Guerra Santa dos Malês. Ahá! Aquilo foi mesmo uma Jihad!

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Esta gravura do século 19 mostra uma caravana de comércio de escravos árabe transportar escravos negros africanos através do Saara. O comércio de escravos trans-saariano desenvolvido nos séculos 7 e 8 como árabes muçulmanos conquistaram a maior parte do norte da África. O comércio cresceu de forma significativa a partir do 10 para o século 15 e atingiu o pico em meados do século 19.

O comércio de escravos trans-saariano se desenvolveu nos séculos 7 e 8 quando os árabes muçulmanos conquistaram a maior parte do norte da África. O comércio cresceu e atingiu o pico em meados do século 19, sendo francamente adotado pelos colonialistas europeus já no século 16.

Livro de Kangni Alem, do Togo quebra a banca de JJ Reis.

Titio falou e disse: Em algumas poucas páginas o desmonte da tese de JJ Reis sobre a Revolta dos Malês.

Resenha livre abusada de algumas poucas páginas do livro “Escravos” de Kangni Alem

(Tradução de Aurélio Barroso Rebello e Laura Alves. Revisão de tradução de Fernanda Pantoja) Fonte: Editora Pallas, 2011. 258 págs., R$ 38. Romance.)

“Kangni Alem nasceu no Togo, em Lomé. Possui PhD em Francês e Literatura Africana e Francesa na Universidade de Bordoaux. Romancista e dramaturgo, já publicou mais de dez livros. É professor de Teatro e Literatura na Universidade de Lomé (Togo). Seu trabalho explora a memória política e histórica da África em temas como escravidão, ditadura e questões culturais e raciais. Um de seus livros mais importantes é ‘Escravos’ (‘Esclaves’) .

No final do século XVIII e início do século XIX, a onda de revoltas de negros escravizados resultou num clima generalizado de histeria antinegro nas colônias, do qual nem as metrópoles brasileiras escapariam. Mas a principal inovação nesse período foi o envio de negros “indesejáveis” de volta à África, para que não perturbassem a ordem escravista.

A maioria dos escravos expulsos do Brasil era composta por negros alforriados antes da abolição da escravidão no Brasil (1888). Os que retornaram do Brasil tiveram certamente muitos motivos, mas não é possível esquecer, entre eles, a violenta repressão à Revolta dos Malês (1835).

“…Graças aos libertos retornados, formava-se na costa ocidental da África uma elite profissional e política que, lá, conseguira o que a aristocracia agrária e escravista lhes negara nas Américas.”

“…Seu súdito mais fiel, um jovem mestre de rituais, é vendido para um comerciante Inglês e enviado como escravo ao Brasil. Kangni Alem narra a saga desse personagem que, depois de 24 anos como escravo e de participar de inúmeras revoltas, retorna à África para honrar a memória do seu rei, morto no esquecimento, para um país que o tornara estrangeiro.

Kangni Alem nasceu no Togo, em 1966. Autor de peças teatrais, contos e romances, ensina teatro e literatura comparada na Universidade de Lomé.

(Trechos da resenha oficial da Editora Pallas para a edição brasileira de “Escravos”)

Como veremos rapidamente a seguir, as resenhas do livro de Kangni Alem cometem crioulodoidices crassas com o enredo que é o de um romance histórico. Quem conhece o gênero, por mínimo que seja sabe que ele costuma se apoiar em dados e documentos históricos atestados, cabais no máximo possível, em cujos hiatos e entrelinhas não sabidas – ou mesmo insuficientemente comprovadas ou ambíguas – se insere amarrações e ganchos ficcionais, imaginados. Isto significa dizer que os fatos e personagens dados como sendo verídicos não são nunca contraditados ou alterados, estruturais que são a toda arquitetura ficcional do texto.

Vivo martelando isto aqui: Há que se ter muito cuidado ao resenhar a história africana do Brasil por causa das inúmeras mistificações interpostas na bibliografia, a maioria marcada por desvios relacionados ao indefectível mito da supremacia nagô, por exemplo, o apagamento compulsório das evidências que desmentam esta teoria tão cara à historiografia acadêmica do Brasil de que houveram aqui uma casta minoritária de negros africanos ‘puros‘ e superiores (os ‘nagôs‘ yoruba) e uma esmagadora maioria de uma massa negra amorfa, negra ou mestiça, sempre impura, a quem a inferioridade étnica, cultural (e genética) justificaria reservar a ela os piores lugares da sociedade.

É que velha e destrambelhada mentira, de tanto ser repetida nos livros acabou virando verdade por aí.

São muitas as pedras deste caminho. As maiores são aquelas espalhadas na estrada por alguns intelectuais brancos e negros, acadêmicos em geral, ciosos de uma história do afro brasileira pretensamente heroica, marcada por fantasias épicas, às vezes totalmente impertinentes e inverosíméis…descabeladas, costumo dizer.

O caso de Nã Angotimé a tal “rainha negra do Maranhão” é emblemático. É ele que, de forma até nem muito fortuita liga as pontas do romance de Kangni Alem com outras mumunhas ocultas da história africana do Brasil.

Tem jeito não: Tudo de bom na história do negro do país costuma ser atribuído a alguma gênese ligada a dinastias de nobres, reis, príncipes e rainhas, misteriosamente deportados para cá ou vendidos como escravos. Incrível! Nunca se atribui a herança cultural e civilizatória do negro africano no Brasil à pessoas negras comuns. Vejam nas ambíguas minúcias abaixo o quanto de joio se precisa tirar deste trigo:

Segue a  resenha dita por mim ‘oficial’ da Editora Pallas:

“…Escrito pelo dramaturgo e escritor togolês Kangni Alem, ‘Escravos’ conta a história dos primeiros afro-brasileiros. No início do século XIX, o tráfico negreiro fez a fortuna dos senhores de escravos e seus aliados no continente africano. O único que se atreve a falar contra a escravidão, o rei Adandozan, é deposto. Seu súdito mais fiel, um jovem mestre de rituais, é vendido para um comerciante Inglês e enviado como escravo ao Brasil.

Kangni Alem narra a saga desse personagem que, depois de 24 anos como escravo e de participar de inúmeras revoltas, retorna à África para honrar a memória do seu rei, morto no esquecimento, para um país que o tornara estrangeiro.”

Parece certo, mas leia esta outra resenha sucedânea:

“Kangni Alem nasceu em Lomé, capital do Togo, África, em 1966. Possui PhD em Francês e Literatura Africana e Francesa na Universidade de Bordoaux. Romancista e dramaturgo, já publicou mais de dez livros. É professor de Teatro e Literatura Comparada na Universidade de Lomé (Togo).

Seu trabalho explora a memória política e histórica da África em temas como escravidão, ditadura e questões culturais e raciais. Um de seus livros mais importantes é Escravos, lançado no Brasil pela Editora Pallas em 2011, que narra a saga de um rei chamado Adandozan, do próspero reino de Daomé, que é traído pelo irmão e vendido como escravo ao Brasil; depois de participar da Revolta dos Malês, converte-se ao Islã e retorna à África, para um país que o tornara estrangeiro.

O percurso deste personagem é emblemático como de toda uma população de “Afro-brasileiros” que se estabeleceu no século 19 ao longo da costa do Golfo da Guiné (África Ocidental), vinda do Brasil, especialmente de Salvador, Bahia. “Escravos” é uma contraversão romanceada de “O Vice-Rei de Uidá”, do inglês Bruce Chatwin, que a partir dos mesmos fatos tidos como históricos, a partir do resgate documental de Pierre Verger, pinta Adandozan como um traidor cruel e louco. As razões de Kangni Alem para a nova visão sobre o real monarca Adandozan serão expostas na Flica 2012.”

( FLICA, Feira Literária de Cachoeira, Bahia – 2012)

Ui!! Crioulo Doido até se desendoidece nesta hora.

É por estas e outras que o Titio sempre recomenda muita calma nesta hora. É que em muitos casos, como este do romance de Kangni Alem – graças a Deus um togolês – baseado em incidentes históricos africanos a nós brasileiros relacionados diretamente, as resenhas brasileiras (pelo menos as que tivemos a oportunidade de ler sobre o assunto) pelas mesmas razões aludidas acima, podem nos levar a conclusões bem estapafúrdias.

A maioria destas distorções recorrentes – tirando esta mosca incrível comida pelo pessoal da FLICA baiana – diz respeito aos panos quentes com que historiadores em geral – e próceres do movimento negro em especial – só como exemplo, tentam ocultar as práticas escravistas dos reis do Daomé deste período. Assim, a associação comercial francamente escravista firmada entre Ghezo (irmão de Adandozan) e o mega mercador de gente Xaxá de Ajudá, – prática ademais usual entre todos os reis do Daomé no período (e isto sem falar nos de outros reinos africanos) – acaba atenuada, velada para dar lugar a uma nobreza africana idealizada. Não é, pelo que parece o caso de Kangni Alem, felizmente. Vejam o que diz uma outra resenha brasileira sobre o seu livro:

“O livro conta a história de um mestre dos rituais Vaudoun (babalorixá) e do rei de Abomey (Adandozan), que foi traído e depois vendido em 1818 a um negociante inglês que o enviou ao Brasil e retorna a sua terra natal em 1836 como muçulmano. Tendo se convertido durante a revolta dos Males, em Salvador (1835), participou dela ativamente como um dos líderes. Adandozan mudou pelo menos três vezes de nome… “

(Biblio França, o portal do livro francês )

 Para começar, o termo ‘babalorixá‘, de origem claramente yorubana nada tem a ver com o nome dos sacerdotes de vudu que se chamam hoje no Haiti hougan‘ (homens) e ‘mambo‘ (mulheres) e ‘vudunce‘ no Maranhão, Brasil. Lógico que é mais pertinente se considerar que estes termos atuais devem guardar alguma semelhança com suas origens etimológicas no Daomé (Benin).

Em segundo lugar, ao contrário do que o texto desta resenha parece confusamente nos indicar, o rei Adandozam jamais foi ‘traído’, exatamente, como um heroi bíblico. Na verdade ele foi deposto por seu irmão Ghezo e, pelo que ficou registrado pela história oficial do Benin (escrita a princípio pelos colonizadores e seus aliados locais), era um “crápula sórdido e sanguinário”, estigmas que Kangni Alem tenta agora apagar ou melhor esclarecer em seu romance.

O erro mais grave desta resenha brasileira é, pois, confundir a história fictícia do personagem ‘Miguel‘ (o mestre de vudu, suposto discípulo de Adandozam na história, que é quem seria efetivamente vendido como escravo para o Brasil e aqui se converte ao islamismo) com o Rei Adandozam, cujo paradeiro real, depois de deposto não foi, de modo algum o Brasil.

Como tivemos a oportunidade de ressaltar num post recente, aqui mesmo no blog (veja no link: Xaxá de Ajudá e a mancha branca da nossa escravidão) até mesmo as sórdidas atividades escravistas de Xaxá são muitas vezes minimizadas nos livros, existindo até versões de sua suposta biografia que circularam nos anos 1970, afirmando que ele teria sido um “promissor e pioneiro comerciante’… mulato empreendedor, quase um negro heroico e pitoresco vice rei do Daomé.

Tudo falso. Xaxá era tecnicamente um português branco, apenas nascido no Brasil (supostamente filho ou neto de uma índia com um português poderoso funcionário do Forte de São Jorge de El Mina, grande entreposto comercial lusitano na Costa ocidental africana), ambos cruéis traficantes de milhões de almas para o Brasil e para as Américas em geral na virada do século 18 para o 19.

Existem sim uma série de incidentes, supostamente ocorridos no Brasil relacionados à história do Daomé/Benin. O mais célebre é aquele que se refere a introdução do culto do Vudu daomeano no Maranhão, atribuída a uma espécie rainha do Daomé, a suposta deusa e sacerdotisa do vudu maranhense Nã Angotimé que existiu sim, pois foi a madrasta de Adandozan (teria sido deportada por ele como escrava para o Brasil) ele, Adondozam personagem real que sustenta a trama dos dramas de “Aluna“, imaginado personagem do livro “Escravos” do togolês Kangni.

A tese sobre Nã Angotimé, como se sabe é do insuspeito Pierre Verger, mas me parece algo fantasioso que uma figura proeminente da família real de um reino tão poderoso e importante na conjuntura política do colonialismo do início do século 19, fosse deportada para cá e nunca encontrada, ainda mais se tivesse sido ela, realmente uma importante líder religiosa por aqui, residindo num sítio tão minúsculo como devia ser São Luís do Maranhão da época, onde poderia ser facilmente encontrada.

Adandozam foi efetivamente deposto logo depois por seu irmão Ghezo, com a ajuda do seu sócio escravista Francisco Félix de Souza, o Xaxá de Ajudá, que assume funções de eminência no poder do reino por conta, exatamente deste seu favor inestimável, se transformando então no maior traficantes de escravos de seu tempo.

“..Adandozan também é retratado como incompetente – como comandante e guerreiro – e como um traidor da família real, pois teria vendido sua madrasta, a rainha Nã Agontimé, aos traficantes de escravos. Gakpe, que já havia fingido problemas mentais para evitar atrair a atenção do irmão, fugiu para o exílio. Pesquisas realizadas por Pierre Verger sugerem que Nã Agontimé teria sido enviada como escrava a São Luís do Maranhão – onde foi renomeada como Maria Jesuína – e seria a fundadora da célebre Casa das Minas . “ (fonte Wikipedia)

A mais promissora referencia histórica que se pode encontrar na obra referencial de Kangni Alem, no entanto são as candentes evidências de que, como o Titio tanto insistiu na hoje popular série (“Revolta dos Malês. João José Reis e a Historiografia…”) a Revolta dos Malês pode ter sido mesmo, não uma mera revolta de escravos africanos nagôs ‘heroicos e superiores‘ (como afirmou enfaticamente em seu livro o historiador JJ Reis e como afirma também a maioria seus pares), mas sim um braço americano de uma Jihad islâmica que mobilizou muçulmanos – inclusive escravos, mas não somente, nem preferencialmente  – sacudindo a ordem constituída de muitos países que haviam trazido muçulmanos para seu território.

“Eu não disse? Eu não disse? Eu não disse?”

Este trecho da obra de Kangni Alem que pinço aqui exultante, em sendo uma tese abalizada de um historiador africano de alto nível acadêmico, parece que desmonta fragorosamente as teses toscas de João José Reis e seus seguidores.

Página 247 do livro "Escravos" do toglôs Kangni Alem

  Página do livro “Escravos” do togolês Kangni Alem, 2011.

Cismado que só eu, analisando com lupa estas páginas tão elucidativas, achei curioso demais também a meticulosa estratificação eugenista descrita na suposta lista de ‘infiéis‘ a serem dizimados pelos jihadistas da Bahia. Preciso ler “Escravos” no original para saber se esta meticulosidade (ipsis leteris a mesma estratificação adotada por JJ Reis e Nina Rodrigues) foi resultado da pesquisa do próprio Kangni Alem (que, eventualmente pode ter lido JJ Reis) ou se foi introduzida aí pelos tradutores ou resenhistas distraídos.

De todo modo acho bastante improvável que líderes religiosos islâmicos no século 19 fossem se valer dos princípios claramente racistas que caracterizam a lista. Não nos parece condizente com a doutrina islâmica tal qual a conhecemos hoje e os princípios do conceito ‘Guerra Santa“. Mais provável que a intenção dos Jihadistas fosse assassinar TODOS os infiéis, todos aqueles, brancos ou não que não seguissem o Islã.  Consideremos fortemente inclusive que no amplo contexto destes muçulmanos devia haver até uma considerável parcela de pessoas ‘árabes‘, ou mestiças com árabes, e outros povos do norte da África de perfil fenotípico não exatamente negróide, ou seja nunca um recorte racial assim tão radical como JJ Reis e seus pares asseveram. É o que sugere este trecho do livro de Alem:

  Página do livro "Escravos" do togolês Kangni Alem, 2011.

Viram só? Um dos mais ativos militantes da causa jihadista, denominado Félix Santana, pai de um dos presos na refrega é um aristocrata… mulato? É. Parece que o veneno de JJ Reis andou ciscando no livro de Alem também, pelo menos como referencia para a tradução, gerando mais este ruído conceitual aí. Kangni Alem como se pode ver neste personagem, contudo não mordeu a isca eugenista aí não.

Desculpem o Titio. É que pulgas nas orelhas ardem.

Amante inveterado das entrelinhas, chamo a atenção de vocês também para um fato não menos candente desta eletrizante resenha. Reflitam com o Tio: Se ‘Miguel‘ o personagem discípulo de Adandozam, como diz uma das resenhas que li, se converte ao islamismo já aqui na Bahia, pode-se supor então que não era assim tão relevante a população jêje vinda já islamizada da África no período e – o que é mais importante ainda –  nem muita extensa, por outro lado a participação de gente do Daomé na Revolta. Teria havido aqui no Brasil, portanto um bem sucedido – e subversivo – processo de disseminação da crença muçulmana por parte de sacerdotes maometanos nagôs, fenômeno que muda muita coisa no quadro da formação das religiões afro negras no Brasil.

Por esta hipótese, a tão propalada associação religiosa entre os jêjes e nagôs (ou ‘ewe’ e ‘yoruba’), um dos pilares do mito da supremacia nagô, seria muito mais uma associação étnica assentada ideologicamente no Islamismo e, portanto bem anterior à própria invenção do Candomblé. As supostas premissas da tal ‘pureza negro africana’ destes ‘africanos seminais‘ (na tese eugenista de JJ Reis e outros), como o Titio sempre sugeriu, poderia estar ligada a uma espécie de ‘islamismo enrustido’, camuflado, do qual o Candomblé seria uma espécie de aculturação e nunca uma ‘purificação’, de resto tão improvável.

De fato, mesmo do ponto de vista destes eugenistas toscos, etnicamente esta aculturação evidente (que pode ser vista em certos detalhes sutis dos rituais do chamado ‘Culto aos Orixás’ da Bahia) seria tão ‘impura’ quanto o subestimado e vilipendiado (pelo nagôs e seus acólitos mais radicais) Afro catolicismo dos bantu.

A se conferir, pois este será o mote de um próximo post aqui do blog.

Olhos atentos e orelha em pé. E tomem mais entrelinhas:

…O percurso deste mestre de rituais (‘Miguel’, nota minha) é emblemático como de toda uma população de “Afro-brasileiros” que se estabeleceu no século 19 ao longo da costa do Golfo da Guiné (África Ocidental), vinda do Brasil, especialmente de Salvador, Bahia.”

Esta ponta aí de cima de nossa história então, tem mais e mais panos quentes (para mangas frias). Em verdade vos digo que existem evidências bem fortes de que esta “população de afro brasileiros que se estabeleceu no século 19 no Golfo da Guiné” – em sua maioria pessoas dignas, diga-se de passagem – abrigou no entanto, infelizmente um número considerável de comerciantes negros muito ricos, há muito tempo libertos, alguns deles ligados intimamente ao comercio e a indústria colonialista em África (em Lagos, Nigéria, principalmente) para as Américas, instancias colonialistas estas que utilizavam, francamente – e sem nenhum pudor ou solidariedade étnica ou racial – o braço escravo.

“…Elite profissional e política…” Diz e escreve uma destas resenhas brasileiras, se esquecendo das linhas tortas.

Verdade seja dita: Aliás, alguns destes pretos ricos estavam mesmo dedicados, visceralmente ao tráfico de escravos nos anos finais do degradante comércio, principalmente àquele tráfico clandestino do Porto de Benguela para o Rio de Janeiro, a quem as pedras do Porto do Valongo tanto evocam. As pulgas cochicham nas minhas orelhas que as raízes mais profundas deste ‘elitismo negro’ que se aferra ferozmente a manutenção do “Mito da supremacia nagô” está fincada aí neste passado de velhas chagas que ninguém quer tocar, como uma bandeira espúria que tremula no céu do racismo brasileiro até hoje.

                                 Página do livro “Escravos” do toglôs Kangni Alem, 2011.

Mas isto já é outra conversa que nada tem a ver com as calças do jihadista Miguel, do Benin.

Pontas soltas, páginas arrancadas ou borradas de nossa história que podem preencher lacunas doídas, como esta de explicar como se montou, esta capa de interesseira – e racista – historiologia sobre o negro do Brasil, são estas perguntas que não querem calar. Vale a pena cavucar a própria carne? Dói, mas acho que sim.

Vivo repetindo aqui: A verdade – mesmo que sendo apenas esta, ainda suposta-  é o que nos liberta. Quem não achar isto que se dane no inferno das mentiras descabidas.

————–

O que sei mesmo é que vou correndo comprar o livro do Kangni Alem. Se a resenha de umas poucas páginas dele rendeu estas pérolas ambíguas que, praticamente desmontam de vez o núcleo das teses crioulodoidas de um João José Reis sobre a Revolta dos Malês, por exemplo (dando foros de pertinência histórica às ligeiras teses do Titio…uhhú!), imaginem o resto contido em suas muitas entrelinhas, como esta aqui:

  Página do livro "Escravos" do togolês Kangni Alem, 2011.

Página do livro “Escravos” do togolês Kangni Alem, 2011.

Bebam sempre na fonte, lá bem junto à nascente onde a água é limpa. Não confiem totalmente nos genéricos. Façam como Tio e demonstrem, sempre que puderem e em tudo na vida, o cansaço e o desejo de não serem nunca mais enganados.

Ah…e com uma abraço forte na amiga facebuquiana e colaboradora assídua do blog, a  Bete Sg que mais uma vez, com precisão cirúrgica me cantou mais esta pedra, colaborando com todos os dados (as páginas soltas desta resenha) que o Titio precisou para mais esta rápida abordagem inchirida.

E é assim, cansado se ser enganado e levantando as ventas, que o Titio subescreve-se, atenciosamente:

Spírito Santo

Outubro 2012

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~ por Spirito Santo em 30/10/2012.

4 Respostas to “Guerra Santa dos Malês. Ahá! Aquilo foi mesmo uma Jihad!”

  1. Como foi dito. A omissão desse fator tão determinante é evidente da influência do islamismo n rebelião malê, me parece deliberado.

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  2. […] https://spiritosanto.wordpress.com/2012/10/30/guerra-santa-dos-males-aha-aquilo-foi-mesmo-uma-jihad/ […]

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  3. Obrigado, Daniel. Ressaltando sempre a sua inestimável ajuda iconográfica.

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  4. Fala ai Spirito Santo, a sua dedicação pela pequisa histórica é superior a de muitos doutores por aí

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