A Roça de Teresa

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Fila de escravos, Vale do paraíba do Sul- Litografia sobre foto de Victor Frond-1859

Fila de escravos, Vale do paraíba do Sul- Litografia sobre foto de Victor Frond-1859

Afirmo que é verdade e dou fé…

Juro, de pés juntos, que é tudo verdade.

Numa noite de 1973, na quadra de uma Escola de Samba entre Cascadura e Engenho de Dentro (“GRES Arranco de Engenho de Dentro“), fiz uma entrevista impressionante. Eu e um grupo de amigos (entre os quais estava o radialista Rubens Confeti, da Rádio nacional aqui do Rio de Janeiro, o poeta Lucio Flávio e o fotógrafo José Ricardo D’Almeida).

O impressionante era que a entrevistada estava prestes a completar 117 anos e…havia sido escrava!Quem já ouviu, ou mesmo viu, uma pessoa de 117 anos? São pessoas raras. Muitos eventos que só conhecemos pelos livros, foram para elas corriqueiros.

A visão clara que elas tem do passado remoto, para nós é tão desconcertante que parece mentira. Mas juro. Não minto e repito: Isto não é ficção. Desta vez, a história é a mais pura realidade. Os incidentes que a entrevistada nos dá conta – como testemunha ocular (!) –  são de 1874, quando ela estava com 15 anos. Aconteceram, numa fazenda de café do Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, chamada Santa Teresa, num município denominado hoje Avellar (que, na época, ainda pertencia à cidade de Paraíba do Sul).

O nome Avellar é emblemático pois o patrão de nossa entrevistada era, ninguém menos, que o Visconde do Paraíba, João Gomes Ribeiro de Avellar.O nome de nossa entrevistada é Maria Teresa Bento da Silva, matriarca de uma espécie de dinastia que, sediada no morro da Serrinha, em Madureira, não só implantou no lugar o Jongo trazido da roça, como ajudou a criar, em 1947 a Escola de Samba Império Serrano (Teresa foi a orgulhosa mãe de Antônio dos Santos, o Mestre Fuleiro, histórico diretor de harmonia desta escola).

O registro foi feito num gravador K7, cuja fita, mídia fantástica que é, sobrevive intacta em meu arquivo (o arquivo do grupo Vissungo), aguardando digitalização (que já rolou!). O documento – que eu tenho um orgulho enorme de ter produzido – é um dos mais impressionantes registros históricos em áudio, que eu conheço sobre o assunto e será, brevemente posto à disposição dos interessados em algum acervo público, dos poucos que o Brasil possui.

Decidi dar a este post, que reproduz a transcrição da entrevista (também extraída, em parte, do meu livro ‘O Samba e o Funk do Jorjão), um jeito menos formal. A ideia foi deixar Teresa falar sem edição, diretamente, para nós, seus leitores. Teresa morreu dois ou três anos depois da entrevista. Tinha, pelas contas que fazia, quase 120 anos.

Ao final deste post, alguns comentários se fizeram necessários, já que a entrevista gerou uma série de questões inéditas, a serem respondidas por uma pesquisa, de veios muito ricos, que, pelo visto não vai acabar tão cedo. Um destes veios é sobre o Jongo, enquanto ingrediente importante do caldo de cultura que é o Samba e que, a partir dos elementos trazidos à luz pela entrevista, ganha contornos muito mais nítidos, no tempo e no espaço.

Contudo e por tudo, mais uma vez afirmo, é Maria Teresa, a ex-escrava quem fala sobre o que viu em 1874. Por mais desconcertante que isto possa parecer, é tudo verdade.

A Roça na voz de Teresa

..“Queria dizer que naquele tempo eles sabia fazer o que agora num vejo ninguém fazer. Faziam! Se você estava com dor de cabeça ou uma dor de barriga, eles passavam a mão assim na tua cabeça e a dor de cabeça ia embora, passavam a mão assim na tua barriga e dor de barriga ia embora. Agora não. Agora eles não faz nada. Eles não sabem é nada. Eu não…Naquele tempo era bom.

Eu não. Não sabia (curar). Só o Jongo. Num podia nada. E, depois…naquele tempo não podia aprender mais nada porque o Sr. num deixava. Nós carregava os filhos deles. Ah!.. Deus me livre se agora fosse como naquele tempo! Nossa Senhora! Se agora fosse como naquele tempo…O Visconde era de Paraíba. De Avellar. Visconde de Avellar.

Num sabe aquela família Avellar?Ainda está lá. O sobradão branco, diz que tá cheio de cobra. Num tem mais nada daquilo. Num tem mais nada daquilo, meu filho. Fui uma vez lá depois que eu vim pra aqui, com alguém. O sobrado tá a mesma confusão mas, o sobrado eu conheço por dentro. Um apartamento, lá no alto. Sobrado grande. Só a fazenda! Só o pessoal que tinha!

O Visconde tinha escravo de pagode! Tinha escravo pra duas forma. Duas forma (cerca de 300 escravos)! O visconde botava duas forma. Visconde de Avellar. Foi senhor do meu pai.…Pra quem viu o cativeiro como eu vi….É triste. Olha…se você não queria dançar,você tinha que levar couro. Se não queria fazer qualquer coisa, tinha que apanhar. Tinha tronco. Tinha tronco de campanha, tinha tronco de botar nos pés, tinha tronco de botar no pescoço, tinha isso tudo.”

A fuga da fazenda

“Meu pai era capataz da fazenda. Meu avô criador de porco, mas era porco mesmo, num era esses porquinho de hoje não. A gente passava bem e passava mal. Mas morreu muita gente e, depois o Dr. Avellar era muito ruim! O pai dele num era ruim como ele não mas ele era. É brincadeira? Botar ‘bacalhau’? Não sabe o que é ‘bacalhau’?! Aqui na cidade tinha que ainda quando eu vim aqui pra cidade eu vi ‘bacalhau’, vi tronco aqui na cidade.

‘Bacalhau é aquilo que é como se diz?…Como aquilo que é couro, enroscado assim…Um relho! Mas não era chicote não. Chicote era trançado e não era trançado não. É. É o que fazia…Dr. Avellar. Ele era filho do Visconde.…Se fugia muita gente? Fugia! Fugia! Chamava Capitão do mato. Procurava eles. O que procurava eles era o Capitão do Mato.

Coitados! Vinha tudo amarrado, algemado assim, tudo algemado, heim!”(perguntada se lá tinha quilombo, não entende a pergunta): “Em Paraíba tinha tudo. Pra onde eles fugia? Era no mato virgem. Era mais na roça. Paraíba, Campo Verde, Boa Vista, Conceição, Santa Teresa. Eu fui criada na fazenda da Santa Teresa. Era do Visconde de Avellar. Ficavam lá no mato, coitados. As vezes eles vinham, roubavam um porco do senhor e iam comer no mato. Fazia fogo no mato pra comer.

Ficava. No mato eles ficava escondido. Quando pegavam eles…meu senhor! Como passavam mal, como eles passavam mal no bacalhau…Olhe! Deus soube o que fez. Deus soube o que fez, meu filho! Eu vi isso tudo, sabe? Esse tempo eu tinha meus 15, 16 anos. Eu vi muita coisa, né? Eu era Ventre Livre, eles queriam me bater, eu disse não! Eu sou forra! Eu sou ventre livre, não sou escrava não! Escravo é minha mãe e meu pai! Queriam me bater? Não. Não me batem não!

Aí eu fugi. Eu fugi e fui encontrar com meu pai, aí meu pai era fugido…Que ele vinha fugindo do serviço, ora! Que vinha fugindo da roça!…Aí meu pai me disse: O que que ocê está fazendo aqui, minha filha?

Eu falei: Eles queriam me bater, eu fugi! Meu pai: Você não pode apanhar, porque você é forra, minha filha. Escravo sou eu, que sou seu pai! Agora você não vai mais pra lá!

Aí eu fui lá pela roça, com meu pai. Ia pra roça com meu pai e minha mãe. Deus faz a verdade, o que eu vi aquele pessoal passar aquele tempo. Dava tapa na cara das criada, dos escravo. Olha!.. Eu tinha raiva de um tal de nome Lulu. Era filho do Dr. Avellar, de que meu pai era escravo.

Eu não sei o que foi que meu pai fez, meu pai ia levar o… ele foi, veio de lá, e mandou um tapa na cara de meu pai. Aí meu pai ficou revoltoso. Ai meu tio disse assim: Vamo embora! E o meu pai, não sei se queria matar ele. Eu num sei. Foi embora. Pra roça. Aí eu tomei raiva dele. Aí ele falou: Ô crioula! Eu falei: Crioula é a sua mãe!

Que ocê deu um tapa na cara do meu pai agora! Se eu fosse meu pai eu te capava a barriga agora!

E ele: Ó sua negrinha! Negrinha, não. Não sou negrinha. Tava com 15 anos. Aí eu fui indo pra roça. Aí meu pai: Mas ocê veio pra roça? Falei: Vim que eu não quero mais ficar na fazenda. Que eles botava as crianças, as pequena, as negrinha, pra brincar com os filhos, pra carregar os filhos dela.”

O Munhambano...

“Tinha festa. Eles davam muita festa pros escravos. Muito. Eles davam S.João, Santo Antônio, tudo. Eles davam…Natal. Tudo eles davam festa. No Natal eles davam roupa…Os fazendeiros é que dava. Dava tudo. Graças á Deus! Dava tudo mas…era aquilo. Mas, era ali, ó!

Minha avó era lavadeira dos escravos. Meu avô era tratador de porco. Minha avó era Benta! Benta da Silva e meu avô também era Bento. Antônio Bento da Silva. Ela era Munhambana.

Ele também era. É. Todos dois eram Munhambanos. Ah…Eles num contaro como era de onde eles vinham não. Eles num contaro que a gente era criança naquele tempo…Meu avô num era preto não. Meu avô, o cabelo dele era aqui (mostra abaixo do ombro) Minha avó também. Meu pai era mulato mas casou com a minha mãe que era preta.

E as outras minhas irmãs eram tudo mulata. Eu e meu irmão saiu da cor da minha mãe. Mas, meu avô? Meu avô o cabelo dele parava aqui (mostra de novo o ponto). Nós penteava o cabelo:(imitando avô:)’Ara! Ara eu! Ara eu pega ocê!’ Tudo assim que ele falava. (imita de novo:) ‘Oça o tutra!” Sei lá, colher que ele pedia, a gente não sabia, se era uma coisa que ele pedia e a gente não sabia. (imita de novo:) ‘ Mim dá essa coisa aí o ningrinha!’: Nós pidia a ele.

Aí ele sabia o que era. Meu avô Antônio. Ele não era preto. Era mulato. Se era mulato de cabelo liso? Era mulato de cabelo liso. É. Veio da África. Meu avô, minha avó contava, porque na fazenda tinha muita gente africana, tinha…Angola, isso…D’Angola… isso tudo tinha.

Os português trazia ele pra aí. Tudo era assim.(Se irritando com a desconfiança dos entrevistadores reticentes com a descrição do avô): Meu avô era africano! Meu avô, minha avó, era tudo africano….(de novo irritada com a insistência da pergunta sobre o estranho biotipo de seu avô): É. Africano. Gente africano. Pois ele era africano! Munhambano é África!

É África. meu avô era africano! Quantas vezes quer que eu falo? (mais irritada ainda): Não! É África! Lugar na África (se acalmando:)… Aqui não tem Madureira? É como assim. É África. É mesmo que lugar da África. Aqui não tem cidade? Num tem Paraíba do Sul? Então? É como a África. É assim.

Aquele tempo…A gente morria de medo de fazer filho.

De que jeito que a gente vivia? O filho lá….Um dia chegava, tirava o filho da gente pra vender. Hum! Minha mãe num foi vendida? Minha mãe num era daqui. Minha mãe era lá da Bahia. Foi. Vendero aí pra um vendedor aí, ó! Meu avô num foi vendido? Meu avô era africano e foi vendido. Então? Foi vendido, num é? Foi o Visconde! Minha avó foi vendida. Isso tudo foi vendido. Agora vai vender quem é? Vão vender quem é? Vai vender ocê?…(Solta uma gargalhada) Vão vender quem é?”

Teresa e a República

…”Hoje é tudo diferente, meu filho. Óia…Porque que eles tiraram o Deodoro da Fonseca?

Porque Deodoro sabia governar! Inda outro dia (imitando o questionamento dos filhos)… Aí, oh mãe…Ó mãe, a Sra…(como se a interromper os filhos)…O que?? Deodoro sabia governar!! Assim que acabou o cativeiro, foi Deodoro que tomou conta. Deodoro botava tudo ali, na linha. Agora não. A mulher dele era boa. Ele era muito bom. A gente comia bem, bebia bem. Aquelas coisa que ficava ruim nas venda…ele mandava jogar tudo fora. Aí…Óia a gente panhando na rua!

Que é de que tá assim agora? Que é de? Que é de?.. Peixeiro, que chegava aí, da praia, lá do lado de lá, da praia de Niterói,…Chegava os peixeiros ? Dava tudo pro home. Ah…! Ele botava aqueles peixes tudo fora. A gente panhava aqueles peixes grandes. Ficava bem bom. Óia a gente se espanando nos peixes. Mas, agora?

Trabalhei pra Deodoro da Fonseca! Eu que tô aqui! Não me incomoda. Aqueles soldados (imitando o soldado lhe fazendo a corte:) ..Ih! De adonde ocê é, heim? E eu: Num tem conversa! Subia. Levando a roupa que minha tia lavava, eu ajudava ela a lavar, ajudava a engomar, viu? E tô aí, com a graça de Deus! Eu agora nem sei o que é soldado!? Soldado hoje é porcaria, não vale nada, não vejo nada. Eu ando na rua e num sei quem é soldado! Porque, aquele tempo…era SOLDADO!

Aquele tempo ocê conhecia GENERAL! Hoje em dia num sabe quem é general, não sabe quem é doutor, num sabe nada nesta vida!…Aquela época tinha (imitando marcha:) báu, báu, báu, báu! Aquelas fardas, que a gente passava, as fardas alumiando o sol, assim…ninguém podia. Agora, hoje em dia num se vê nada. Num vê nada. Anda de calça arregaçada. Aquele tempo, ocê via isso aqui do general, dos soldado…

Você dizia: Ih!, fulano, eles vem lá! Hoje em dia ocê até empurra eles assim…Soldado muito bem vestido, a roupa bem engomada. Quando era gala, a roupa branca…a coisa ali, ó! Eu tinha (respeito)! Eu tinha! Tanto que as vezes até tomava benção.

Ocês sabe que general naquele tempo era General. Hoje eu não sei quem é general! General assim, com estrela, (imitando marcha de novo:)…Táu, táu, táu, táu, chega só…só naquele pisar dele eu sentia medo. Soldado que ocê tem aí? As vezes eu fico assim oiando. Lá perto de mim mora um soldado. Eu falo (desalentada:)… Isso é soldado?! Ah…Eu tinha respeito de soldado. Hoje em dia não tenho respeito de soldado. Tinha”.

Jongo em 1874...

“O Jongo é dos africanos. É do meu avô…Meu avô era do cativeiro. Chamava Antônio Munhambano, africano. Eu sou de Paraíba do Sul. Ele primeiro era do Dr. Avellar. Ele era escravo do Dr. Avellar, num sabe? Ele era escravo do Visconde e do Visconde ele foi para o Dr. Avellar. O Visconde era o pai do Dr. Avellar. Não sei Visconde de quê. Só sei que é visconde, seu conde…naquele tempo, num é ? Foi lá em Paraíba do Sul, na fazenda de Avellar, num sabe?

Meu avô era africano. Foi achado. A parte da África eu não lembro. Só sei que ele era africano. Era ‘munhambano’. Era de Munhambá (sic) e quem trouxe ele pra aqui foi o português, né? Foi quem trouxe ele. O meu avô.

Ele tinha raiva de português porque trouxeram ele pra aqui. Diz que abanavam lenço encarnado e eles vinham chegando. Eles não sabiam naquele tempo quem eram e aí, trouxeram ele.…O Jongo representa pra mim a mesma coisa que é: Negócio da gente africana. O Jongo era festa dos cativos. Era Caxambu, viola…Tinha viola. Meu pai era tocador de viola. Antônio Bento da Silva. Tocava viola…e meu avô, tocava urucungo.

Não…cantado mesmo em…O Jongo era a festa dos pretos. Se era dos preto velho? Não. Era festa dos pretos. Pros brancos vê a gente dançar.

Era um terreiro grande, tocava o caxambu e os brancos vinham e a gente cantava pra eles vê a gente cantar e dançar. Era só pra eles vê. Que a gente era escravo, tava na fazenda. O que é que ia fazer? E se não dançasse, ó…!Era sábado e domingo. As vezes fazia na festa de São João. Foi meu avô quem trouxe o Jongo da África e botou na fazenda pra todo mundo.

Até hoje eu danço, canto o Jongo.Os instrumentos? O que eu sei era caxambu…É aquele de bater: caxambu. A viola era de tocar e o pandeiro acompanhava a viola e o meu avô tocava urucungo, sabe o que é não é ? Botava na barriga …O senhor não sabe o que é urucungo?!

Pois então!? É igual a berimbau. Só que naquele tempo não era berimbau. Era urucungo. Botava aqui, ó (mostra a barriga). Botava no umbigo a cuia e batia.

Eu achava o Jongo daquela época mais bonito. Agora eu faço o desse tempo mesmo. Deixa eu lembrar…Um bom…Jongo dele mesmo, do meu avô. Quando ficou forro e a gente cantava. ‘Carolina‘. Cantava assim:”(cantando)

(Áudio e partitura:Arquivo grupo Vissungo, RJ)

Oh, pra que pente carorina?
Num tem cabelo
Pra que pente Carorina?
Sem cabelo
Pra que pente Carorina?

Ê pra que pente Carorina?
Sem cabelo, pra que pente Carorina?
Ê pra que pente Carorina?
Não tem cabelo,
pra que pente Carorina?”

…”Mas era eles que cantavam e a gente respondia…Era língua africana sim, uai?! Assim. A gente até caçoava deles (zombando): Canta assim, num é ? (enfática): Era língua sim! (repete a letra do ponto de Jongo sem explicar)…essa era na língua deles (canta mais) …mas a gente não respondia assim. Respondia depois.”

Jongo 100 anos depois

…”Hoje num tem mais nada. De primeiro, na casa dessa só tinha Jongo (se referindo á Madureira) . Todos os sábados nós dançava mas…o pessoal morreu. Num ficou ninguém. Cada casa tinha Jongo. Cada casa tinha Jongo. Era todo sábado.

Ah…Quem canta o Jongo sou eu…tem essa outra aqui mais…as outra precisa…Pode aprender. Nós aprendemo, num é? Elas pode aprender, vê a gente dançar, cantar e elas aprende também.…Tem. Tem. Em Madureira tem muito. Tem muito, oh!.. A Maria (se referindo á Maria Joana, mãe de Darcy do Império, já falecido e hoje conhecido como Darcy do Jongo) quando deu o Caxambu teve gente lá assim, ó! Na casa dela. Agora eu não. Se ocês for lá vê. Eu nunca mais dei. Eu não. Meu marido morreu, eu fiquei eu com meus filhos, sabe. Graças a Deus.

Fiz Jongo! Óia…Ainda hoje eu soube que lá na minha terra tem Jongo quase todo sábado. Diz que tem Jongo. Naquela casa que ocês….diz que eu vou lá. Ela disse que qualquer tempo ela vai me levar lá. Diz que o Jongo, que o bagúio lá é assim! O Caxambu lá é de arromba. (para Joana):..Ocê tem num vontade de pular no Caxambu de lá não, Maria? O Caxambu lá é de fato.

E a gente sabe cantar aqui? Num sabe cantar. Num tem voz! Essa gente aqui num tem voz pra cantar. Quem vai cantar o Caxambu sou eu…Aquela pequenazinha hoje num sei se vem, é só. E lá não…todo mundo à cantar, todo mundo à dançar! Lá em minha terra. Graças a Deus!

Óia…Todo mundo fala: A Sra., já tá com essa idade e ainda dança? Danço! Inda pulo o meu Caxambu! Graças á Deus!”

——–

Notas finais:

Maria Teresa teria nascido em 1859. Os fatos dos quais nos dá conta são de quando ela estava com cerca de 15 anos. Logo, o Jongo que descreve é, portanto, aquilo que sobre a manifestação poderia saber uma adolescente. São preciosas no entanto as descrições sobre uso no Jongo da época, de instrumentos como o Uruc-ungo (a raiz ‘Ungo” diz respeito a um arco musical tipicamente Bantu, angolano mais precisamente) e a viola.

Em 1874, já com o processo de decadência das fazendas da região se aguçando, sabe-se que foi hábito comum entre os ‘Barões do Café‘ demonstrar, ostensivamente, os resquícios de fausto que lhes restavam, forçando seus escravos a se exibir para visitas, vindas, não raro, da Corte.

Foram, certamente, a partir destas viagens, que danças como o Lundu, por exemplo, migraram para a os salões da Corte.São importantíssimas as informações que Teresa presta, no sentido de que seu avô, africano de nação ‘Munhambano‘, foi quem trouxe a prática do Jongo para o local (não o seu avô, pessoalmente, é claro, mas africanos bantu, trazidos para aquela região, de cultura similar a dele). O fato curioso dela falar e insistir que seus avós eram mulatos de cabelo liso, pode ser, definitivamente, explicado pelos dados a seguir.

Num gráfico sobre a demografia escrava na região de Vassouras, RJ, está demonstrada a existência na região de Vassouras e Paraíba do Sul de indivíduos da etnia Inhambane, associação evidente com o ‘Mu-nhambano’ citado por Maria Teresa.

Inhambane é de fato, um povo que habita uma vasta região ao norte de Maputo, em Moçambique, no litoral do país e que foi, por conta disso, exposta, durante muito tempo, às influências gerais das históricas relações entre Ásia e África, ocorridas na costa africana do Oceano Índico, relações estas que produziram, entre outros efeitos, alguma mestiçagem de negros com árabes (cujos interesses comerciais penetraram ali antes dos portugueses) e indianos (que marcaram fortemente o perfil étnico da população do Madagascar, por exemplo, ilha muito próxima à costa a Moçambique).

Por esta hipótese, os avós de Maria Teresa foram pegos no território Inhambane e postos num navio que, atravessando o cabo da Boa Esperança, deu no oceano Atlântico, seguindo para o Brasil.

Sendo o kimbundo angolano a língua africana predominante entre os escravos da região, usava-se o prefixo coletivo ‘Mu” antes do local de origem das pessoas, para identificá-las mesmo que esta origem não fosse Angola (‘Mu-brasil’, por exemplo seria…brasileiro).

Por esta hipótese etimológica quase cabal, Mu-inhanbane (ou ‘munhanbano’como quase vernacularmente falava Teresa) eram pessoas oriundas do Inhambane, Moçambique, região com franca miscigenação entre africanos negros e asiáticos oriundos em tempos mais remotos das ilhas do Oceano Índico e da costa do continente asiático, razão também cabal do fenótipo do avô de Teresa ser ‘mulato de cabelo liso’.

Segundo o gráfico acima citado (de Flávio G. dos Santos), haviam apenas 8 indivíduos de origem Inhambane na região de Vassouras entre 1837 e 1840, seis deles residindo em fazendas nas quais pode ser incluída a Santa Teresa, citada por Maria Teresa. Alguns destes indivíduos são citados nos autos do processo de condenação de Manoel Kongo à forca em 1839. A hipótese de, pelo menos, dois destes seis escravos serem parentes (dois seriam os próprios avós ‘Munhambanos‘) de Maria Teresa é de todo modo, impressionantemente plausível.

Precioso é, do mesmo modo, seu testemunho pessoal – e ocular- de que eram comuns na região as torturas, as fugas e os ‘aquilombamentos‘. Os locais descritos por ela, correspondem a onde está circunscrito hoje parte do Município de Avellar, vizinho de Paraíba do Sul.

Na crônica da insurreição de escravos conhecida comoQuilombo do Manoel Congo‘ (sobre o qual este autor escreveu o espetáculo oAuto do Manoel Kongo que pode ser lido neste link“), ocorrida em 1838 nesta região), tem papel importante nos conflitos a fazenda de Santa Teresa, já pertencente naquela época a João Gomes Ribeiro de Avellar, o Visconde do Paraíba (chamado de Visconde de Avellar por Maria Teresa).

O Barão de São Luiz, Paulo Gomes Ribeiro de Avellar, filho do visconde, (talvez o tal que bateu na cara do pai de Teresa e é chamado por ela de ‘Lulu‘) é citado no processo que condenou Manoel Congo à morte, como dono do escravo citado como sendo o próprio ‘Vice Rei‘ do quilombo, um tal de Epifânio Moçambique, morto na refrega.

Não tendo feito qualquer comentário sobre o retorno de seu pai, de sua mãe ou dela mesma para a fazenda, depois da fuga narrada, fato que, por sua relevância dramática, com certeza teria sido citado na entrevista, pode-se deduzir que Maria Teresa (e toda a sua família), viveu na condição de quilombola a partir de 1874.

A afirmação que faz de que ainda viu instrumentos de tortura na Corte, atesta o fato surpreendente de que ela já estava residindo no Rio de Janeiro, na proclamação da República, havendo ficado livre, portanto, cerca de 14 anos antes da Abolição.

Num ano destes aí – já na década de 2000-  esta entrevista apareceu transcrita, desautorizadamente, sem crédito algum à sua fonte que sou eu, Spirito Santo e o  Grupo Vissungo (grupo musical e de pesquisa que teve a iniciativa de entrevistar Teresa em 1973 – com a participação dos entrevistadores citados, entre eles este que vos escreve) num site do departamento de História de uma importante Universidade aqui do Rio de janeiro.

Advertidos os responsáveis por email, a transcrição foi deletada do site. Informamos aos leitores por  causa deste fortuito, antiético – e algo recorrente – incidente que a transcrição de documentos e fontes orais, do mesmo modo que qualquer documento histórico, precisam ter os créditos dos autores devidamente informados, como aliás adverte a licença Criative Commons que inserimos no topo desta matéria.

Esta eletrizante entrevista é um dos eixos temáticos principais do meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão’ que sairá brevemente (Já saiu!) pela Ed.Cultura  (versão papel) e pela Editora on line KBR Digital.

Spírito Santo

(Atualizado em 2013)

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~ por Spirito Santo em 29/06/2007.

13 Respostas to “A Roça de Teresa”

  1. *berimbau

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  2. Outra coisa, aparentemente insignificante mas que me chamou muito a atenção no depoimento de D. Maria Teresa é a distinção que ela faz entre instrumento de tocar e instrumento de bater, dando a conhecer a diferença de manuseio e uso dos instrumentos percussivos (caxambu, tambu) e os de corda (viola). Nesse sentido, eu que não entendo nada de instrumentos musicais, arrisco dizer que o urucungo e berinbau resultam mais complexos, vez que comportam as duas dimensões (corda e percussão). E digo que o detalhe é insignificante apenas se considerarmos apenas a lógica hegemônica do conhecer que despreza o sentido já contido na etimologia das palavras. Assim, o uso do instrumento na “função” Jongo tem tudo a ver com o nome que a ele se dá. Ele significa o que é e é o que significa. Detalhes como estes marcam bem a especificidade de uma dada visão de mundo, e no caso, ilustram um pouco dessa herança bantu – mas que também está em outros universos como os de matriz tupi.

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  3. Muito obrigada pelas dicas ;). A ‘boa sorte’ já está me guiando. Assim que eu tiver vínculo institucional e verba, inicio o campo. Você com certeza vai me ajudar muito (já está ajudando!) Um grande abraço.

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  4. Elisângela,

    Esteja às ordens. O material é para isto mesmo. Falando em Espírito Santo (também sem trocadilho) saiba que a minha família por parte de mãe é de lá (embora o meu sobrenome seja do meu pai que é mineiro, rs rs rs). A área de minha mãe é aquele próxima de Cachoeiro, exatamente Jerônimo Monteiro, perto de Rive onde moram outros tio e primos.

    Andei pesquisando levemente o jongo de lá, não aprofundei nada não, mas vi coisas (uma roda improvisada) que provam a região outrora foi muito rica culturalmente. O local que eu vi uma roda chamava-se Boa Sorte e era metade do caminho entre Jerônimo e Rive. Não havia nenhum jongueiro vivo, exceto um senhor chamado Alcebíades, de Rive (já falecido, acho) que me disse que Boa Sorte havia sido a grande fazeda de escravos da região e que todos (inclusive os parentes de minha mãe) ganharam terras.

    Me conte sobre suas pesquisas depois. Tenho muito interesse no assunto.

    bs

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  5. Elisângela,

    Esteja às ordens. O material é para isto mesmo. Falando em Espírito Santo (também sem trocadilho) saiba que a minha família por parte de mãe é de lá (embora o meu sobrenome seja do meu pai que é mineiro, rs rs rs). A área de minha mãe é aquele próxima de Cachoeiro, exatamente Jerônimo Monteiro, perto de Rive onde moram outros tio e primos.

    Andei pesquisando levemente o jongo de lá, não aprofundei nada não, mas vi coisas (uma roda improvisada) que provam a região outrora foi muito rica. O local que eu vi uma roda chamava-se Boa Sorte e era metade do caminho entre Jerônimo e Rive. Não havia nenhum jongueiro vivo, exceto um senhor chamado Alcebíades, de Rive (já falecido, acho) que me disse que Boa Sorte havia sido a grande fazeda de escravos da região e que todos (inclusive os parentes de minha mãe) ganharam terras.

    Me conte sobre suas pesquisas depois. Tenho muito interesse no assunto.

    bs

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  6. Titio, fiquei feliz com esse teu post. Além da entrevista fabulosa, a tua contextualização ao final é a cereja do bolo. Ele me ajudou muito a entender algumas coisas com as quais já vinha me deparando. Estou iniciando um projeto de pesquisa pós doc sobre o Jongo no Espírito Santo (sem trocadilhos, rs). Gostaria de saber se posso utilizá-lo como apontamento/revisão bibliográfica neste projeto. Assim que eu tiver novidades sobre o andamento, também aviso. Parabéns pelo trabalho!

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  7. Valeu. Vou atualizar o link. O Auto é outro trabalho de fôlego. Pesquisa longa nos autos do processo de condenação do cara.

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  8. Titio,

    Ganhei minha manhã de hoje lendo esta peça importante da história do Negro e sua cultura, tão criminosamente omitida pela nossa elite burra e truculentamente dominadora. Posso afirmar que, ao ter acesso a informações como essa que você oferece, “O Brasil não conhece o Brasil”. Obrigado,

    APOLONIO NETO

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  9. Falta o link do Auto do manoel Kong.

    Fantástico esse post. Que maravilha!

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  10. Aí Tio,
    Você por sí só, já é uma acervo!
    Minhas visitas ao Blog e ao Face, tem sido enriquecedoras!
    Parabéns!

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  11. Bárbara,

    Coisa incrível: Acabo de descobrir revirando meus alfarrábios, um excelente publicação de 1998 denominada ‘Almanaque Aluá/1, editada por ongs aqui do Rio. Pois bem, nela, numa interessante matéria da antropóloga Lygia Segala sobre Victor Frond, descubro que as litografias de que falamos, antes atribuídas todas ao S.Sisson, são, na verdade de diversos autores, entre os quais,F.Sourrieu, J.Laurens e D.Duruv, os quais passo a citar nos créditos das gravuras aqui desta matéria.

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  12. Oi Bárbara,

    Obrigado pela visita ao meu blog.

    Encontrei aquelas litografias do Sisson na internet mesmo, buscando fotos de Victor Frond.

    Na verdade, há uma relativa injustiça nesta história: As litografias foram feitas a partir do trabalho do Victor Frond, fotógrafo fantástico que visitou o Vale do Paraíba do Sul ali pela década de 50 do século 19, cujas imagens originais, o Sisson litografou, acho que já na França. O grande mérito (das imagens impressionantes), que deveria ser do Frond, acabou sendo para o Sisson, um muito experiente comerciante de imagens (além de artista excelente, sem dúvida)

    Abs

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  13. Olá Spirito,
    Pesquisando na internet encontrei seu post “Galdino e o Quarto Escuro” no Overmundo e vim parar aqui.
    Estou pesquisando a abra do Litógrafo S. Sisson. Vi que postou imagens de escravos que ele litografou. São belíssimas! Eu não conhecia estas obras. Sabe onde posso encontra-las?
    Um grande abraço e parabéns pelo seu trabalho!

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