Hugo Sukman e a Bossa Velha

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(Na foto João Gilberto – com um jeitão de Ivon Cury – e o espertíssimo Tom Jobim, fazendo pose de garotões de nouvelle vague, bossa nova sei lá, uma novidadice colonizada destas por aí)

Brasil: Sistema recorrente, cultura popular excludente.

Não resisto. Tenho que dar uma de Tinhorão reciclado: Hugo Sukmam, crítico de música popular, falando coisas facilmente questionáveis e, no mínimo discutíveis agora mesmo na Globo News  sobre a Bossa Nova ser uma espécie de ‘depuração (ui!)’, ‘sofisticação’ (ai!) do Samba. Escrevi no meu livro o quanto acho isto uma abobrinha elitista sem tamanho ou fundamento.

Esta suposta ‘sofistificação’ do Samba não foi feita, de modo algum por este pessoal da Bossa Nova, este mito branco-ipanemense, fruto de muita arrogancia, esperteza mercadológica e cortesia com chapéu alheio.

Esta modernização do Samba (na verdade um fenômeno recorrente desde o início do século, comum a qualquer gênero de musica popular urbana, de qualquer lugar do mundo), já era feita, urdida por um montão de gente comum, ‘gente humilde’, músicos ‘do povo’ (como Suckman quase diz)  ‘sambistas ou não, em geral, entre os quais Geraldo Pereira, Ciro Monteiro, Moacir Santos, Monsueto Menezes e tantos outros em boates, gafieiras e no rádio dos anos 50 e 60.

Vamos combinar que esta dicotomia entre música ‘negra’ primitiva‘, selvagem‘, ‘empírica‘, ‘primária‘ e pouco sofisticada versus  música ‘branca’ ‘fina‘, ‘mais educada‘, refinada enfim, é um preconceito dos mais baratos, grosseiro mesmo. Burro. Ora, nunca existiu esta divisão de classe – ou de ‘raça‘ – na música de povo nenhum nem na cultura de quem quer que seja.

Ocorre que esta elitezinha esperta – como faz, aliás, até hoje por aí, nas Lapas da vida – pescou a idéia da modernidade que surgia e vendeu o peixe como se fosse ela a pescadora, para levar a fama.

Trancaram a novidade num apartamento, sairam com ela para fazer pose na praia chic e cunharam um rótulo modernoso, tomando o cuidado de excluir nos becos sem saídas e sem garrafas, sabe-se lá como, a rapaziada mais da ralé, aquela que fermentou e que, realmente criou a ‘nova onda’.

(Só pra se ter uma idéia, um dos principais gênios desta modernidade musical, o maestro e arranjador Moacir Santos, amargou o mais pesado dos ostracismos por aqui (teve que viver no exterior) até à morte, sendo resuscitado só há poucos anos por dois músicos fans (Mario Adnet e Zé Nogueira) no antológico CD ‘Ouro Negro‘.)

A turma do samba envergonhado metido a ‘cool jazz’ de branco  (pois sim! Como se o jazz já não fosse música negra) se apropriou mesmo foi de um fenômeno musical que outros, muitos outros músicos inventaram antes deles.

O que Hugo Sukman fala – num discurso enviezado, gaguejado por ser pisado em ovos, quase subliminar – é que a classe média do Rio de Janeiro – do Brasil, digamos assim – não se sentia…ops!… ‘representada‘ no Samba convencional, no Samba popular afro-brasileiro e daí teria sido… necessário que esta ‘jovem geração’ – justo esta, formada por ‘eleitos’ sabe-se lá por quem – de criadores forjasse a tal da Bossa Nova.

‘por aqui’,  saturado deste discurso malandro, esta auto-mitificação recorrente deste pessoal, eu mesmo já havia pinçado no meu livro uma fala identica – quase literalmente repetida por Hugo Suckman agora –  de Tom Jobim arrotando presunção numa entrevista, citada antes de mim em ‘Sambeabá, o Samba que não se aprende na escola’ de Nei Lopes. Diz Tom, batendo nesta nota só:

_” O autêntico Samba negro é muito primitivo…. Já a Bossa Nova é calma e contida. Ela conta uma história, tentando ser simples, séria e lírica… “queremos torná-la (a música do Samba) tranquila para que ela possa entrar nos estúdios de gravação.” …”Pode-se dizer que a Bossa Nova é o Samba limpo, depurado… E aí o problema é saber como compor sem perder o balanço.” (grifos do autor)

Pura pretensão elitista – ou mesmo racista quando associa, diretamente, os conceitos negro e primitivo ou mesmo negro e sujo, impuro -, nesta espécie de manifesto bossanovista, como se pode observar claramente, Antônio Carlos Jobim omitia (ao que parece, deliberadamente) o fato de que vários autores – negros e ‘primitivos’ em sua maioria- já haviam inserido no Samba, muito tempo antes dele, a calma, a simplicidade, a seriedade, a tranquilidade e o lirismo (marcas evidentes da obra de Angenor de Oliveira, o Cartola, por exemplo).”

Ai, como dói a empáfia arcaica e tão pouco intelectualizada deste pessoal, que esquece que a mentira – ou o exagero – sempre tem perna curta.

Pobre Samba meu…

Spírito Santo

Abril 2011

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~ por Spirito Santo em 21/04/2011.

2 Respostas to “Hugo Sukman e a Bossa Velha”

  1. Pois é. É impressionante como a crítica, supostamente mais especializada se presta a este papel de difusora desta mistificação elitista. Qualquer pessoa ligada em musica brasileira – e nem é preciso ser especialista – pode constatar que, nem mesmo a primazia de fazer a fusion entre musica popular e jazz é desta chamada ‘Bossa Nova’. Os ‘Oito Batutas’ já haviam feito isto quarenta anos antes, tendo inclusive levado a – esta sim – novidade para o exterior.

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  2. Eu já contestei algumas questões em provas públicas e em conversas sobre música, sobre a “magnitude da Bossa Nova”, na questão de transformá-la em coisa mais calma e tb sobre a símbolo da música brasileira. Ainda bem que meus pensamentos ressonaram aqui. Excelente artigo Spirito Santo!

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