‘Xaxá de Ajudá’ e a ‘mancha branca’ da nossa escravidão

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Francisco Félix de Souza , o Xaxá de Ajudá e Giuseppe Garibaldi em retratos quase gêmeos. Como assim?Garibaldi é mesmo este barbudo aí da direita, mas será que este da esquerda é mesmo o Xaxá?

Francisco Félix de Souza , o Xaxá de Ajudá e Giuseppe Garibaldi em retratos quase gêmeos. Como assim?Garibaldi é mesmo este barbudo aí da direita, mas será que este da esquerda é mesmo o Xaxá?

A ‘desmiscigenação’ ou o denegrir como paradigma do anti heroísmo escravista

…Quando foi fundado nos anos 70, o Quilombo tinha em seu estatuto a obrigação de pesquisar a história dos negros e exaltar seus personagens. A escola teve como enredo nomes até então pouco conhecidos, como Preto Cosme, João Cândido, Luiza Mahin e Luiz Gama.

…Candeinha (compositor de samba) compreende e defende os compositores da antiga: “A informação era ruim. O que sei hoje consegui a base de muitos seminários e leitura”.

Em 1984, seu samba venceu a disputa no Quilombo que tinha como enredo a Rainha Agotimé (tema levado pelo Beija-Flor para a Marquês de Sapucaí em 2001). Antes de ler a sinopse de “O Xaxá de Ajudá e a Rainha Mina do Maranhão”, ele nunca havia escutado falar na monarca africana que foi vendida ao Brasil como escrava e instituiu a prática do vodu no Maranhão.“

…Se as letras pecavam às vezes pela superficialidade e pela infidelidade ao contexto histórico, devemos levar em conta a época em que foram cantadas na avenida. Falamos de um tempo em que a bibliografia sobre o assunto era precária e os compositores tinham como fonte de informação os livros didáticos das escolas, que hoje, como sabemos, deturpam e omitem fatos básicos da história da África, como o fato do Egito fazer parte do continente.”

(Thales Ramos e Thiago Dias)

Xaxá…Xaxá? Quem já ouviu falar deste cara?

Volto ao Xaxá, instigado agora por uma pesquisa sobre as implicações do assunto tráfico de escravos, com a história de certa gente negra, que ex escrava, quando liberta, enriqueceu muito como comerciante de coisas e lousas, algumas – cala-te boca – diretamente ligadas ao tráfico de escravos africanos. Acho um mistério absoluto como esta casta de gente negra rica desapareceu completamente do Brasil, sem deixar nada senão vestígios esparsos.

Não? Não querem que se volte a tocar em velhas chagas? Pois toco sim…

(Negros ciosos de sua história de pobres excluídos não gostam muito de ouvir falar que existiu e existe também muita gente negra – ou que se faz passar por negra, ou mulata, sei lá – que não presta, não vale o pão que come ou comeu. Mas não tenho escapatória porque, foi neste mesmo contexto aí que decidiram maquiar o ‘Xaxá‘, logo… relaxem. Lavemos logo toda esta roupa suja. Acontece nas melhores famílias.

Francisco Felix de Souza, cujo apelido dizem ter sido ‘Chachá‘ porque pedia para as pessoas esperarem algo dizendo enfático que já as atenderia…“Já já!” (divulgo esta versão porque é a única, mas cá entre nós, eu também acho ela bem inconsistente) era, tecnicamente um português.

A primeira vez que ouvi falar de Xaxá de Ajudá foi nesta época ai de cima, por volta da segunda metade dos anos 80, naquela onda boa que se seguiu à fundação do Grêmio Recreativo Escola de de Samba Arte Negra Quilombo, a GRANES Quilombo do Candeia, Nei Lopes, Wilson Moreira e tantos outros bambas lúcidos, se reunindo num esforço bem bacana para romper o baixo astral anticultural da torpe ditadura militar brasileira. O samba dos mais mobilizados e conscientes (havia um conformismo pesado no meio das escolas de samba convencionais) mandando ver o seu descontentamento em seu próprio terreiro.

Xaxá de Ajudá e a rainha Mina do Maranhão foi um dos enredos lançados pelo bamba e diretor da Quilombo Nei Lopes para o desfile de 1984. Acho que eu, interessado em, quem sabe – não me lembro bem – entrar também na disputa do samba, cheguei até a pegar a apostila do enredo (devo tê-la guardada em algum lugar, sei lá onde) com o enunciado do tema que acabou tendo como vencedora a composição de Neguinho Jóia, Feliciano Pereira e Henrique.

E a letra? Alguém sabe aí a letra deste samba?

(Já fuçei no google. Não encontro a letra do samba, em lugar nenhum Nem mesmo o enunciado do enredo eu encontrei ainda. Acho que uma hora destas tomo coragem e peço diretamente ao Nei Lopes.)

O enredo, pelo que me lembro, baseava-se na pesquisa de Pierre Verger, que defendia a hipótese de que a Casa da Minas, templo principal do culto do Vudu no Maranhão, teria sido fundada por Na Agotime, da família real de Abomé, esposa do rei Agonglô (1789-1797) e mãe do Rei Ghezo(1818-1858) , vendida como escrava por Adandozan, seu irmão (suposto usurpador ) que ocupou o trono do Dahomey após o falecimento de Agonglô). Xaxá foi um dos personagens centrais desta história eletrizante, pois foi amigo de fé irmão camarada de Ghezo, tendo sofrido – e gozado – a paga por esta fidelidade canina ao futuro rei.

Nasce daí, suponho toda uma mitologia no meio do movimento negro brasileiro atribuindo a Xaxá simpáticos atributos de comerciante brasileiro mulato, que foi uma espécie de rei africano. História inventada, sabem como é. Quem conta um conto sempre aumenta um ponto.

Deste pouco que me recordo, portanto Xaxá, um suposto mulato bem sucedido, que ‘fez’ a África era pintado no enredo com cores um tanto brandas, panos quentes bordados com lantejoulas. Juro que não lembro bem, mas a impressão que me ficou foi a de que ele era descrito até como um cara do bem, gente boa, digamos assim.

Apenas de passagem, pela impressão que ficou, se dizia apenas que ele ficou rico ‘como comerciante’, e nem me lembro se o fato de sua fortuna ter tido origem na sua sórdida ocupação, como traficante de escravos foi mesmo citada. Se houve, a citação ao fato foi apenas circunstancial, quase como se ele tivesse sido mesmo um herói exemplar de nossa tão vadia negritude. Pintaram o Xaxá branco de mulato, pois, na intenção de entronizá-lo como herói de nossa ‘consciência negra’ e nossa carnavalesca África idealizada.

A razão me aparece bem clara agora: Queimar o filme de Xaxá, tão ligado que estava ele, carne e unha, com a nobreza do Dahomey, seria queimar toda aquela inefável africanidade sacrossanta do Benin mítico. O buraco era no entanto bem mais embaixo:

…Para os governantes do reino do Daomé (antigo nome do Benin), o comércio de cativos era um projeto econômico oficial, de desenvolvimento comercial e fortalecimento de um Estado. Esse ambiente foi favorável à chegada de brasileiros dispostos a trabalhar como negreiros, entre os quais o lendário Francisco Félix de Souza.

A trajetória de Souza ganhou ares de folhetim quando ele foi preso pela petulância de cobrar uma dívida do rei Adandozan (como castigo, consta que o rei ordenou que o prisioneiro fosse mergulhado várias vezes ao dia em um tonel de índigo para que sua pele ficasse escura).

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

(Não era preto, nem branco, nem mulato. Nem preto nem mulato ficou. Virou branco. Não gosto mesmo de ‘história oficial’, inventada como esta então…)

É que eu queria passar aqui uma visão mais cheia de nuances desta imagem sempre edulcorada de Xaxá – esta do enredo de samba – para daí enveredar pelos mistérios  mais soturnos deste Francisco Félix de Souza que, pelo pouco que li, à vera mesmo, era mesmo um ser humano execrável, muito mais canalha que herói, mas mesmo assim um personagem fascinante.

Ai como queria ver o Xaxá mítico, vestido de rei, correndo atrás do Xaxá nú, sem maquiagem. Ah, como queria poder humanizá-lo, torná-lo algo perto do Xaxá… real.

E segue a história oral de Xaxá:

…Nesse ínterim, porém, o baiano fez um pacto de sangue com o príncipe Gakpé, que cobiçava o trono. O irmão caçula do rei ajudou na fuga do brasileiro em troca de seu apoio em um golpe que, por fim, destituiu Adandozan. Souza entrou para a nobreza: foi consagrado vice-rei de Uidá. Ganhou um título honorário inédito, o de ‘Chachá’, e o direito de monopolizar o tráfico de escravos no Daomé.

…O Chachá (aí já se referindo aos Chachás modernos, do século 20) arbitra os conflitos que não implicam em crime de sangue e disputa de propriedade. Além disso, ele tem certo peso eleitoral e é a referência maior de uma identidade cultural, os agudás”, diz Milton Guran.

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

(E aqui, num preâmbulo em verdade em verdade vos digo: não me interpretem mal e não me torrem o saco: Muito bem sei que isto aí de estabelecer o real é coisa impossível de ser feita, mas o anseio de fazê-lo apaixona qualquer curioso contumaz feito eu. Vejam bem que é desta ansiedade curiosa que a história humana, mal ou bem, vive.

É que andaram dizendo por aí alguns doutos amigos, pejorativamente concluí, que o Titio é um ‘essencialista‘ enrustido e incorrigível, fazer o que? Sabem lá o que é isto? Filosofia numa hora destas? Refletir se as coisas são ou apenas aparentam ser  com o chicote das ambiguidades de Xaxá no quengo?  Se eu penso que Xaxá é assim como o descrevo, logo este meu Xaxá existe, ora. Quem quiser que imagine outro, sei lá.

Conversa para mais de metro de instigante, não é não? mas só para os que entendem a graça de piadas feitas de sutilezas e ambiguidades. O Xaxáessencial‘ ou o Xaxáexistencial‘? Qual dos dois seria o Xaxá real? Será que existiu mesmo um Xaxá… real?

O certo é que, da parte que nos interessa, Xaxá não é, de modo algum isto tudo aí de bom que disseram. Xaxá, gente de Deus, mesmo na dimensão embaçada de sua história de ‘homem de seu tempo’, a mim parece ter sido um ser humano para lá de asqueroso.

Xaxá na Internet 01:

…Filho de índia com português (nota: e aqui reside a primeira ambiguidade na biografia de Xaxá), Souza nasceu na Bahia, em 1754, e desembarcou no Daomé, acredita-se, em 1788. Escrivão e contador do Forte São João Batista de Ajuda, em Uidá, logo tornou-se mercador influente – dependia dele a entrada ao reino de produtos como pólvora, fuzis, cachaça – e galgou a aura de mito nos relatos de viagem da época, alardeado por manter 2 mil escravos em seus barracões, ser pai de 80 filhos homens (não houve contabilidade de filhas) e gozar de sua fortuna em festins cercados das mais belas mulheres e de vinhos, iguarias e roupas finas importadas de Paris, Londres e Havana.

(por Ronaldo Ribeiro. Fonte: National geographic Brasil)

Ou:

Era filho de um português traficante de escravos e de uma escrava. Aos 17 anos foi alforriado. Entretanto, seus descendentes o retratam atualmente como se fosse muito branco e louro. O mais provável é que tenha sido um mestiço indefinido.”

(Fonte Wikipedia)

Sem jeito neste torvelinho de disse me disses, fico e partilho com vocês, por enquanto, apenas esta vaga impressão de que o Xaxá retratado como um mulato comerciante de escravos que virou uma sumidade no Reino do Dahomey, como uma espécie de primeiro ministro, quase rei, existiu sim, se pode afiançar, mas ninguém sabe bem como era mesmo a cara dele, porque ninguém disse ou registrou o que viu.

(É que a forte desconfiança de que inventaram um retrato pintado dele baseado na aura heroica do aventureiro italiano Giusepe Garibaldi nunca me abandonou)

A grande contradição que permanece, contudo é que, mesmo se ele tivesse sido um branco (e reparem: não há nenhuma evidencia desta história aí dele ter sido mestiço), ele se perpetuou mesmo foi como se negro fosse e, ainda assim, nesta perpetuação de sua negritude tão improvável, desta sua desmiscigenação tão inusitada, evidenciada por sua descendência, ele na verdade muito menos que honrar, denegriu, vilipendiou a sua nova ‘raça‘, ensinando, repassando a execrabilidade de sua profissão de traficante de escravos aos descendentes negros, que se dedicaram também, diligentemente, tanto quanto ele, ao sórdido negócio do contrabando de carne humana.

Se liguem: Xaxá foi, portanto o decano, o maior de todos os piratas sangrentos do comércio de escravos da África Ocidental para as Américas. Xaxá foi o cão odioso contador meticuloso de cargas humanas a serem despatriadas para as Américas. No Dahomey no século 19 ele foi uma espécie de agigantado ‘Sebastião Curió ‘ (como aquele tenente que ganhou o direito de pelar a Serra dourada, sugando e chicoteando garimpeiros, como paga por ter matado em emboscadas covardes, a serviço da ditadura militar um punhado de guerrilheiros no Araguaia).

Traficante de almas e estuprador da história, é isto que o Xaxá foi.

E como ele, muitos outros supostos heróis de nossa negritude (como negros ‘de escol‘, de ‘elite’) também foram escrotos traficantes de escravos. A história da África Ocidental desta época aí, até o século 19, está cheia de nomes de negros, africanos ‘da gema’ ou descendentes diretos destes, que enriqueceram como ‘comerciantes‘ (traficantes) de escravos.

Bairrismos à parte, convenhamos que a maioria destes traficantes negros, presume-se, era composta por gente nagô (yoruba) estabelecida em Salvador, Bahia e em Lagos, Nigéria. Vocês se surpreenderiam com a quantidade deles, principalmente com aqueles que acabaram desempenhando proeminentes papéis na invenção e na fundação do Candomblé no século 19.

Cala-te boca. Melhor por hora, deixar pra lá. Fiquemos com o Xaxá. bode expiatório desta galera toda, escondida debaixo do tapete de nossa ainda rasa “consciência negra”.

Xaxá na Internet 02:

…Francisco Félix começou a negociar na região atuando como traficante de escravos, a mesma profissão que tinha sido exercida por seu pai. Entretanto, como chegou na África praticamente em estado de miséria, alguns relatos dizem que entrou no negócio de tráfico de escravos levado pelo seu sogro Comalangã, régulo da ilha de Glidji, na localidade de Popó, e pai de sua primeira esposa, Jijibu ou Djidgiabu…”

O mais incrível, o profundo, o mais…emblemático aspecto de toda esta conversa, é mesmo o sentido recôndito e perverso da ‘desmiscigenação‘ de Xaxá, uma espécie de paradigma da alma social brasileira dada a tantas – e, às vezes, tão inescrutáveis – ambiguidades.

O que mais me impressiona nessa cultura agudá – a cultura dos descendentes de brasileiros no Benin atual – é o fato dela existir. Ou seja, de antigos escravos terem usado a memória da escravidão, do tempo de vida no Brasil, para construir uma nova identidade”, diz o antropólogo e fotógrafo Milton Guran, autor do livro “Agudás, os brasileiros do Benin”, e pesquisador do Centro de Estudos Afro-Asiáticos e professor do Instituto de Humanidades da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro .”

(Fonte: National geographic Brasil)

Pois bem, Xaxá (que ao que tudo indica e como vimos, de negro ou mesmo de mulato tinha quase nada) é a ponta suja da meada de toda esta simpática história dos ‘Agudás‘.

Queria comparar a imagem deste ícone de nosso passado escravista com a magnífica imagem deixada por ele na África, onde se transformou, a si e a toda sua descendência, numa verdadeira etnia africana, uma estirpe real, negra sim (a despeito de sua origem de ‘Souza‘ ser tão alvamente portuguesa), uma dinastia com ampla influencia política no velho Daomé, hoje Benin até os dias de hoje. Sim, sim: Os ‘Souzas‘ descendentes do Francisco Félix de Souza são a origem genética do povo ‘Agudá” do Benin.

Os agudás se conservam sociologicamente católicos e brasileiros[…], à sombra do culto da família e da casa organizada em torno da mulher e da monogamia…

(Gilberto Freyre)

Meninos seguem um cortejo carnavalesco diante do muro com um cartaz que lembra Paul Emile de Souza, 'agudá' que foi presidente do Benin durante curto período. Outro 'agudá', o monsenhor Isidore de Souza, articulou a transição de um regime totalitário marxista, que durou 18 anos, à democracia no começo dos anos 1990. Eles e mais uma penca de ilustres membros da família 'Souza' são descendente diretos de Xaxá de Ajudá.

(Meninos diante de cartaz com Paul Emile de Souza, ‘agudá’ que foi presidente do Benin durante curto período. Outro ‘agudá’, o monsenhor Isidore de Souza, articulou a transição de um regime totalitário marxista, que durou 18 anos, à democracia no começo dos anos 1990. Eles e mais uma penca de ilustres membros da família ‘Souza’ são todos descendentes diretos do ‘branco’ Xaxá de Ajudá. foto Ricardo Teles)

Vão vendo aí. Conferindo:

Xaxá foi um branco que se unindo à reis negros que vendiam outros negros, acabou pintado pela história como se mulato fosse.

Xaxá foi aquele branco que se amasiando com negras africanas, teve dezenas de filhos, mulatos, os quais, no embalo de sua descendência foram se tornando negros, cada vez mais negros, inaugurando e perpetuando por fim uma dinastia negra ‘legítima‘– uma etnia – ‘autenticamente’…africana.

Xaxá é então o exato inverso do sonho de Graça Aranha, a mais perfeita ‘destradução‘ de seu romance Canaã no qual a importação de emigrantes europeus, a miscigenação e a extinção por morte fariam com que os negros desaparecessem do Brasil em… um século).

Xaxá é a desmoralização descarada do ‘elogio à mestiçagem’ teoria civilizatória eugenista e esquizofrênica, adorada em segredo pela maioria dos antropólogos do Brasil.

Xaxá é isto e aquilo (ou não), mas nunca é (ou foi) o que parece. Xaxá é a teoria do ‘desembranquecimento‘ atropelando a mestiçagem do “Esquenta” da Regina Casé e do Hermano Vianna, na prática, bem antes de existir a ‘antropologia plim plim‘ da TV Globo.

É! Podes crer!

Xaxá foi o suposto branco que em 100 anos, por aí, conseguiu transformar em negra retinta toda a sua descendência, transformando assim a marca ‘Souza”, ao mesmo tempo em emblema e estigma, marca registrada e cicatriz de sua insidiosa atividade comercial, alçada à condição de inusitado prato frio da vingança (como anti propaganda que é do racismo instalado no Brasil pela escravidão) inesperada garfada de degeneração.

Xaxá de Ajudá (espécie de símbolo dos brancos racistas do Brasil) foi o traficante de si mesmo. Era – e é – a cara feia do Brasil, esse babaca preto de alma branca.

Ah! E chega de lero lero metafísico porque senão…os ‘anti essencialistas’ piram!

Spirito Santo

Agosto 2012

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~ por Spirito Santo em 04/08/2012.

8 Respostas to “‘Xaxá de Ajudá’ e a ‘mancha branca’ da nossa escravidão”

  1. Muito boa a sua colocação. O Xaxá tem uma dinastia no Benin atual, assim como existe no Togo a família Lawson e em Gana a família Johnson, com dignidades de reis tradicionais, construídas as suas riquezas através do tráfico de escravo e da exploração. Mas tem umas famílias negras do Brasil que fugindo com a forte presença de imigrantes europeus, durante a teoria do embranquecimento no final do século XIX e início do século XX, que fugiu para Nigéria, Benin, Togo e Gana, como a família Mendes, Alakidja, entre outras. Vale a pena pesquisar, pois estes chegaram no início da colonização africana e ricos no Brasil, se enriqueceram ainda mais na África, exatamente por conhecer bem o sistema ocidental e terem a cara dos africanos. Nestes não tinham muitos mestiços. Eram negros bem sucedidos mesmo, que ao chegar na África acabaram facilitando em serem intermediários entre aqueles que queriam colonizar e aqueles que lutavam contra a colonização. Erros dos tempos e incorreções incorrigíveis.

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  2. Marcelo,

    Conheço o livro, embora não o tenha lido. Esta história é muito conhecida, aliás o enredo que deu neste samba aí, saiu da pesquisa do Pierre Verger.

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  3. olá… Já leu UM DEFEITO DE COR da Ana Maria Gonçalves? Tem essa história. A música que você se refere tem num artigo do Pierre Verger chamado Uma rainha africana mãe de santo em São Luís, 1990.

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  4. Maravilha. Esta ‘woman slave’ eu tinha em versão menor. tenho quase certeza que é do Eckhout e deve pertencer a mesma série da visita de Dom Miguel de Castro à recife, todos os quadrso da série tem autor desconhecido, mas pelo estilo, local e época presumo serem de Eckhout.

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  5. Falai ai Spirito Santo, encontrei imagens nesse site que vão lhe agradar http://thewalters.org/news/media-library/exhibitions/list.aspx?mid=85

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  6. Boa info. Nunca havia ouvido falar desse. mas a coisa deve ter sido muito recorrente mesmo. Em Angola tem uma enorme família chamada Van Dunen, descendentes de um holandês sobre o qual também pouco sei ainda.

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  7. o caso de Francisco Félix de Souza não é unico, o mercador de escravos holandes Willem Bosman deixou vários descendentes com seu sobrenome em Gana

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  8. Sensacional este seu relato que de uma maneira bem ardilosa faz com que existam ainda verdadeiras sequelas ditas raciais pelos antropólogos de plantão que procuram minimizar o crime dos escravocratas, e a riqueza que possuem até hoje pelo tráfico negreiro.Fui criado na zona sul do rio de janeiro e como sempre esta memória foi bem escondida,fiz amizades e em uma delas ou várias tive amigos de famílias mineiras que nunca me convidavam para fim de semana em suas fazendas.Anos depois uma amiga me confidenciou que em uma de suas fazendas existiam ainda resquícios de aparelhos como algemas e outros equipamentos de tortura que não sei o nome para aprisionamento de escravos que como outros teriam vergonha de mostrar um passado que ainda querem manter escondidos talvez por medo de uma possível indenização,que começa a se delinear pelo descobrimento de nossa verdadeira história,portanto tais relatos devem ser bem guardados para uma futura formalização de processos indenizatório

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