Só Danço Samba (Pobre Samba meu)

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Pixinguinha e Tom. Aparentemente (a foto é de uma série) Pixinguinha nesta ocasião ensina acordes de piano à Tom que também faz duetos na flauta, com Pixinguinha ao piano.

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A foto é muito emblemática. Ao que parece,  Tom Jobim e Chico Buarque usam os chapéus de Pixinguinha e João da Bahiana. As expressões e os sorrisos contidos de Pixinguinha e João podem denunciar que eles não “passaram”, voluntariamente os chapéus para os dois, tornando-os “herdeiros” como a foto insinua.  Sutilezas.

O “sambismo” branco elegante da Bossa Nova posto em xeque.

“Pobre samba meu
Foi se misturando se modernizando, e se perdeu
E o rebolado cadê?, não tem mais
Cadê o tal gingado que mexe com a gente
Coitado do meu samba mudou de repente
Influência do jazz…”

————–

Gene Lees, grande crítico musical canadense, escreveu um artigo luminoso sobre a Bossa Nova e Tom Jobim sempre republicado por aí, mundo afora (embora quase nunca por aqui) O artigo sobre Antonio Carlos Jobim, que saiu provavelmente em 1987 ou 1993 na revista JazzLetter (escrita e editada por Lees)  foi também publicado no livro do mesmo Gene Lees “Singers & Song II (Nova Iorque : Oxford University Press, 1998) em um capítulo intitulado “Um abraço no Tom”.

Extraí, indiretamente desse artigo uma nota que publiquei na primeira edição de meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“, muito polêmica porque denuncia a presunçosa arrogância elitista (claramente racista, diga-se) de Tom Jobim ao, desairosamente comparar numa entrevista a Lees, a Bossa Nova (dele e João Gilberto) com o Samba Negro (assim mesmo, adjetivado por ele) de todos nós.

Ora, repito insistentemente por aí, a suposta modernização do samba “negro“- cujo primitivismo é bastante questionável (ora, música é uma linguagem atemporal!) – esta fusão do Samba com o jazz, de autoria atribuída por Tom Jobim a ele mesmo, João Gilberto e a sua (deles) Bossa Nova é uma leviandade em todos os termos.

Quem não sabe que fique sabendo: esta “modernização” ocorrida, no mínimo na década de 1920, teve como precursores evidentes, entre outros, os “primitivos” crioulos Pixinguinha e Donga (e vejam: nesta fusion de ritmos africanos do Brasil e o jazz feita por Pixinguinha e os Oito Batutas, nem havia ainda o rótulo Samba, claramente expresso)

Convenhamos: Tom Jobim, um músico andado e viajado pela cena musical do Rio de Janeiro desde, pelo menos, o final da década de 1950, conhecia Pixinguinha, aprendeu até algo com ele (como a foto acima indica) e sempre soube disso. Logo, Tom foi, além de leviano, displicente em sua fala para um arguto crítico musical gringo. A nota que publiquei no livro (de 2011) causa ainda muito frisson nos meios mais laudatórios da obra de Tom Jobim.

A editora da primeira edição do meu referido livro, por exemplo, me chamou, gravemente a atenção sobre a temeridade que seria expor este lado tão politicamente incorreto – inacreditável para ela – de um monstro sagrado de nossa música popular, uma espécie de Villa Lobos da MPB.

Alguns leitores mais deselegantes, chegam mesmo a duvidar das minhas fontes que foram, inicialmente o livro “Sambeabá, o samba que não se aprende na escola”, de Nei Lopes e é agora (instigado por um comentário incrédulo de mais um leitor), diretamente extraída da fonte primária: o artigo de Gene Lees que compartilho aqui – com tradução livre do Titio com a ajuda de seu filhão Thiago Rosa – na íntegra para vocês. Antes, disponham do trecho da fala de Jobim que cito no livro, também no original:

“The authentic Negro samba in Brazil is very primitive. They use maybe ten percussion instruments and four or five singers. They shout and the music is very hot and wonderful.

“But bossa nova is cool and contained. It tells the story, trying to be simple and serious and lyrical. Joao [Gilberto] and I felt that Brazilian music had been too much a storm on the sea, and we wanted to calm it down for the recording studio.

You could call bossa nova a clean, washed samba, without loss of the momentum. We don’t want to lose important things. We have the problem of how to write and not lose the swing.”

Como se pode ver, os conceitos ‘negro“, associado à “primitivo” e “sujo“, associado a “Samba negro“, do qual, segundo Tom a Bossa Nova seria uma ‘depuração“, aparecem – verdade seja dita – bem nítidos na fala textual dele, revelada por Gene Lees, insuspeito por ser seu grande admirador.

No bom sentido (e com todo respeito) Titio quis apenas matar a cobra e mostrar o pau.

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Com a palavra, Gene Lees:

“A primeira música que ouvi de Jobim foi “Desafinado”. Dizzy Gillespie executou-a no Salão Sutherland em Chicago, no inverno de 1961-1962, quando Lalo Schifrin estava tocando com o grupo. Mais tarde, no meu apartamento, Lalo tocou a melodia novamente no meu piano, me mostrando as mudanças de acordes. Embora Lalo seja argentino, tinha vivido no Brasil e estava bem familiarizado com a nova música que havia surgido no Rio de Janeiro.

Logo depois eu ouvi um álbum de João Gilberto, a quem muitas pessoas consideram o pai da Bossa Nova (título que não significa nada mais do que ‘algo novo’), e isso só intensificou meu interesse por este notável e sutil balanço, seu acento lírico, particularmente nas músicas de Antonio Carlos Jobim.

Quando no início de 1962 apareceu uma oportunidade para eu passar seis meses na América Latina, incluindo o Brasil, agarrei a chance, em parte porque por muito tempo, nós da América não nos interessamos em saber  algo sobre os milhões de pessoas que dividem o Hemisfério Ocidental conosco .

A este respeito, as coisas não mudaram muito. Mas parte da razão que me instigava era saber mais sobre esta nova música, esta tal de Bossa Nova. E assim, em maio, na nossa primavera, outono no Brasil, eu estava no Rio de Janeiro.

A editora tinha me dado o número de telefone de João Gilberto. Ele não falava Inglês e passou o telefone para sua esposa Astrud. Ela me deu o telefone de Jobim para que eu o contatasse. Jobim me convidou naquela mesma noite para ir a sua casa, à uma curta distância da praia de Ipanema, uma longa faixa de areia em curva, que é uma das glórias daquela cidade. Quando entrei na pequena casa, João Gilberto estava sentado em um sofá cercado por um quarteto vocal chamado “Os Cariocas”.

Ele estava tocando violão e ensaiavam a harmonia de uma canção de Jobim chamada “Só danço Samba”. Eu tinha feito um estudo sobre as músicas de Tom Jobim, e entendia as letras em português. Ele e eu fomos para a cozinha e ele serviu uísque para nós dois. Lembro-me de estar de pé ao lado da geladeira com Jobim me dizendo:

“Eu sou doido, mas ele” – indicando João, na outra sala – “É muito mais doido”

No entanto a maior parte da nossa conversa foi em francês. Jobim falava pouco inglês e eu, pouco português. Sua ascendência era francesa, daí o seu sobrenome.

Eu lhe disse que acreditava que muitas de suas canções poderiam ser vertidas para o inglês e que sabia como fazê-lo. Ele me incentivou a tentar, e antes mesmo de sair do Brasil, eu já tinha escrito letras em inglês para ‘Corcovado “e” Desafinado “, que ficaram conhecidas, respectivamente como” Quiet Nights of Quiet Stars”e” Off Key “. Quando Jobim chegou a Nova York para um concerto no Carnegie Hall, eu o apresentei a Gerry Mulligan, cuja música – pelo testemunho de ambos Antonio e João – foi uma importante influência no desenvolvimento da Bossa Nova.

Na ocasião Jobim me disse:

“O samba autêntico negro do Brasil é muito primitivo. Eles usam talvez dez instrumentos de percussão e quatro ou cinco cantores. Eles gritam e a música é efusiva e exuberante demais. Mas a Bossa Nova é leve e contida. Conta uma história, tentando ser simples, grave e lírica.

João e eu sentimos que a música brasileira soava exagerada como uma tempestade no mar, e queríamos torná-la calma, mais adequada à gravação em estúdio. Você pode chamar bossa nova de um samba limpo, lavado, sem perda do clima.

Nós não queremos perder coisas importantes. Só temos o problema de como compor sem perder o balanço. “

“E eles não perderam” – segue  Gene – “Influenciaram o jazz americano quase tão profundamente quanto o jazz americano os havia influenciado Com o passar dos anos, Jobim continuou a se desenvolver. O samba não é, de modo algum o único ritmo tradicional do Brasil.

A influência da África é muito profunda, particularmente no norte e o folclore musical é muito rico. Nos anos seguintes Jobim passou a refletir em sua música esta tradição musical variada; os anos da bossa nova ficaram para trás. Cada vez mais suas canções passaram a refletir seu interesse pela ecologia do planeta e sua destruição.

“Estamos construindo um deserto, meu amigo”, ele me disse certa vez em Los Angeles.

Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars) é uma das primeiras canções de Jobim que ouvi. Na versão da letra tentei manter, não só o significado do original, mas também o ar fatalista, comum nas canções brasileiras e que, acredito deriva de fado português, remotamente oriundo da doutrina árabe do kismet. Corcovado é o nome da montanha na qual a estátua do Cristo Redentor foi erguida com os braços estendidos, como se abraçasse a cidade do Rio. A palavra significa corcunda, que é como os primeiros colonos chamavam a montanha.

“Só Danço Samba” foi a música que eu ouvi João Gilberto cantando no sofá de Jobim na noite em que conheci os dois. João cantou tão baixinho (mas tão perfeitamente!) que eu mal podia ouvi-lo, mesmo estando a poucos centímetros de distância.

Ele desenvolveu um estilo de um quase “vibrato less” (sem vibratos) uma forma de cantar que me fez lembrar, de uma só vez, o cantor francês Henri Salvador (o qual João disse tê-lo influenciado) e Chet Baker. A canção era sobre um rapaz que se diz cansado do twist, do calypso, e do cha-cha e que, de agora em diante” “Eu só danço samba”, que é o que o título significa.

A gravação, dessa música com Stan Getz, foi feita logo após a caravana de músicos brasileiros chegar à Nova York. A canção “Desafinado” (Off Key) é uma espécie de hino da bossa nova, pois aborda com humor a escola mais antiga de cantores e músicos do Brasil que se opuseram ao movimento da Bossa Nova, músicos mais velhos, críticos do bebop dos Estados Unidos.

Existe uma piada construída na harmonia desta canção: uma quinta bemol na segunda corda – um efeito harmônico que fazia parte do bebop. Os conservadores do Brasil disseram que a bossa nova tinha melodias tortuosas, mas a canção se tornou um hit internacional. “Grande amor” é uma das músicas menos conhecidas de Jobim, do início de sua carreira.

Ela foi incluída numa das sessões de gravação de Stan Getz com João Gilberto. A canção mantém a sua beleza melancólica, mesmo três décadas após a sua gravação. Insensatez (How Insensitive): A seqüência de acordes de abertura é copiada do “Prelúdio em Mi Menor de Chopin” e alguns de nós, ocasionalmente, brincávamos com Jobim sobre isso.

Gerry Mulligan foi tão longe com a gozação que propôs gravar o “Prelúdio em Mi Menor” em ritmo de samba.

Inútil Paisagern (Useless Landscape): Tirando o fato de achar essa uma das melhores músicas de Jobim queria também acrescentar o seu dueto com Elis Regina. Apesar dele tocar piano em muitas de suas músicas, isso não dá uma idéia real de quão bem ele tocava. Eu tenho uma fita dele com Gerry Mulligan gravada no final dos anos sessenta.

Jobim soa um pouco como Bill Evans na fita. O acompanhamento neste disco dá bem uma dica sobre sua forma de tocar. “

Gene Lees em junho 1993

© -Gene Lees, protegido por direitos autorais; todos os direitos reservados

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…”Quase que morreu
E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu
Que o samba balança de um lado pro outro
O jazz é diferente, pra frente pra trás
E o samba meio morto ficou meio torto
Influência do jazz

No afro-cubano, vai complicando
Vai pelo cano, vai
Vai entortando, vai sem descanso
Vai, sai, cai… no balanço!

Pobre samba meu
Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu
Pra não ser um samba com notas demais
Não ser um samba torto pra frente pra trás
Vai ter que se virar pra poder se livrar
Da influência do jazz.”

(Influência do Jazz – Carlos Lyra)

Spirito Santo

Julho 2015

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~ por Spirito Santo em 13/07/2015.

3 Respostas to “Só Danço Samba (Pobre Samba meu)”

  1. […] Do Espitito Santo  […]

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  2. Parafraseando o Chacrinha: “…Nada se cria…tudo se copia”

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  3. Ruim repetir Lavoisier, mas parece-me que é o que cabe: “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

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