Mercedes Batista assim dançou. A desconstrução da modernidade na ‘dança afro’ do Brasil

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Mercedes BatistaMercedes Batista

A desqualificação da ‘Negra que dança’ e a invenção da bunduda ‘Mulata que rebola’

“…Ainda pouco estudado e muito rico de informações sobre esta efervescente época para a cultura do Brasil, podemos esclarecer que este processo de espetacularização da cultura negra do Brasil foi um interessantíssimo, legítimo e muito intenso movimento artístico iniciado na década de 1950, gerando entre outras experiências bem sucedidas – a partir da impulsão do Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento – a Cia de Danças Brasiliana (da qual, como se viu Darcy Monteiro participou e de onde se inspirou para criar o tal Jongo Novo), a Cia de Danças de Mercedes Batista e o grupo ‘Irmãs Marinho’ (uma das quais a esposa de Haroldo Costa, diretor da ‘Brasiliana’), além da saudosa Orquestra Afro-Brasileira do maestro Abigail Moura, entre outros, obviamente um movimento, eminentemente artístico, sem nenhuma pretensão de invadir ou ocupar os espaços de manifestações e cultos da cultura negra tradicional….”

(o Tio que vos fala  em meu livro Do Samba ao Funk do Jorjão” de 2011)

Espetacularização da cultura africana no Brasil.

Como se pode apreender, aí em cima eu falava do Jongo urbano carioca, uma tema caro para mim porque pude ver o processo de sua questionável espetacularização acontecer, diante do meu nariz. A emblemática presença de Mercedes Batista, contudo já aparecia ali no texto do livro como uma memória farol.

Ela, Mercedes, entre tantas fulgurantes figuras, abnegadas pessoas que trabalharam pela inserção da cultura africana no contexto amplo da dança moderna nacional enfim, tirando as ‘coisas da África’ do seu cantinho submisso, de seu escaninho de coisa ‘suja’, ‘inculta’ e ‘menor’ lugar ao qual a elite aristocrática de sempre, eternamente lhe reserva até hoje.

Tem sido este o principal fundamento o argumento mais cabal de meu discurso, este mesmo que os ímpios confundem ora com papo de tradicionalista negão, ora com conversinha de modernista de ocasião.

Bem, como se pode notar esta pulga já me circula as orelhas há muito tempo. Este tema é recorrente no meu discurso… afroculturalista ou ‘bantuísta’ (como me definem alguns, com mal disfarçado sarcasmo). Isto mesmo. A vida inteira, na verdade este tem sido o motivo principal de meus resmungos de pesquisador ranheta. Presos no ramerrão das ideias fechadas, canonizadas, só alguns poucos compreendem estes resmungos e o endossam. A maioria prefere não opinar, se omitir. Mas é aquela história: Faz parte dos nossos modos comodistas de ser.

É por isto que, afirmando que presto atenção, mas não estou nem aí para o sarcasmo deles, pergunto:

Quando você visita um terreiro tradicional de Candomblé ou de Umbanda aquilo tudo  que você vê lhe parece o que? Aquela dança ‘ritual’ estranha, lasciva que você assiste ali, tenso, entre eletrizado e atemorizado diante dos insondáveis mistérios e dos instintos incontroláveis que aqueles movimentos lhe inspiram, instilando em você aquele medo-friozinho diante dos mistérios de uma religião que você não conhece, aquilo tudo lhe parece o quê?

“A mais pura expressão de autenticidade de uma manifestação cultural de um povo místico e sofrido, a tradicional corporeidade ancestral de nossa (nossas?) raízes africanas mais…puras. “

Certo, mas será que é mesmo por aí. Sinto no dever de informar que não.

_ Blasfemo!

Me acusam de ser um iconoclasta foribundo, um inimigo da raça apenas por dizer uma verdade tão óbvia? E ainda assim, pedagógico, professoral, com uma paciência maior do que a do Jó? Gente de Deus, a chamada ‘Dança dos Orixás’ NÃO é ritual, NÃO é tradicional, nem muito menos é folclórica, não veio da África, qual o problema? Ela nem devia estar associada assim tão diretamente ao âmbito de uma religião supostamente ancestral e baiana já que foi inventada no Rio de Janeiro em… 1950.

Ué? Não sabiam disto não?

Pois bem, sinto dizer, endossando o que outras pessoas do mesmo modo como eu apedrejados já disseram: A ‘Dança dos Orixás’ NÃO representa – nem precisava representar –  liturgia religiosa nenhuma, ‘pureza africana’ alguma, assim, no sentido estrito da palavra porque é dança urbana inventada ainda ontem, espetacularizada, com a finalidade pura e simples de exaltar a nossa modernidade – a de nós todos, negros e brancos – e não os ‘instintos religiosos mais primitivos’ de certa parte de nossa população.

Sim. Ela foi criada, sistematizada por Mercedes Batista (inspirada por outras coreógrafas estrangeiras) para representar a excelência coreográfica da gente preta do Brasil. As pessoas que lideradas por Mercedes criaram estas inovações coreográficas estavam firmemente empenhadas em inserir este sopro africano de modernidade e nacionalidade que faltava em nossa dança contemporânea. Se a população do Brasil é composta também por gente preta, porque diabos a dança contemporânea do Brasil não poderia ter também inseridas nela, estilizadas, redesenhadas, relidas as belas coreografias das danças de preto que nos chegaram de onde quer que seja?

Na dança ou na vida, não importa onde enfim, qual seria afinal o lugar do negro em nossa cultura nacional? O mesmo do índio em sua oca na sua selva distante, naquela porção de primitivismo selvagem, tupiniquim que nos caracteriza – mas só em tese – meio na base do ‘eles lá e nós aqui’?

Quem determinou este papel exclusivo do ‘branco’ (suposto herdeiro de superiores valores culturais europeus) como exclusivo ser capaz de ser inovador, o paladino do exercício da modernidade do país? Negros e índios precisam continuar mesmo contidos nestes seus guetos culturais ‘primitivos’ em que se encontram, em seus candomblés e pajelanças? Que diabos de modernidade seria esta? A quem ela interessa?

Mercedes Batista e Valter Ribeiro na gafieira Estudantina Musical, no Rio de Janeiro, em 1960

Mercedes Batista e Valter Ribeiro na gafieira Estudantina Musical, no Rio de Janeiro, em 1960

Ora, convenhamos: No mundo ‘civilizado’ inteiro não é assim: A dança se moderniza, se torna ‘contemporânea’, a partir de inserção de tudo que se move com arte beleza e está visível na sociedade. A dança clássica ou contemporânea da China, da Índia, da Europa, no mundo todo vai ficando moderna assim: Incorporando valores étnicos mais representativos de suas sociedades.

Vai analisar, mais a fundo, para ver só o quanto de folclore, de danças remotas tradicionais, as mais antigas e exóticas estão no cerne daqueles passos simulando gazelas saltitantes e cisnes esvoaçantes que a gente vê nesta chamada dança clássica europeia mais esnobe.

Mas não. Aqui não. Aqui a modernidade é compulsória e exclusiva e por isto mesmo, anacrônica, passada de formol.

A ‘Dança dos Orixás’ de Mercedes ansiava exprimir valores artísticos africanos sim, mas não como dança folclórica e tradicional coisíssima nenhuma, não tinha nada de ‘ancestralidade’, ‘pureza’ africana em suas intenções originais porque este talvez já fosse visto como um conceito reacionário demais, impertinente demais que não nos interessava – como ninguém vê isto hoje em dia? – É óbvio que a ancestralidade africana estava – ou deveria estar – em todos nós e não apenas nos supostos negros deste país.

Se alguém nos quer, ‘negros‘, no gueto, primitivos adeptos de uma origem remota e selvagem que nem sequer conhecemos direito, nem mesmo sabemos se realmente existiu, porque não nos insubordinamos?

Se os ‘brancos’, crentes na improvável modernidade compulsória de sua cultura pretensamente europeia podem, corporativamente dar de ombros, porque os ‘negros’ do Brasil aceitam este papel a eles imposto de viver eternamente em guetos culturais arcaicos, nesta cultura subalterna? Porque concordamos em viver à parte, lançados aos espaços mais escondidos de um suposto primitivismo artístico e cultural, como reserva indígena de gibi, quilombo remanescente pra inglês ver?

A quem interessa ver negros isolados e de tanga dançando por aí?

A história que, tristemente os fragmentos da biografia de Mercedes Batista nos contam é lição para nós todos que a sucedemos. É a história de um formidável – e ainda incompreendido – esforço  modernista empreendido nos anos 50 por figuras visionárias como Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e ela própria, Mercedes Batista, (para citar apenas alguns), esforço este que visava lançar a cultura africana do Brasil no contexto das demais culturas matrizes do país (e das culturas da diáspora africana inteira).

É lamentável que, de forma quase subrreptícia este esforço tenha sido desconstruído rapidamente, num processo de refolclorização avassalador.

Sim, porque a subestimação, a desqualificação e a rejeição enfim da Cultura africana praticada no Brasil talvez tenha sido o que fez com que hoje em dia, aquela dança criada por Mercedes, tão meticulosamente construída para representar a modernidade da dança brasileira em geral, fosse alijada – com o nosso beneplácito! – de volta ao limbo do ‘primitivismo’ no mau sentido, sendo confundida hoje – até mesmo pelos seus maiores interessados – com uma melancólica representação folclórica de uma África fake difusa, uma ‘África Chavão’ inserida no oco de uma selva impossível e anacrônica, montada com fogueiras e palmeiras de papel crepon, impregnada do conformismo amador e ignorante, nos fundos de quintal dos terreiros onde nós mesmos como ‘cavalos’ de santos sem cabeça, batemos palmas para malucos dançarem.

A ‘Dança dos orixás’ é uma manifestação legítima sim, claro, linda e exuberante, ainda mais quando realizada com o apuro técnico original (o que é de todo modo raro hoje em dia). É dança afrobrasileira, fruto do gênio criativo de gente descendente de africanos sim, mas que antes de tudo é – ou deveria ser – peça essencial de nossa modernidade coreográfica, uma criação artística, em sua natureza de dança nacional outrora de alto nível, nível este infelizmente perdido, abortado pelas insidiosas e recorrentes razões que de leve tocamos acima.

É. Também por aí, pelo visto até agora, todos nós… dançamos.

Para quem sabe ler, um pingo é letra:

Fragamentos da história de Mercedes Batista

(As duas obras citadas abaixo foram baseadas na dissertação de mestrado de Nelson Lima)

“Mercedes Ignácia da Silva Krieger, Mercedes Batista, nasceu em 1921, no município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro”

“…Após um período de formação clássica, resolveu prestar concurso (no Teatro Municipal), mas terminou reprovada na audiência para mulheres, por discriminação racista. Cismada com isso, disputou o cargo também no grupo masculino e tornou-se a primeira bailarina negra do Teatro Municipal, em 1948. No Municipal ainda sofreu o “racismo de escolha”, posta no escanteio do elenco, um peso contra – não foi pouca a batalha de Mercedes Baptista!”

“…No teatro de revistas, uma das vertentes apresentava espetáculos de dança, como dança de salão. Foi a companhia de espetáculos de Du Chocolat, que criou a dança do maxixe, ou como chamamos hoje em dia: dança de gafieira, ou dança de salão. Outra moda no teatro de revistas foi o trabalho em dança com alguma nudez – a dança fazia parte de peças teatrais, como musicais.

“…Mercedes… Após ter sido doméstica e operária, foi como bilheteira de cinema que se apaixonou pelos filmes musicais – com muito filmes nacionais na época. Ao ver tantos filmes decidiu-se pela carreira: dançarina profissional. Mercedes Baptista mirou logo na elite do ballet: ingressou na escola do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.”

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 “…Ao falar da dança afro, são muitas as pessoas que resolvem mentalmente sua origem: isso “veio da África”; “veio dos terreiros de candomblé”; “veio dos escravos, do tempo das senzalas”. Não está errado, mas a “solução ancestral” apaga da história sua verdadeira origem.

Por dança “afro” poderíamos falar da dança de salão, que ganhou o nome de maxixe na época, dança fundamentada pelo bailarino negro Duque, da Companhia de Dança Du Chocolat – o divulgador do baile de gafieira.

Na luta pela identidade do negro brasileiro são muitas as “danças afro”. Nascida e criada no movimento anti-racismo, impondo dignidade e respeito a cultura negra brasileira, brilhou a figura da bailarina Mercedes Baptista: na dança moderna afrobrasileira.”

“ No corpo do Municipal teve aulas de balé clássico com Yuco Lindberg e Vaslav Veltchek, importantes na época. Também foi importante seu encontro com a bailarina branca Eros Volusia – com sua dança “à brasileira” foi influência certa para Mercedes. De uma família de poetas, filha de Gilka Machado, Eros Volusia foi uma referência no balé clássico misturado à arte folclórica brasileira. Tornou-se grande estrela de cinema.”

“…Volusia aderiu ao “deslumbre negro” dos anos 30,  com os primeiros congressos de valorização da cultura negra no Brasil. Suas coreografias serviram de base ao trabalho de Carmem Miranda, outra estrela da época. Era um momento de guerras na Europa e muitos refugiados foram valorizados no Brasil – pela pele branca… Uma parte disso ocorreu no mercado de dança. Para Volusia isso não fez diferença – inclusive era muito bela!

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“…Da escola do SNT, Mercedes reclama por ter sofrido discriminação da parte de Eros Volúsia e de ter sido pouco valorizada. Analisando as fotos em que Eros aparece acompanhada de suas alunas ou de algum corpo de baile, podemos notar a ausência de bailarinas negras, mesmo quando se tratava de coreografias inspiradas na cultura afro-brasileira. Em geral, vemos apenas a presença de negros em meio aos tocadores de atabaque, no conjunto musical que acompanhava as bailarinas. Talvez isso possa ser considerado um sinal de que, embora o interesse pela cultura de origem africana fosse crescente nos círculos culturais mais elitizados, um espaço real para a atuação do bailarino negro ainda não se efetivara.”

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“…De outro lado, a dança se dividia entre européias, mais “sérias”, e as danças “picantes” ou “exóticas” – meio que bagunçou as danças de outras nações… “

“…Eram danças “exóticas” aquelas identificadas por traços “selvagens”, “primitivos”. Representações árabes, ciganas, espanholas, caribenhas – as chamadas “habaneiras”, de certa forma “afro” também. Formou-se um preconceito ao contrário, já que o elemento “afro” era apreciado como quem torce por uma “coisa esquisita”.

Foi nesta época que se espalhou que “todo pai de santo era bicha”, quando era apenas um corpo liberado… As mulheres na dança, inclusive, eram tidas como prostitutas na boca do povo.

Não importa o lado negativo. Para o artista negro brasileiro isso era trabalho: bom e digno. Foi assim nos espetáculos do Mestre Pastinha, na capoeira. No samba, maracatu, candomblé, em outros motivos do nosso folclore foi o mesmo.”

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“…Mercedes Baptista então se aproximou do famoso Babalorixá “Joãozinho da Goméia”, baiano com terreiro assentado em Caxias/RJ. Este pai de santo foi grande divulgador do candomblé no Rio de Janeiro, suas manifestações, sua filosofia. Seu potencial de afirmação e defesa do culto baiano foi tão importante que até hoje existe um preconceito contra “terreiros” de outras procedências, que não seja “baiano”. E isso também teve efeito na pesquisa de Mercedes Baptista. Portanto, não será difícil identificar na “dança afro” sua baianidade, o que não retira o mérito de outras linhas religiosas, folclóricas ou demais danças de cunho antropológico.”

“Eu inventei (a dança), ouvindo o ritmo dos orixás e os movimentos do candomblé, que mal freqüentava mas passei a pesquisar”, afirma Mercedes ao Jornal do Brasil(22/05/94). Nesse mesmo jornal podemos ler “A dança afro é carioca”, e a explicação do pesquisador de cultura afro-brasileira José Marmo: “A Bahia e até outros estados têm grupo de afro, mas nada que pareça com o estilo criado no Rio pela bailarina Mercedes Baptista”

“Durante toda minha carreira nunca consegui ajuda em dinheiro para montar um espetáculo. Cada empresário dava uma desculpa diferente, mas o dinheiro não chegava”.

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“…A década de 1950 foi o auge da dança afrobrasileira, com sucesso total. O diálogo entre a alta cultura, o erudito cursado em universidade, pensado em teorias, rendeu-se a cultura popular. A dança afrobrasileira também concorrência, com interessante trabalho desenvolvido pelo poeta, sindicalista e militante do movimento negro, Solano Trindade. Tanto a obra coreográfica de Mercedes Baptista, dentro do TEN, como o grupo de Solano Trindade, com o Teatro Folclórico Brasileiro – TFB, são marcos na invenção da dança afrobrasileira.”

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“…No TEN, Mercedes pôde conviver com Haroldo Costa, Solano Trindade, Ruth de Souza, Santa Rosa, entre outros e, sendo bailarina, começou a coreografar unindo-se ao grupo em busca de uma identidade afro-brasileira. Sem abandonar o Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Mercedes Baptista se integrou à militância do TEN.

Ela não era a única no TEN a se ocupar de danças. Haroldo Costa e Solano Trindade também coreografavam nos espetáculos musicais inspirados nas tradições populares. De fato, o interesse pela cultura negra e pelas danças afrobrasileiras encontrava-se disseminado nesse ambiente artístico ligado a afirmação do negro, diferentemente da presença dessas expressões nos musicais brasileiros da primeira metade do século XX, quando não se vinculavam a uma proposta política emancipatória.”

“…Katherine Dunham foi bailarina, coreógrafa, antropóloga e ativista negra. Dunham se tornou famosa ao trazer a contribuição afro-caribenha para a dança americana até então dominada pela influência européia.

Considerada a matriarca negra da dança moderna americana, criou em 1933 a primeira companhia de dança formada exclusivamente por bailarinos negros. Com essa companhia apresentou-se no mundo inteiro entre as décadas de 1940 a 1960.”

“…Como ativista negra, Dunham estava disposta a oferecer uma bolsa de estudos a uma bailarina ou bailarino brasileiro, afro-descendente, visando estimular o surgimento em outros países de uma arte capaz de valorizar a contribuição africana para a cultura ocidental. Depois de uma concorrida audição, Mercedes foi a escolhida. Convidada para estudar dança moderna nos Estados Unidos junto da companhia de Katherine Dunham, Mercedes se licencia temporariamente do Teatro Municipal e viaja para Nova York onde passa aproximadamente um ano, tendo aulas de dança moderna com Dunham, em estreito contato com o trabalho dessa companhia americana de dança moderna.

‘…Dentre os bailarinos que se reuniram à sua volta, havia Paulo da Conceição, este sim, praticante e filho de santo dessa casa de candomblé. Paulo da Conceição era quem trazia para a sala de aula as danças dos orixás praticadas no terreiro.

Essas danças foram re-elaboradas, codificadas por Mercedes que, em muitas ocasiões, se aconselhou com o antropólogo Edson Carneiro nesse seu processo de recriação para o palco das tradições ancestrais. Mercedes estruturou uma aula de dança afro, com barra, centro e diagonal. Criou uma gramática corporal específica, a partir da observação das danças do candomblé e do folclore e acabou sendo de enorme importância para o aperfeiçoamento dos bailarinos que criavam e dançavam nos musicais do TEN.”

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“…Em 1949, o militante do TEN Haroldo Costa funda Teatro Folklórico Brasileiro visando divulgar as danças brasileiras no exterior. Em 1955, já com a denominação de Brasiliana essa companhia faz carreira internacional, realizando diversas tournées pela Europa com repertório de músicas e danças populares brasileiras. Muitos dos bailarinos da companhia foram formados por Mercedes Baptista. Em 1972, Mercedes dirige a Brasiliana, no Rio de Janeiro, embora não tenha partido em tournée. Seu aluno Walter Ribeiro também coreografa para o grupo, a partir da técnica por ela criada.”

Spirito Santo

Fevereiro 2012

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Os fragmentos selecionados pertencem às obras ou links de Internet:
Mercedes BaptistaA Criação da Identidade Negra na Dança Paulo Melgaço – – Dança Afro: uma dança moderna brasileira -Marianna F. M. Monteiro, zinezerozero.blogspot

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~ por Spirito Santo em 03/02/2012.

17 Respostas to “Mercedes Batista assim dançou. A desconstrução da modernidade na ‘dança afro’ do Brasil”

  1. Janete,

    A cineasta Carmem Luz (você pode achá-la no Facebook) fez uma boa pesquisa para um folme denominado “Um filme de dança”.

    Pode ser que ela tenha pistas dessa informação.

    Boa sorte e abs

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  2. Queria saber mas do dançarino coreógrafo Valter Ribeiro acho q tenho algum grau de parentesco com ele MT forte tenho quase certeza q ele é o sobrinho q meu pai trouxe de São Paulo por rio

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  3. Marcelo,

    Excelentes perguntas.

    Muito provavelmente haviam, de forma muito incipiente danças rituais em cultos aos orixás. É uma obviedade porque a dança é uma recorrência nas culturas africanas todas.

    Não haviam, contudo danças sistematizadas. Não há nenhum registro sobre isto antes de Joãozinho da Goméia, que ensina as dança que, provavelmente ele mesmo criou, pra Mercedes.

    Com muita certeza foi sim Mercedes Baptista quem criou e sistematizou a dança dos Orixás tal como a conhecemos, com movimentos específicos para cada orixá, etc.

    Observe que a prática artística de criar personagens é coisa do teatro e do ballet europeu, não correspondendo, de forma alguma aos modos culturais africanos. O ballet clássico está na origem de Mercedes.

    Segundo tudo que pesquisei e concluí, a “Dança dos orixás” foi criada por Mercedes Baltista inspirada por Katherine Dunham (bailarina norte americana professora de Mercedes e que fez o mesmo com danças africanas na América Central) e partindo de movimentos dispersos criados na Bahia pelo dançarino Joãozinho da Goméia nos anos 30 e 40.

    Convêm ressaltar que é também Joãozinho da Goméia que inventa, cria as indumentárias dos orixás, com intenções claramente artísticas, teatrais.

    Todas estas constatações bem sei o quanto são iconoclásticas, mas são o que há de mais próximo da verdade indicada pela minha pesquisa.

    Abs.

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  4. Mercedes Batista era ligada ao Culto dos Òrìsà (era iniciada)?

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  5. Boa noite, Spíritu Santo.
    Você poderia decompor suas afirmações para me esclarecer delas?
    Os Divindades Africanas manifestadas no Brasil não apresentavam danças antes de Mercedes Baptista?
    Ela e o grupo dela inventou a totalidade das Danças que estamos habituados a ver nas Casas de Culto Afro-brasileiros? Não teria ela apenas estilizado ou mesmo aperfeiçoado as Danças Afro com intuito de expressão junto ao público de espetáculos?
    Não há semelhança das Danças do Brasil no restante da diáspora? Em caso positivo, como explicar tal similitude?
    Marcelo Pimentel.

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  6. Valeu, parceiro!

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  7. Republicou isso em Mamapresse comentado:
    A desqualificação da ‘Negra que dança’ e a invenção da bunduda ‘Mulata que rebola’

    “…Ainda pouco estudado e muito rico de informações sobre esta efervescente época para a cultura do Brasil, podemos esclarecer que este processo de espetacularização da cultura negra do Brasil foi um interessantíssimo, legítimo e muito intenso movimento artístico iniciado na década de 1950, gerando entre outras experiências bem sucedidas – a partir da impulsão do Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento – a Cia de Danças Brasiliana (da qual, como se viu Darcy Monteiro participou e de onde se inspirou para criar o tal Jongo Novo), a Cia de Danças de Mercedes Batista e o grupo ‘Irmãs Marinho’ (uma das quais a esposa de Haroldo Costa, diretor da ‘Brasiliana’), além da saudosa Orquestra Afro-Brasileira do maestro Abigail Moura, entre outros, obviamente um movimento, eminentemente artístico, sem nenhuma pretensão de invadir ou ocupar os espaços de manifestações e cultos da cultura negra tradicional….”

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  8. Nelson,

    Obrigado. Vou acrescentar a sua oportuna informação à matéria. A propósito ontem moderei um excelente debate sobre o assunto no qual este material suscitado por seu trabalho pode ser enriquecido de muitas luzes. Gostaria de saber o título da dissertação, pois não me lembro se o citei na matéria.

    Abs

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  9. Excelente artigo. mas, gostaria de ressaltar que as duas obras citadas são baseadas na dissertação de mestrado de Nelson Lima sobre dança afro e que está disponível para venda no site da livraria cultura.

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  10. Denilson,

    (Esta de ‘voinha’ foi engraçada)

    Desculpe ser, por enquanto apenas um ‘titio’, mas entenda que não escrevo só para mim, tanto que você mesmo está aí debatendo este ponto comigo.

    Só acho complicado você levar a conversa pra esta defesa extremada de uma religião, exaltando a sua suposta excelência. Não estou falando, diretamente de religião. Além do mais, esta sua defesa estatística, matemática não tem muito fundamento porque não há meios de provar a autenticidade de 1323 canções(!) listadas aleatoriamente a partir apenas de um número (o cabalístico 21)

    Ora,qualquer manifestação cultural bem preservada pode ter esta exacerbada ‘qualidade’ estatística, ‘milhões de fiéis’, ‘milhares de rituais’, ‘centenas de estilos’, ‘dezenas de linhas’, mas de uma coisa nenhuma escapará: não podem se arvorar de puras nem de superiores às outras, por uma simples razão: são práticas humanas, regidas igualmente pela dinâmica das relações entre iguais.

    Me lembro que você já usou este mesmo simples raciocínio para enumerar a quantidade de danças para orixàs.

    Quer saber? Nem juntando na sua conta todas as danças ou canções de negro do Brasil, ou mesmo da diáspora inteira (a maioria, é claro sem ter nada a ver com o candomblé) se chegaria a este mais de um milhar de danças.

    Duvido e faço pouco. Nenhuma ‘voinha’ engoliria esta aí.

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  11. É sempre muito dificil falar com quem escreve para si mesmo, sem levar em conta o que os outros vão pensar. Passei aqui só para contribuir:
    O candomblé é constituido de pelo menos três “naçãoes” matriciais, popular mente conhecidas como Keto, Jeje e Angola, cada uma cultua pelo menos 21 orixas o que resulta em um número de 63 formas diferentes de culto e aspéctos linguísticos ainda que haja semelhança entre eles em cada “nação” existe pelo menos 21 “cantigas” para cada orixá, o que resulta em 1323 canções, sem levar em consideração outras músicas e danças ritualísticas que não vem ao caso citar. Somente no livro de Altair T’ogun estão catalogadas e traduzidas 376. O resto “Quem procura acha!!!” Como já diria a minha vó!!! Bença Voinha, a senhora é quem está certa!!!

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  12. “Discurso liberal”? Meu? Tá maluco! Neste post?Onde? Vai ter que fazer o favor de me explicar.

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  13. Sua fé no discurso liberal é perturbadora. Mas gosto do que você escreve. Parabéns!

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  14. Denilson diz: Uma “dança para cada música”, como cada orixá costuma ter umas três ou quatro canções específicas e formam uma lista, sei lá de uns 12 ‘santos’ principais daria 36 ou 48 danças (o que é totalmente inacreditável). Pelo que sei cada orixá tem uma coreografia específica e não várias. Sendo assim não sei de onde ele tirou as mais de 900 danças de orixás que ficaram faltando. Deve ter inventado um montão de réplicas, como as do agente Smith do filme Matrix.

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  15. Denilson, catalogou pelo menos mil exemplares? Nossa que maravilha! Aonde foi isso, em Salvador? E Quando vai publicar o livro?

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  16. Denilson José,

    Hum… Só posso considerar que você leu o artigo apenas por alto. Não há nele nenhum demérito à Dança dos orixás. Não afirmei em lugar nenhum que o repertório desta dança não é “vastíssimo” ou que é não “muito bem estruturado com praticamente uma dança para cada música”. Muito pelo contrário. O que o artigo afirma – e baseado não em ilações minhas, mas nas abalizadas informações de outras estudiosos, o que eu afirmo enfim é que já havia intuído em meu livro esta circunstancia, a de que esta a da dança do candomblé teria sido inventada nos anos 1950, não sendo tradicional, original, nada disso, etc. e tal.

    Ora, você está sendo injusto comigo e erra feio no seu emocionado diagnóstico. Se todas as ‘ricas informações’ que recolhi agora são ricas, é porque de algum modo elas confirmam isto e já não sou tão desconhecedor do assunto assim. Chato mesmo é você, por seu lado afirmar a sua sapiência no assunto sem um fundamento, uma evidencia sequer. Assim é fácil. Na verdade, a sua reação é típica do proselitismo fundamentalista de certos adeptos (ideológicos) e mau informados do candomblé que, cegamente se aferram a preceitos e supostos fundamentos ‘superiores’ de sua crença, totalmente desprovidos de sentido ou lógica.

    Nem vou cobrar de você os “mil exemplos deste maravilhoso universo” (da dança do candomblé) porque estou careca de saber (e aí sim, afirmo) que este ‘universo’ não só é exagerado (mil exemplos, Denilson? Menos…menos) quanto não pode ser atestado como sendo original, ‘puramente’ africano etc. É um exercício de lógica, amigo. As evidências históricas que juntei foram só para atestar a minha constatação. Ora, ninguém tem estas evidências, este atestado de originalidade da dança do candomblé porque estas evidencias, simplesmente não existem.

    Se me permite sugerir, acho que seria mais útil a nós todos se você partisse para estudar estes assuntos de sua crença com menos fervor religioso e mais rigor investigativo, olhando o mundo lá fora com isenção e sem proselitismo. A vida não é só isto que se passa nos limites do terreiro da sua religião, nem muito menos no terreiro ou templo de religião algum. O mundo seria inexplicável se dependesse apenas das determinações inquestionáveis das religiões.

    Pessoalmente, vendo a questão pelo seu lado político-ideológico, acho que a sua aposta fundamentalista é uma aposta no atraso e no conformismo. Me prove que não.

    Abs

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  17. O seu artigo é bom e rico em informações o seu único problema é falar de coisas que vc desconhece completamente. O conjunto de danças dentro da liturgia do candomblé é vastíssimo e muito bem estruturado com praticamente uma dança para cada música. Pense que eu na minha ignorança já tenho catalogadas pelo menos mil exemplres desse maravilhoso universo!!!

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