhores olhos os pixels azulados e edificantes da rede, do que ficar remoendo os tons marrons da malha suja, onde estão entranhadas as chagas mais comezinhas do dia à dia torpe deste nosso país.

Eu sei. Eu sei. Eu sei.

É exatamente por saber de tudo isto que entabulei esta conversa para lhes falar, assim, no sapatinho, acerca da impressão que se tem de que o Brasil está gestando em si mesmo, um certo tipo de sociedade mucho loca, com sintomas daquelas carcomidas por interesses bandidos de todo tipo, divididas em guerras entre grupos políticos mafiosos, que confundem o trato da causa pública com seus mais inconfessáveis interesses, com o beneplácito, no início pragmático e, logo depois, acovardado dos cidadãos ‘de bem’.

Sabem a Itália siciliana? Sabem a Colômbia de Medellín?

Pois é. A realidade brasileira às vezes, é mesmo complexa demais, difícil de decifrar, não é mesmo? Se avexe não. Sabe aqueles joguinhos de ‘junte os pontos’, nos quais, depois de todos os pontinhos juntados aparece uma figurinha graciosa qualquer, um coelhinho, um gatinho? Faça como eu: Relaxe jogando um desses joguinhos?

Não se garante ao final graciosidade alguma às figurinhas, mas que é diversão garantida, lá isto é. Tiro mais que certeiro no stress.

Juntemos os pontinhos pois:

Pontinho 01
A revolta dos mercenários

C’os diabos! O meu exército escafedeu-se!

Ano de 1822.

Nos momentos decisivos da chamada Guerra de independência do Brasil, a repatriação de oficiais e soldados do exército português derrotado, criou um problema para D.Pedro I: Como manter a integridade territorial, a segurança do Império recém criado após a dissolução do exército anterior?

Ainda no calor da luta, o governo se viu obrigado a improvisar a organização de uma força armada de transição, não só para eliminar de vez a resistência portuguesa, mas também para se incumbir das demais tarefas de manutenção da integridade do império.

Sem povo – pelo menos, confiável – para montar um exército nacional, a ‘brilhante’ solução encontrada foi a compra de armas e navios além da contratação de mercenários europeus criando em 18 de janeiro de 1822 o Corpo de Estrangeiros, instituído como uma divisão do exército, formada por mercenários alemães (arregimentados pelo major Georg Anton von Schäffer na Europa), além de imigrantes suíços recrutados na própria Corte.

A segurança da Corte ficou à cargo de gajos germânicos, que formavam o 27o Batalhão de Caçadores de Alemães, conhecidos como “Os diabos brancos”, aquartelados na Praia Vermelha e dos outros gajos estrangeiros, suíços em sua maioria, que formavam o Batalhão de Granadeiros estrangeiros, cujo quartel era o atual (êpa!)…Palácio Duque de Caxias.

Não queriam, de jeito nenhum um exército composto de ‘diabos negros’ ‘prata da casa’ e aí… deu no que deu:

“…Em junho de 1828, no Rio de Janeiro, durante o governo de D. Pedro I, (a Revolta dos mercenários) constituiu-se numa sublevação de tropas militares compostas por mercenários alemães e irlandeses. Iniciada em 09 de junho, ela foi reprimida quatro dias depois por soldados brasileiros e populares, entre os quais se incluíam muitos escravos capoeiristas da cidade…”

Fernando K. Dannemann nos conta:

…” Revoltados (com atrasos dos soldos e com os castigos físicos a que eram submetidos)…dirigiram-se ao palácio imperial, no bairro de São Cristóvão, pretendendo apresentar queixa contra o oficial e pedir sua demissão imediata…A partir daí…os mercenários praticaram todo o tipo de desordem e confusão, culminando por invadir e tomar conta do ministério do exército, (Palácio Duque de Caxias)… Ali eles…apossaram-se das armas…e se entrincheiraram…o comandante das Armas ordenou que as forças legais investissem…contra os rebeldes, procedimento que contou com o apoio de marinheiros franceses e ingleses cujos navios se encontravam atracados no porto, de populares e escravos (leia-se capoeiristas) na emergência, ali compareceram armados… Ao final do confronto, 12 mercenários estavam mortos e 50 deles feridos…”

Êpa, êpa! Mas o palácio invadido não é o mesmo Palácio Duque de Caxias, recentemente, apedrejado pela população do Morro da Providência?

Êpa! E sacaram também aquela outra citação sobre escravos capoeiristas? Como assim?

Pois é isto mesmo: Um jogo de juntar os pontinhos. Já havia avisado a vocês lá em cima.

Pontinho 02
As Milícias escravas

Uma ‘flor’ de gente

Carlos E. Líbano Soares falando:

“…O discurso contra a capoeira no século 19 se assemelha ao discurso contra o crime organizado, o tráfico de drogas. Um crime rendoso, com uma rede de proteção muito grande, com pessoas da alta sociedade envolvidas, protegendo e mantendo esses grupos e por isso garantindo a impunidade deles.

“…Cada freguesia do Rio tinha um grupo…Quando outro invadia seu espaço, era a senha para o confronto. Havia um controle informal, uma geografia inquieta semelhante à atual guerra das drogas. Assim como hoje há, no Rio, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, havia na época nagoas e guaiamus. Os nagoas dominavam a periferia, são grupos de origem africana, e os guaiamus dominavam o centro da cidade…”

—————–

Ali por volta de 1870 o problema da violência urbana e do caos político-social protagonizado pelas maltas de capoeiras, compostas, em sua maioria, por adolescentes (escravos fugidos e negros de ganho desocupados), ficou tão agudo que a solução foi desmobilizar, violentamente os bandos, enviando os capoeiras, em massa, para a guerra do Paraguai. Com o regresso destes ‘involuntários da pátria’, livres da escravidão por direito, fardados, mas, ainda revoltados, o problema da violência urbana voltou, mais intenso ainda.

“…O Flor da Gente era um poderoso grupo de capoeira do Rio de Janeiro no século XIX. O grupo era tão poderoso que chegou a ser contratado por Duque Estrada Teixeira quando candidato ao governo da província do Rio de Janeiro. Para que Duque Estrada contratou o grupo de capoeira Flor da Gente? Na época, as eleições eram decididas no tapa mesmo e quem não votasse em Duque Estrada era ameaçado pelo grupo Flor da Gente…”

Na crônica da Revolta da Chibata (1910), junto com os degredados enviados pelo governo para serem escravizados – ou comidos pelos bichos – nos cafundós da selva amazônica, constavam dezenas, talvez centenas de capoeiristas.

Já conseguiram enxergar o esboço da figurinha que começa a aparecer no nosso jogo? Não? Pois siga em frente e junte mais pontinhos então.

Pontinho 03
O Cimento Social

(Agora mesmo, em pleno século 21)

Uma tropa de militares, sob a alegação de que um Projeto federal denominado Cimento Social era ‘obra do Exército’, fazia policiamento ostensivo do Morro da Providência, exercendo, literalmente, a função de uma milícia privada, desalojando, sabe-se lá como sem um único tiro, os traficantes que mantinham o controle do local.

No incidente amplamente divulgado pela imprensa, esta milícia, estranhamente formada por soldados regulares, segundo afirmam seus integrantes diretamente envolvidos no incidente, aprisionaram e espancaram três jovens da comunidade por motivo fútil (teriam sido xingados) e os entregaram a misteriosos bandidos de uma favela próxima, pretensos rivais da comunidade a que os jovens pertenciam.

Foi daí que a milícia…digo, a patrulha do Exército se encontrou com outra milícia…ou melhor, um grupo de traficantes do Morro da Mineira e negociou a entrega dos jovens (segundo as famílias dos mortos, pela quantia de 60 mil reais). Não se sabe ainda por que misteriosas razões, os jovens foram torturados e chacinados pelos nunca identificados traficantes, sendo os seus corpos lançados numa caçamba de lixo da própria favela para aparecerem, dias depois, num lixão num município vizinho.

Revoltada a população (da qual faziam parte, inclusive, os operários da obra), impediu a continuação dos trabalhos e rejeitou os pedidos de desculpas das autoridades, cercando o Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, a quem a tropa estava subordinada.

(Êpa, êpa! Mas não é este o mesmo Palácio Duque de Caxias, no passado, invadido pelos mercenários gringos, os tais ‘Diabos Brancos’?)

O escândalo se agravou quando a imprensa divulgou a natureza estranha do convênio entre tão altas instancias do governo federal e um candidato a prefeito da cidade. O projeto do senador era, literalmente, uma ‘obra de fachada’, já que apenas as fachadas das casas-barracos, visíveis do centro da cidade, seriam reformadas e pintadas de verde.

Pressionado pelo escândalo, em solenidade no Rio de Janeiro, o presidente da República recebeu os familiares das vítimas que, surpreendentemente, se mantiveram na firme posição de não admitir desculpas nem a presença do Exército no Morro.

Nitidamente contrariado, o governo federal decidiu então, numa insidiosa represália talvez, abandonar o morro e as obras inacabadas, deixando a população ao Deus dará.

Vocês sabem quem era o candidato envolvido neste lamentável incidente, não sabem? Ele mesmo: o bispo-senador, preferido do coração do nosso presidente.

Pontinho 04
Luta Democrática

A máfia nordestina e outras máfias

…Tenório Cavalcanti foi um dos muitos migrantes que vieram do Nordeste para a Baixada. Lá, enriqueceu e tornou-se uma poderosa figura política, criando um sistema clientelista e apoiando-se na violência como estratégia de conquista e manutenção do poder tanto econômico quanto político. A sua volta, montou-se uma “densa rede de relações pessoais, de amizade, parentesco e patronagem, trançada pela reciprocidade, a dependência, a lealdade e a deferência, tendo no líder seu fio central”…

Em torno de sua pessoa, criou-se toda uma mistificação, apoiada na construção de uma personagem para Tenório, que passou a ser conhecido pelo uso de suas inseparáveis capa preta e sua metralhadora “lurdinha”, bem como pela fama de “ter o corpo fechado”, por ter conseguido escapar ileso de uma série de conflitos a bala.

“…Para complementar ainda mais essa imagem, um episódio ocorrido em julho de 1962, que ficou conhecido como o “quebra-quebra”, ocupou por semanas as páginas dos noticiários, associando a região à falta de segurança e à prática da violência. Na verdade, a sucessão de depredações e saques ocorridas na Baixada no dia 5 de julho de 1962 fizeram parte de um contexto histórico de “revoltas populares” em todo o estado do Rio de Janeiro.

“…Este episódio, segundo Marlúcia dos Santos Souza, teria marcado o surgimento de milícias pagas pelos comerciantes locais para garantir a segurança de seus estabelecimentos. ‘… em 62, com o saque, as polícias privadas atuaram como repressores das revoltas e como mantenedoras da ordem.’ A partir deste contexto, marcou-se o início da ação de “grupos de extermínio” na região, como vão demonstrar Josinaldo Aleixo Souza e José Cláudio Alves Souza.

Segundo este último, “desde o golpe de 1964, sobretudo a partir de 1967, a Polícia Militar vinha assumindo um papel coadjuvante na repressão montada pela ditadura …”, o que a levaria a atuar diretamente na formação de “grupos de extermínio”. A ação desses grupos, porém, se efetivaria de forma mais veemente a partir da década de 70…”

(Extraído de favelatemmemoria.com.br

Pontinho 05
Welcome to Congo!

Ano de 1998

O Rio de Janeiro é uma cidade com um explosivo problema de segurança pública localizado, exatamente, em suas áreas mais carentes (segundo diz o velho ramerrão, por falta de políticas públicas), áreas estas que foram sendo, progressivamente, ocupadas por grupos armados, a princípio identificados, genericamente, como Comandos de Traficantes (em bom português, milícias armadas, portanto).

De uns tempos para cá, a situação, por si só já muito dinâmica, por culpa da renitente e oportunista omissão das ‘autoridades constituídas’, evoluiu para o perigoso estágio da cooptação ou da simples corrupção de indivíduos integrantes das forças de segurança convencionais (Polícias Militar e Civil) que passaram a se mancomunar com as facções criminosas tradicionais.

A tal dinâmica dos acontecimentos tinha, inclusive, um viés tenebroso, prenúncio do que viria: Engrossando o caldo do equilibrado conflito entre Comando vermelho e Terceiro Comando, aparecia como uma cunha para fracionar a clássica dicotomia polícia-bandido, uma nova facção denominada, sugestivamente, A.D.A ou ‘Amigos Dos Amigos’ ou seja, uma organização que poderia abrigar integrantes de qualquer uma das partes em conflito, inclusive policiais, desde que partidários de um pacto de cooperação (é esta mesma facção a que controla a favela onde os jovens da Providência, supostamente, foram torturados e mortos).

E assim ‘evoluímos’ para um estágio no qual passou a não existir mais diferença perceptível alguma entre os modos de agir de policiais e bandidos (no que diz respeito à prática de delitos criminosos, roubos, assaltos e assassinatos, bem entendido).

Chegamos então, infelizmente, no curto espaço de menos de cinco anos, se muito, a um ponto de difícil retorno, no qual as próprias instituições policiais se organizaram (ou se ‘desorganizaram’) em braços clandestinos, que a população denominou a princípio de Polícia ‘Mineira’.

Logo denominadas pela imprensa mais apropriadamente, de ‘Milícias’, estas ‘Mineiras’ (o nome – que evoca a truculência da polícia de Minas Gerais em décadas anteriores – se popularizou na Baixada Fluminense na década de 70) são instituições paramilitares que, estimuladas pela ‘vista grossa’ da classe média, cada vez mais rapidamente, vão usurpando, sob o pretexto de cuidar da segurança privada, do controle de todos os tipos de serviços públicos, historicamente negligenciados pelas autoridades legalmente constituídas (além de serviços privados, é claro).

No contexto desta situação dramática, alguns especialistas em segurança pública (omitindo o fato da falta de políticas públicas ser a causa evidente de todos estes males) vêm solicitando há tempos, a intervenção das forças armadas. O governo federal, por intermédio do Ministério da Defesa, do congresso Nacional e do próprio Exército, tem relutado, alegando não ser esta função constitucional das forças armadas (embora elas atuem com esta função no Haiti, por solicitação da ONU e –cala-te boca- tenham atuado, exatamente, assim no incidente aqui narrado, ocorrido no Morro da Providência.)

Para agravar o quadro, estas autoridades constituídas, começam a assumir, a partir do Governo Collor de Mello, cada vez mais claramente, modus operandis muito semelhante ao de instituições de caráter mafioso, criando uma espécie de sociedade bandida, anômala, um tanto parecida – se projetarmos a evolução do problema e guardadas as devidas proporções – com a de certos países africanos modernos (como o Congo atual, por exemplo)

Duvidam? Vão pagar pra ver?

Bye Bye Brasil
Este é um país que vai pra frente?

Como se sabe o fenômeno não é simples. Possui fundas raízes no arcaísmo de nossa estrutura social, sempre calcada na injustiça social a qualquer custo, gerando tudo que aí está, há séculos e séculos, amém.

Se juntarmos mais ainda os pontinhos, veremos as figurinhas do misticismo político-religioso de Conselheiro e do Padre Cícero, ligados com os do proto-comunismo da Coluna Prestes, passando pelo banditismo do capitão Lampião. A cada conjunto de pontinhos juntados, quantas e quantas elucidativas imagens vamos conseguindo formar. É o Brasil Bandido mostrando a sua cara feia.

O curioso é que os pontinhos mais incríveis – principalmente, por suas inquietantes ligações com a nossa conversa – são aqueles ligados ao místico Conselheiro.

Ele foi, todo mundo sabe, aquele beato piradão, espécie de bispo de uma seita inventada ali, na época, um ícone invertido do senador de nossa história. Ele mesmo, o líder da cidadela rebelde (a primeira favela mítica), guarnecida por uma milícia popular, que lutou contra as mesmas injustiças sociais clássicas, vigentes no modelo social brasileiro, enfrentando encarniçadamente o Exército Brasileiro até ser massacrada.

Pois não é que foi aqui, no Rio de Janeiro– santa coincidência! – que alguns soldados veteranos daquelas mesmas batalhas contra o Conselheiro, desengajados, sem soldo e largados à própria sorte pelo Exército Brasileiro, não tendo outra alternativa de sobrevivência ocuparam as encostas de um certo morro bem perto da perímetro urbano da Corte?

O morro passou a se chamar ‘da Favela’, em alusão à presença na vegetação do morro da ‘fava d’anta’ (dimorphandra mollis Benth), leguminosa típica do cerrado brasileiro, também conhecida, no diminutivo, como favela, da qual os veteranos soldados tinham muitas lembranças dos tempos de Canudos, por causa da localidade existente na região dos combates chamada, pela mesma razão, Alto da favela.

Com a generalização do nome Favela, por conta da pauperização do Brasil urbano e a palavra passando a denominar qualquer conjunto de habitações miseráveis, o local fundado pelos veteranos de Canudos, mudou de nome, passando a se chamar, não Nova Canudos, como deveria, mas… Morro da Providência’.

Êpa, êpa! De novo? Mas não é aquele mesmo Morro da Providência no qual uma tropa do mesmo Exército seqüestrou e levou à morte três jovens, no incidente que levou a população do local (em certa medida descendente dos veteranos de Canudos), a invadir o Palácio Duque de Caxias, sede do comando militar leste, outrora (e bota outrora nisto) também invadido pelos mercenários europeus, logo após a nossa independência?

Roda viva. Círculo vicioso: Independência, favela, nordeste, Canudos, Lampião, Exército, providência, presidentes, bispos, seitas, máfias, seqüestros e chacinas, balas achadas e perdidas, num verdadeiro suflê de sangue, suor e lágrimas.

Viram só, que incríveis coincidências formam o nosso ‘muderno’ Brasil profundo? Bastou juntar os pontinhos.

————

Existem algumas maneiras de escapar de uma situação como esta. Você pode se deitar na calçada e esperar mais um tiroteio passar; você pode fugir pelo bosque escuro da floresta da Tijuca e deixar marcado o caminho percorrido com bolinhas de miolo de pão; pode mostrar para a bruxa que te seqüestrou, o delgado rabo de um ratinho, para ela pensar que você está muito magrinho ainda para ser comido; pode sair correndo em zig zag; pode enfim, esbugalhar os olhos e se fingir de morto, sei lá tantas coisas…

Tomara que eles, já perdendo o controle da situação, não venham com a idéia de jerico de contratar, de novo, uma milícia de mercenários estrangeiros.

(Se bem que, a esta altura dos acontecimentos, juro que até eu -como D.Pedro I – iria adorar ter um exército para chamar de meu).

Spirito Santo

Sei lá quando de 2007 (ou seria 2008?)